Opinião

“Brexit”: “say something, i’m giving up on you”

Amigos britânicos e, em especial, amigos ingleses:

1. Bom dia. Hoje que é hoje, bem cedo, na minha cidade que nunca é minha, é só nossa, e como sempre acontecia nos outonos e invernos da infância, chove, chove bem, chove certo; abunda, espraia-se e dissipa-se o nevoeiro, que não é fumo, que não é fogo, é só fog. Cresci nesta cidade, nesta cidade que é só nossa mas também é vossa, em que vos respirei desde o primeiro minuto. Havia cabines telefónicas e caixas do correio, em tudo iguais às vossas, que, habitando as ruas, mais pareciam árvores bem podadas, decerto vindas da velha Albion, como sempre se disse que as magníficas magnólias e as frondosas japoneiras vieram do Japão. Havia autocarros de dois andares que, na cidade da virgem e do dragão, mais pareciam dragões, daqueles dragões que o vosso amado S. Jorge se arrimou a combater. Eram dragões de Camelot dos tempos mágicos do Merlin e do Rei Artur – não do Harry Potter, que, ainda que de escadas, também veio cá parar. Dragões de Camelot como aquele que esteve, devia estar e um dia vai voltar a estar no topo do brasão da nossa-vossa cidade. Árvores britânicas, dragões ingleses e, claro está, fachadas palladianas, como a da Bolsa ou a do Hospital, erguidas de um cinza fleumático, a vigiarem a irrequietude do barroco italiano ou a convulsão do romântico alemão.

2. Na escola primária, não havia ano sem uma esperada visita de estudo, que invariavelmente tinha como destino surpresa as caves de vinho do Porto e que sempre culminava num trabalho de grupo feito em cartolina verde clarinha cheia de colagens e textinhos escritos a caneta de feltro. As caves grandes, húmidas e frias ou eram inglesas ou andavam lá perto. Ao longe, acaba por vir um inglês, muito bem apessoado, com um irrenunciável sotaque e um blazer xadrez Príncipe de Gales, caminhando por entre as paredes enormes, grossas e rudes, muito mal caiadas, com a pedra quase eroticamente à espreita. As paredes grossas, largas e rudes lembravam as muralhas dos castelos da távola redonda, da flecha negra ou do xerife de Nothingham. As pipas e os toneis descomunais, o chão de terra à vista, as longas vigas de madeira, aqui e ali o tanque ou o lagar de pedra imensa eram florestas e campos de batalha medievais do tempo em que não sabíamos que havia Idade Média, nem celtas, nem saxões, nem normandos, nem quejandos. Cheirava a vinho, cheirava a Inglaterra. Ao fim do dia, até a cartolina verde clarinho, que nunca saíra da escola, exalava vapores etílicos.    

3. A pouco e pouco, entrava a história. E meu pai, já a levar-nos para o porto do Douro, a falar na segunda cruzada, em que havia ingleses a negociar a tomada de Lisboa com o D. Afonso Henriques, fazendo de Gilberto Hastings o primeiro bispo de Lisboa da era da reconquista. Mais importante, muito mais importante, era a subida à Sé, com o Vímara Peres e a Dona Mumadona. Aí sim, D. João I casara com Filipa de Lencastre, ambos saídos do Tratado de Windsor – sim o Windsor que hoje dá nome à vossa dinastia. Essa D. Filipa era irmã do depois Henrique IV e tia do inspirado Henrique V, com quem aprenderíamos a guerra dos 100 anos e que havíamos de conhecer pela mão de Shakespeare. Eram os Lencastres. Repetia o pai: ela foi a mãe do D. Duarte, que era rei, intelectual e artista; do Infante D. Pedro, visionário e grande modernizador, do Infante D. Fernando, ainda santo. Ela era ainda e principalmente, a mãe do Henrique, o Navegador, que nunca navegou, mas aqui nasceu. Sobrinho e primo daqueles Henriques, este foi, meio inglês é verdade, o Henrique maior. Destas histórias, que só um pai ou um avô, meio lembrado meio esquecido dos compêndios do outro José Mattoso, inventa como quem investiga; destas histórias, dizia, é que nasceu a vossa fama, fama de que souberam – isso ninguém duvida – fazer proveito. A história de histórias, com a patine das fábulas, continuava e passava até por maus momentos, como os do Beresford e os do ultimatum. Mas a verdade é que, fora e dentro dos muros da cidade, parecia que sempre vivemos convosco.

4. Recordo o primeiro livro de inglês, laranja e branco, com um nome premonitório, First things first. Lembro-me bem da primeira professora, num Instituto no Marquês – cá também temos Marquês, que, aliás, está ligado aos primeiros edifícios palladianos –, professora que, como era obrigatório, numa grande cidade pequena, vinha a ver-se, era filha do oftalmologista de minha mãe. E a professora do ciclo preparatório, a Dra. Aurora, que, como tantas professoras de inglês e de francês que encontrei, tinha acolhido e interiorizado os ares da língua e não dispensava o seu “je ne sais quoi” de cidadã britânica. E daí em diante, deparei-me com muitos de vós que aqui vivem, que aqui fazem negócios, que aqui passam uns dias. Habituámo-nos. Gostamos.

5. Desde as cruzadas as vezes que nos cruzámos e em que cruzámos os nossos destinos deixam-me triste, inquieto, inconformado. Mesmo com muitas tensões e fricções, feitas de esquecimentos, indiferenças e sobrancerias, o meu país precisa do vosso, gosta do vosso, quer o vosso. E a minha cidade, nem se fala. Essa não sabe viver sem vós. Estar na Europa convosco é uma coisa, estar na Europa sem vós é outra. Outra que pode ser bem diversa, pode ser bem diferente. O “Gal” do nosso Portugal é gaélico, do vosso Gales, da vossa Escócia, da Irlanda (vossa e não vossa). E o nosso “Portu” do Portugal é, muito como vós, marítimo, atlântico; é porto aberto e porta aberta ao oceano e ao mundo. Temos isso em comum, temos muito em comum, temos muitas histórias, das verdadeiras e das inventadas, em comum.

6. Saindo do ginásio, directo ao aeroporto, já só ecoam as palavras da rádio ou do spotify. Daquele pop e daquele rock que são a vossa última, mas não menos importante, cruzada. Rumo a Bruxelas para a última semana convosco e ouço, ouço reiterada e doentiamente: “say something, i’m giving up on you; I’ll be the one if you want me to”.  

SIM Cimeira da coesão. Tarde e a más horas, o Governo português decidiu-se a tentar levar a sério a questão dos fundos europeus. Alguns danos serão já irreversíveis, mas mais vale tarde do que nunca. 

NÃO Governo espanhol. Ao contrario dos líderes europeus, Sánchez não recebeu o Presidente Guaidó em Madrid, sendo subserviente ao Podemos, que tem perigosas ligações ao “chavismo”.

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