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O despertar de Uma Vida Escondida

Malick tem um sentido surpreendentemente refinado para narrar histórias através de imagens exuberantes e vívidas, tão perto de serem reminiscências de sonhos como de serem a lucidez mais sóbria e exacerbada que sentimos. Sempre que vejo um filme dele, um mistério descobre-se.

Não é de todo incomum fantasiar que o nosso mundo foi dedilhado por mais pessoas do que nós alguma vez possamos vir a conhecer, muito menos a imaginar. É um processo natural de criação: “Deus quer, o Homem sonha, a obra nasce”. E, entre os muitos sonhos da realização que vão para além do ser humano, nascem filosofias que nem sempre corroboram as vontades dos tempos, as exigências políticas, as demandas das massas ou o espírito das modas.

Encurraladas, estas minorias — como a história da guerra, da perseguição e do terrorismo humano nos contam melhor do que ninguém — ficam veladas pelo obscurantismo opressivo de pressões, algumas ao estilo “kafkiano”, e no entanto, em Hidden Life (ou Uma Vida Escondida, 2019, Terrence Malick), esta profusão de sistemas controladores no regime nazi durante a Segunda Guerra Mundial é tão facilmente identificável como é o acto nobre de um sujeito que tem tudo a perder para continuar a sua insurreição contra o Estado, o pensamento e a ordem estabelecidas quase em total infalibilidade e resignação.

Porém, quando à primeira vista vemos uma batalha contra o regime em que o carrasco é sempre a liberdade de escolher contra a doutrina em vigor, mais profundamente, o filme põe o espectador lado a lado com uma história de livre-arbítrio e de escolha pela dignidade humana, uma luta que deve preencher e ser bússola para qualquer vida até ao seu fim, mesmo que o curso da história demore a encontrar os seus pontos cardeais.

A actualidade de falar sobre as memórias de uma história incontornável do nosso passado é a mesma que nos propõe tentar compreender o ser humano segundo a pedra basilar da nossa fundação: o humanismo continua a ser o denominador comum a todas as escolhas que nos implicam viver como uma civilização e as fracções de potencial dos homens e das mulheres são, como diz a personagem principal, a capacidade que existe em nós para destrinçar entre agir correcta ou erradamente.

Para este efeito, o filme evidencia a imolação de uma personagem que não é retratada como um herói – e que morre em vão apenas por todos aqueles que, propositadamente, não querem o seu reconhecimento; ou por todos aqueles que temem não terem a sua emulação. Mais do que isso, Hidden Life coloca com engenho todos os sentimentos que estão submersos, domesticados e às vezes aparentemente latentes, numa ordem inteiriça da escalada humana para o conflito, a divergência e o isolamento; por outro lado, a observação, quase decadente, de escolher não proliferar Hitler retratou-se como a viagem dolorosa de aceitação perante o destino imprevisível de todos aqueles que lhe eram queridos, segundo a hegemonia pessoal da sua escolha vital.

E, tal como lentamente o nosso espírito se funde na catarse de Franz, chegamos ao final a perceber que não há catarse nenhuma se não levantarmos o pano e não falarmos dela, se não incitarmos a vida em pressupostos humanos (“God gives us free will. We’re responsible for what we do”, nas palavras de Franz). Esta porção de cinema engrandeceu-me os sentidos e levou-me a perceber todos os homens e mulheres que Franz representa num caminho de solidão, numa resposta de total redenção e numa aceitação absoluta ao destino que há-de vir. Aquilo que deixa estas pessoas imunes à dor é tão somente a dor maior de não serem pessoas autênticas, fiéis àquilo que as faz sentir humanas. E mais tarde, como demonstra Franz, é como se sente Evey em V for Vendetta (James McTeigue, 2005): quando somos livres, não há prisão que nos consiga encarcerar.

Malick tem um sentido surpreendentemente refinado para narrar histórias através de imagens exuberantes e vívidas, tão perto de serem reminiscências de sonhos como de serem a lucidez mais sóbria e exacerbada que sentimos. Sempre que vejo um filme dele, um mistério descobre-se; um enigma fica por responder. Neste filme, o centro gravitacional é uma afirmação perante todo o mundo, intemporal e inexorável ao nosso tempo, principalmente à esfera individual: se não for possível acreditar na iniciativa humana de índole livre, a capitulação humana rende-se ao elitismo surrealista. Ao contrário do que aconteceu em Badlands (1973), aqui Malick procura exibir mais do que a naturalidade do terror: o quão fácil é desprezar, espezinhar e retirar uma vida humana para proveito da máquina, como se fosse mais um salto entre dentes de uma engrenagem.

O trocadilho inicial com o argumentista Charlie Kaufman, feito no título com o filme O Despertar da Mente (Michel Gondry, 2004), é propositado, pois aquilo que a escrita de Kaufman nos impele a reflectir, todo o conteúdo de Malick leva-nos a submergir; as questões existenciais que se apresentam ao indivíduo são retratadas através de uma mundividência clara e rigorosa em que o critério de assunção sobre um determinado assunto é respondido numa viagem dos sentidos.

O Malick de Emmanuel Lubezki, ou, agora, de Jörg Widmer, é um maestro da consciência imagética dos espectadores, envolvendo-os num tornado de sensações, numa viagem de 360 graus à sua história, em que todos os momentos da sua cinematografia são ângulos interiores de quem observa e projecta um vazio igual àquele que fica quando se sai da sala de cinema. O tempo de reflexão que levamos deste filme é um exercício prático que fazemos ao encontro da nossa vida escondida, da nossa luta sem precedentes e das verdadeiras motivações humanas.

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