Com polémica, Polanski lidera nomeações aos César

O Oficial e o Espião, o novo filme do realizador acusado de violação e abuso sexual, está nomeado para 12 prémios da indústria cinematográfica gaulesa. Governo de Macron junta-se aos protestos contra a decisão da Academia Francesa de Cinema.

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Roman Polanski Kacper Pempel/Reuters

A polémica não é de agora, mas volta a despertar após o anúncio de que O Oficial e o Espião (J'Accuse, no original), o novo filme de Roman Polanski, arrecadou esta quarta-feira 12 nomeações aos Prémios César, os mais importantes do cinema francês.

J'Accuse, o título da carta que Émile Zola publicou no jornal L’Aurore a 13 de Janeiro de 1898, dirigida ao Presidente francês Félix Faure, acusando membros do aparelho militar e do governo de cumplicidade na forjada condenação por traição de um inocente, o oficial de artilharia judeu Alfred Dreyfus, estreou-se mundialmente no Festival de Veneza, onde recebeu o Prémio do Júri.

A película de Polanski, uma adaptação do romance An Officer and a Spy de Robert Harris, foi recebido em França no dia 13 de Novembro com as declarações de uma antiga actriz, modelo e fotógrafa, Valentine Monnier​, que acusou Polanski de a ter violado “com extrema violência” em 1975, na estância de esqui de Gstaad, na Suíça, quando tinha 18 anos. A campanha de marketing do filme foi imediatamente suspensa e várias sessões foram canceladas, com Polanski a negar as acusações.

A denúncia, por sua vez, trouxe novamente à tona o caso de Samantha Geimer, uma jovem com 13 anos que foi violada por Polanski em 1977. O realizador é até hoje procurado pela justiça dos EUA, depois de ter cumprido uma curta pena de prisão pela violação da menor. Desde 2017, a sombra desse crime (ocorrido após o violento homicídio da sua mulher, Sharon Tate, grávida, pelos seguidores de Charles Manson em 1969) voltou a cada nova distinção ou homenagem ao cineasta, agora acompanhada de novos relatos de mulheres na vaga pós-#MeToo. Em Maio de 2018, Roman Polanski chegou mesmo a ser expulso da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood.

No entanto, J'Accuse, estreado em mais de 500 salas, ultrapassou o milhão de bilhetes vendidos e é um dos filmes de maior êxito do cineasta franco-polaco em França – a seguir aos filmes Piratas (1986), com dois milhões de entradas, Tess (1979), com 1,9 milhões, e O Pianista (2002), com 1,8 milhões. 

Nas redes sociais, vários grupos feministas e críticos de cinema lamentam as nomeações e criticam a direcção dos Prémios César. “Se a violação for uma arte, entreguem todos os César a Polanski”, publicou no Twitter o grupo feminista francês Osez le feminisme, acrescentando que “ao celebrar um violador fugitivo e autor de crimes sexuais contra crianças, estamos a silenciar as vítimas”. O grupo marcou ainda uma manifestação para 28 de Fevereiro, o dia da entrega dos prémios.

“Os prémios César estão literalmente a convidar uma actriz que foi vítima de agressão sexual [Adele Haenel] e um realizador que abusou sexualmente de uma criança [Roman Polanski] para estarem juntos na mesma sala durante uma grande celebração do cinema”, acrescentou o crítico de cinema britânico Caspar Salmon, referindo-se a Adele Haenel — nomeada ao prémio de “Melhor Actriz” pela sua actuação em Retrato de uma Jovem em Chamas — que revelou, no ano passado, ter sido vítima de assédio sexual, aos 12 anos, durante a gravação do seu primeiro filme (num caso que não envolve Polanski).

Já o presidente da Academia Francesa de Cinema, Alain Terzian, alega, citado pelo Le Figaro, que a academia “não deve adoptar posições morais” no que toca à entrega de prémios. “A menos que eu esteja errado, 1,5 milhões de franceses foram assistir ao filme. Perguntem-lhes a eles”, disse.

O Governo francês entrou entretanto na contenda. A secretária de Estado da Igualdade francesa, Marlène Schiappa, por sua vez, condenou a posição tomada pela Academia: “Não aplaudirei um homem acusado de violação”, afirmou, citada pelo Le Parisien.

Jean Dujardin, estrela do novo filme de Polanski, é um dos favoritos ao prémio César de “Melhor actor, juntamente com Vincent Cassel e Reda Kateb (pelo filme Especiais) e Daniel Auteuil (A Belle Époque).

Logo atrás de J'Accuse, encontram-se os filmes Os Miseráveis, de Ladj Ly, e A Belle Époque, de Nicolas Bedos, com 11 nomeações cada. Aos prémios de “Melhor filme” e “Melhor realizador” concorrem ainda o drama Graças a Deus, de François Ozon, e Retrato de Uma Jovem em Chamas, de Céline Sciamma.