Opinião

O regresso da geopolítica

Nada do que conquistámos – democracia, liberdade, direitos civis, protecção das minorias – é seguro e permanente. Importa, por isso, perguntar: 100 anos depois, para onde vai o mundo?

Às vezes, para vermos mais à frente, é preciso olharmos mais atrás. Como disse Tocqueville, quando o passado deixa de lançar a sua luz sobre o futuro a mente do homem vagueia na escuridão.

Há um século, em 1920, a Europa tinha saído da 1.ª Guerra Mundial e os países vencedores lançavam a Liga das Nações para se construir uma ordem internacional mais pacífica em que a guerra entre Estados fosse proibida. O projecto não foi aprovado pelo Senado americano e nas décadas seguintes cresceram as rivalidades entre as potências europeias, as guerras comerciais e o proteccionismo, a crise económica e social, a Grande Depressão de 1929. Os movimentos populistas e fascistas cresceram na Europa e o mundo reentrou numa turbulência assustadora. Veio a 2.ª Guerra Mundial, o nazismo e o Holocausto, a devastação e a escuridão. Auschwitz foi libertada apenas há 75 anos. Nada do que conquistámos – democracia, liberdade, direitos civis, protecção das minorias – é seguro e permanente. Importa, por isso, perguntar: 100 anos depois, para onde vai o mundo?

Alguns sinais são positivos. Nunca como hoje o planeta produziu tanta riqueza. Nunca tantas pessoas saíram da linha de pobreza. Nunca o crescimento das classes médias foi tão significativo. Nunca a prosperidade e bem-estar chegaram a tantas partes do mundo. Nunca a ciência e tecnologia proporcionaram tantas soluções. Mas existem sinais negativos. Há uma crise da democracia, que em muitos países está à deriva. Há um desprezo das grandes potências, em particular os EUA, pelas regras e instituições multilaterais que são essenciais para governar o mundo. As guerras comerciais e o proteccionismo estão de volta e ameaçam a prosperidade. A economia mundial mostra sinais de arrefecimento. A desigualdade cresce e a riqueza concentra-se no topo dos mais ricos e não é distribuída pela maioria. A desconfiança dos cidadãos nas instituições democráticas cresce. Os movimentos populistas e extremistas consolidam-se em muitos países. A xenofobia, o racismo, o antissemitismo, o desprezo pelo outro, estão de volta. Se, por um lado, o mundo está mais interconectado do que nunca, também está mais imprevisível e incerto, mergulhado numa mudança geopolítica tectónica e numa turbulência macroeconómica.

No meio de tudo isto, 2019 viu intensificar-se a competição estratégica entre EUA e China pela hegemonia mundial. Há uma superpotência dominante – os EUA – que é poderosa em todos os domínios e uma grande potência em ascensão – a China – cada vez mais assertiva e que ambiciona reforçar o seu lugar no centro da ordem internacional. Os EUA estão obcecados com a China para conter a sua ascensão e a China está obcecada com os EUA para impedir o domínio americano, em particular na Ásia. Esta disputa vai acentuar-se e, sabemos pela História, que o risco maior é as duas grandes nações caírem na chamada “Armadilha de Tucídides”. Na sua dinâmica de agressividade podem atingir um ponto de não retorno que torna o conflito inevitável.

Se olharmos para os últimos 30 anos, a China é um dos vencedores das mutações geopolíticas. Em 1989, com a queda do muro de Berlim e depois o colapso da União Soviética, e em 2001, na sequência dos ataques às torres gémeas e os EUA focados na “guerra ao terror”, a China percebeu que a sua hora tinha chegado para expandir o seu poder económico e comercial e o seu “soft power”. Em 2016, com a eleição de Trump e a sua política de desprezo pelas instituições multilaterais e as regras que estão na base da ordem internacional, a China percebeu que, se o país fautor dessa ordem a rejeita, o melhor é criar uma ordem nova. E hoje temos uma China mais assertiva e mais ambiciosa nos seus objectivos globais.

Mas 2020, o ano do Rato, o primeiro de um ciclo de doze no zodíaco chinês, que devia ser auspicioso, está a começar mal. O arrefecimento da economia chinesa; a situação em Hong Kong; a recente eleição da Presidente Tsai Ing-wen em Taiwan (que fez a sua campanha desafiando o conceito “um país, dois sistemas”); a guerra comercial com os EUA (que pode agravar-se, apesar do mini-acordo recente); a dificuldade de Shangai se afirmar como uma grande praça financeira internacional; os conflitos no mar do sul da China com todos os vizinhos (na disputa da soberania sobre as ilhas estratégicas); a fragilidade da segurança energética chinesa (que importa do exterior 2/3 do petróleo e 40% do gás e teme um embargo naval americano); a recente epidemia do coronavírus que pode ter consequências imprevisíveis; tudo isto configura um quadro de maior dificuldade geopolítica para a China, onde a questão de Taiwan é preocupante. As marinhas chinesa e americana patrulham os estreitos de Taiwan.

Em 1996, quando houve o último grande choque entre a China e os EUA por causa de Taiwan, a hierarquia chinesa transmitiu aos EUA que Taiwan é inegociável e que a China não hesitará em utilizar armas nucleares para a defesa da sua unidade. Ficou célebre a expressão de um general chinês: Taiwan é a nossa Alsácia-Lorena e vocês de certo não vão trocar Los Angeles por Taipé. Taiwan é um pólo maior de preocupação porque é o único potencial conflito no mundo onde duas superpotências nucleares estão frente a frente. Esperemos que a razão impere e nenhum passo em falso complique a situação.

A intensificação da competição estratégica entre EUA e China, que irá definir a balança de poder neste século, está a minar as regras e instituições que definiram a ordem internacional depois da 2.ª Guerra Mundial. Com a emergência de um sistema onde domina o poder cru e onde as regras valem pouco, a Europa fica desorientada, no meio da emergente anarquia “hobbesiana”. A Europa não sabe viver numa ordem em que a geopolítica e o poder dominam porque não pensa em termos geopolíticos e precisa de regras para actuar. Neste quadro a Europa pode ser uma das principais vítimas da competição estratégica entre os EUA e a China. É urgente reagir e, no ano de Beethoven e Rafael, é importante recuperar a criatividade e o espírito inovador, sob risco de no futuro a Europa ser apenas um museu do mundo.

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