Reichardt, Ferrara, Hong, Petzold… Berlim 2020 refresca a competição

O 70.º aniversário do festival alemão traz uma selecção competitiva mais atenta do que em anos anteriores, com autores de renome a estrearem-se no festival… e sem “filmes Netflix”.

,70º Festival Internacional de Cinema de Berlim
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"My Salinger Year", do canadiano Philippe Falardeau, na sessão de abertura do Festival,"My Salinger Year", do canadiano Philippe Falardeau, na sessão de abertura do Festival ,
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"A Metamorfose dos Pássaros" de Catarina Vasconcelos na nova secção competitiva Encounters
Preto M
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Projecto do russo Ilya Khrzhanovsky "DAU", inspirado pela vida do físico teórico soviético Lev Landau
Festival de Cinema de Nova York
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First Cow, de Kelly Reichardt
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Abel Ferrara apresentará uma nova colaboração com Willem Dafoe, Siberia
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Days é o novo filme de Tsai Ming-Liang

Kelly Reichardt, Abel Ferrara, Christian Petzold, Hong Song-soo, Philippe Garrel, Rithy Panh, Tsai Ming-Liang — e ainda nem chegámos à metade da competição oficial do 70.º Festival de Berlim, anunciada esta manhã em conferência de imprensa em Berlim. São 16 estreias mundiais e duas estreias internacionais que vêm rejuvenescer a competição oficial do festival alemão, que decorrerá este ano de 20 de Fevereiro a 1 de Março, sob a nova direcção de Mariette Rissenbaek e Carlo Chatrian. 

Berlim anunciou hoje igualmente a única produção americana de peso no programa deste ano — ‘Bora Lá, a nova animação dos estúdios Pixar, dirigida por Dan Scanlon e ambientada numa civilização mágica. Chris Pratt e Tom Holland dão a voz às personagens principais do filme, que terá estreia mundial fora de concurso e chegará às salas portuguesas a 5 de Março.

A competição 2020 inclui cineastas de nome que são estreantes na competição do festival — a americana Kelly Reichardt (Wendy & Lucy, O Atalho) com o seu novo filme First Cow, vindo de Sundance; o veterano francês Philippe Garrel com Le Sel des Larmes; o cambojano Rithy Panh (A Imagem que Falta), com Irradiés, o único documentário no festival; ou o iraniano Mohammad Rasoulof, com There Is No Evil. 

Ao seu lado, repetentes no festival: o alemão Christian Petzold (Barbara, Phoenix), com Undine, de novo com a dupla de actores de Em Trânsito, Paula Beer e Franz Rogowski; o coreano Hong Sangsoo com The Woman Who Ran; Abel Ferrara, com Siberia, filme “não-linear” com o cúmplice de sempre Willem Dafoe; ou o malaio-taiwanês Tsai Ming-Liang, com Days, a sua primeira longa de ficção desde Cães de Palha.

A própria cidade de Berlim estará no centro de algumas das escolhas, a começar por uma nova adaptação, contemporânea, do clássico de Alfred Döblin Berlin Alexanderplatz, dirigida pelo alemão Burhan Qurhami e com o luso-guineense Welket Bungué no papel principal, e passando por My Little Sister, produção suíça de Stéphanie Chuat e Véronique Reymond ambientada na cena teatral berlinense, com Nina Hoss e Lars Eidinger.

Berlim, Cannes, Locarno

A habitual dimensão “activista” do concurso está este ano mais diluída, embora não totalmente ausente — de recordar que o festival acolheu anteriormente os filmes rodados na clandestinidade pelo iraniano Jafar Panahi, e este ano mostra o novo filme de Mohammad Rasoulof, também ele filmado em segredo. Na conferência de imprensa, Carlo Chatrian apontou os casos da entrada brasileira Todos os Mortos de Caetano Gotardo e Marco Dutra, sobre as sequelas da escravatura, ou de Never Rarely Sometimes Always, da americana Eliza Hittman, que o director disse ser um modelo de um novo possível cinema feminista.

O que a selecção confirma é a vontade de recolocar a competição de Berlim no mesmo patamar de Cannes e Locarno, e o desejo de recentrar o festival em visões específicas de autores com coisas para dizer. Um exemplo-limite será a atenção dada ao alucinante projecto do russo Ilya Khrzhanovsky DAU, inspirado pela vida do físico teórico soviético Lev Landau e que, depois de quase 15 anos de trabalho, foi finalmente revelado ao público numa instalação multimédia em Paris em 2019 onde 12 longas diferentes eram exibidas ao longo do dia. Berlim apresentará a concurso um filme inserido no projecto, DAU.Natasha, com o documentário DAU. Degeneratsia a ser mostrado na secção Berlinale Special, que agrega os filmes anteriormente apresentados fora de competição, e onde se mostrará igualmente o documentário de Vanessa Lapa Speer Goes to Hollywood.

A selecção competitiva incluirá ainda Effacer l’historique da dupla franco-belga Benoît Delépine/Gustave Kervern, El Prófugo da argentina Natalia Meta, Favolacce dos irmãos italianos Damiano e Fabio d’Innocenzo, The Roads Not Taken da britânica Sally Potter, com Javier Bardem e Elle Fanning, e Volevo Nascondermi do italiano Giorgio Diritti.

Em resposta a uma pergunta da imprensa presente, Carlo Chatrian afirmou que nenhum dos 18 filmes escalados para a competição foi produzido por ou para serviços de streaming. “Acreditamos na experiência de ver um filme em sala,” disse, sublinhando que esse não foi o critério central da escolha, mas que desde o princípio ficou decidido que os filmes em competição teriam de estar disponíveis para distribuição em sala.

O festival inaugurará a 20 de Fevereiro, com a sessão oficial de abertura entregue não ao Pinóquio de Matteo Garrone como anteriormente anunciado mas sim a My Salinger Year, do canadiano Philippe Falardeau (Monsieur Lazhar), baseado no livro de Joanna Rakoff sobre o ano que passou a trabalhar com a agente literária de J. D. Salinger. Margaret Qualley e Sigourney Weaver têm os papéis principais.

Portugal estará este ano apenas representado na nova secção competitiva Encounters pela longa de Catarina Vasconcelos A Metamorfose dos Pássaros e no Forum Expanded por Quantum Creole de Filipa César.

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