Livre convocou Joacine para reunião, mas deputada diz que não recebeu nada

Dez dias depois do IX congresso, o Livre e a sua deputada eleita continuam desencontrados. Desta vez a propósito da reunião em que será votada a proposta de retirada de confiança política a Joacine Katar Moreira.

Foto
Joacine Katar Moreira diz que não foi convocada para a assembleia e não diz se estará presente Daniel Rocha

Os desentendimentos entre os órgãos eleitos do Livre e a sua deputada continuam. Esta quarta-feira, os dois lados emitiram versões diferentes sobre a convocação da deputada para a assembleia de quinta-feira, reunião na qual será votada a retirada de confiança política a Joacine Katar Moreira, deputada única eleita pelo partido para o Parlamento.

Ao PÚBLICO, fonte do Livre garantiu que Joacine foi convocada para a reunião através de dois e-mails: o primeiro terá sido enviado na segunda-feira, data em que a reunião foi reagendada e comunicada a todos os membros do partido.

Esta quarta-feira, pelas 11h, seguiu um segundo e-mail para Joacine Katar Moreira, no qual a assembleia do Livre pergunta directamente a Joacine Katar Moreira se irá comparecer ao encontro. A pergunta foi enviada para o endereço electrónico parlamentar (oficial) da deputada única eleita pelo Livre, com o conhecimento da direcção do partido e do conselho de jurisdição. 

Contactado pelo PÚBLICO, o assessor de Joacine Katar Moreira afirmou que “a deputada não recebeu qualquer convocatória”.​ Questionada igualmente acerca das suas expectativas para um entendimento com a direcção a deputada não respondeu. 

Apesar de o Livre garantir ter enviado a convocatória, a presença da deputada não será necessária para avançar com a votação da retirada de confiança, explica ao PÚBLICO fonte do partido. A assembleia do Livre olhará também para o direito de resposta de 12 páginas de Joacine Katar Moreira entregue no IX congresso. No documento, a deputada refere “várias omissões, deturpações e enviesamentos” e afirma que “a cultura do Livre não é esta”. “Ao longo dos últimos meses, não fiz outra coisa que não fazer o Livre chegar ao Parlamento e consequentemente ao país”, argumenta no documento, remetendo para a página de deputada no Parlamento a consulta ao trabalho parlamentar até agora executado.

Depois de ter estado inicialmente agendada para esta segunda-feira, “questões processuais” levantadas por alguns membros levaram a assembleia a remarcar o encontro. A reunião acontecerá na sede do partido, pelas 20h, e “poderá ser de carácter reservado a membros da assembleia e demais órgãos”. 

O diferendo entre a deputada e os órgãos dirigentes do Livre surgiu logo no início da legislatura, após Joacine Katar Moreira ter decidido abster-se num voto de condenação por “mais uma agressão israelita em Gaza” apresentado pelo PCP. Desde então, não mais parou. Apesar da tensa relação com a direcção do partido, que se prolonga quase desde o início da legislatura, Joacine Katar Moreira já garantiu estar “completamente fora de questão” renunciar ao mandato e deixar o seu lugar na Assembleia da República.

No início do encontro, será votado o “carácter reservado” da reunião, seguindo-se a eleição da mesa da assembleia e a informação de renúncia do membro da assembleia eleito Tiago Charters de Azevedo, diminuindo a assembleia do Livre de 43 para 42 membros. Esta quinta-feira, Tiago Charters de Azevedo afirmou no seu Twitter que renunciava ao mandato por ter desaparecido a sua “réstia de ânimo” para desempenho de mais um mandato, ainda que preveja manter-se como militante do partido.

Dos 42 membros eleitos para a assembleia do Livre, 26 transitam dos antigos órgãos internos do partido — com um historial de tensão com Katar Moreira —, o que coloca o cenário de retirada de confiança política como o mais provável.

O Livre poderá tornar-se no primeiro partido a ficar sem representação no Parlamento, excluindo eleições, se retirar a confiança a Joacine Katar Moreira e esta decidir passar a deputada não-inscrita.

Sugerir correcção