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Kobe Bryant, um homem com uma missão

Um dos melhores basquetebolistas de sempre morreu aos 41 anos, num acidente de helicóptero. Kobe nunca se desviou da missão que trilhou para si próprio e colocou-se, de pleno direito, na galeria dos imortais do desporto.

Terminou a vida de Kobe Bryant, um homem que viveu para ganhar (e ganhou muito), mas que também soube perder. Agora, “perdeu” cedo, demasiado cedo, com a morte a silenciá-lo aos 41 anos. Mas perdeu bem. Sobretudo se “perder bem” for definido por deixar a vida como um homem talentoso, inspirador e tomado pelo espírito de missão. A missão que confiou a si próprio – e que nunca largou: a de viver no patamar da excelência dos que têm uma bola na mão. E ele fê-lo. Guerreou pela bola, entregou-se a ela, prejudicou-se por ela, também, mas, acima de tudo, viveu e festejou com ela. Com suor.

“Se alguém chega uma hora antes do treino, tu tens de chegar duas horas antes. Se alguém faz 500 lançamentos nos treinos, tu tens de fazer 1000. Tens de trabalhar mais do que os outros. Isto tem significado não só no desporto, mas na vida. Foi isto que aprendi com o Kobe”. As palavras são de Carlos Andrade, basquetebolista internacional português, alguém mais do que capacitado para explicar ao PÚBLICO quem foi Kobe Bryant.

“A mentalidade de vencedor, de lutador e de guerreiro sempre me motivou a segui-lo. Pus em mim a imagem dele. Aquilo de teres de te sacrificar, porque não há segredos. Foram estas coisas que bebi”, define o português – que, curiosamente, também começou a carreira em 1996, como Kobe –, referindo-se à marca registada do “black mamba”: a “mamba mentality”.

Mais do que cinco anéis de campeão (três consecutivos, entre 2000 e 2002, num dueto imortal com Shaquille O’Neal), dois títulos de melhor jogador das finais da NBA, as 18 nomeações All-Star ou as duas medalhas de ouro olímpicas, Kobe Bryant deixa no desporto, em geral, e no basquetebol, em particular, um rasto de combate.

Combate permanente, diário e sem desvios. Lesionado ou em plena forma, a coxear ou com dedos engessados, Kobe esteve lá sempre, de bola na mão, pronto para os lançamentos decisivos nos combates dos Los Angeles Lakers, a única equipa que representou nos 20 anos de carreira - também por isto se tornou grande.

No último combate da vida não foi feliz, com o trágico acidente de helicóptero que o vitimou, mas, no combate do basquetebol, nunca se desviou da missão que trilhou para si próprio e colocou-se, de pleno direito, na galeria dos imortais do desporto.

"Matemática simples"

Kobe Bryant não era como os outros e nada nele era trivial. Nos Estados Unidos, a grande maioria dos jogadores evolui no campeonato universitário, uma antecâmara da NBA, onde se mostram e onde são escolhidos pelas equipas profissionais. Mas Kobe é diferente. Porque é Kobe. E, para a Kobe, a universidade era pouco.

Passou do liceu directamente para a NBA e, aos 17 anos, ainda sem poder assinar o primeiro contrato, iniciou o legado. Sem preparação colectiva, mas com uma preparação individual já antiga.

Com 12 anos, Kobe era um jovem jogador igual a tantos outros: dos que passam um jogo sem acertar com a bola no cesto. No caso do jovem de Filadélfia foi um campeonato de Verão inteiro sem qualquer ponto. O filho e sobrinho de basquetebolistas sentia estar a envergonhar o nome da família.

Como o próprio Kobe contou, o pai, ex-jogador de basquetebol, disse-lhe: “marques zero ou 60 pontos, vou continuar a amar-te da mesma forma”. Kobe assumiu que ficou tranquilo e sentiu o conforto, mas isso não chegou. “Não quero saber, vou marcar 60”.

O trabalho individual começou e, em dois anos, Kobe passou dos zero pontos para o melhor jogador do estado. Anos mais tarde, explicou o motivo: “É matemática simples. A maioria das crianças joga talvez 1h30, dois dias por semana. Mas se treinares duas ou três horas, todos os dias, durante um ano… façam a matemática disso”.

Tudo isto tem um nome: “mamba mentality”.

Egoísmo ou grandiosidade?

Num jogador que somou 81 pontos num só jogo – vice-líder nesse ranking, apenas atrás dos 100 de Wilt Chamberlain – e que fazia, com frequência arrebatadora, marcas acima dos 40 pontos, a fronteira entre a grandiosidade e o egoísmo é ténue. E, sobretudo por isso, Kobe Bryant nunca foi consensual como jogador.

Por um lado, será seguro dizer que a maioria dos fãs de basquetebol coloca Michael Jordan, Kobe Bryant e Lebron James como os maiores de sempre. A ordem varia, mas o top 3 é, para uma larga maioria, consensual, até pela forma como permite perpetuar legados individuais, preenchendo todo o espectro temporal: Jordan primeiro, Kobe no pós-Jordan e Lebron no pós-Kobe.

Por outro lado, Kobe Bryant é, para muitos, um sinónimo de individualismo. É o jogador com mais lançamentos falhados na história na NBA, mas também para isso Kobe tinha uma resposta: preferia falhar 30 lançamentos num jogo do que falhar dez, porque isso mostrava que nunca desistia.

O “cartão-de-visita” de Kobe é extenso: lançador de elite, tremendo nas penetrações para o cesto, quer na finalização quer a ganhar faltas, fiável nos lances-livres, forte nos duelos, líder dentro e fora do campo e, como toque mais raro neste tipo de jogadores, um defensor de elite, sempre empenhado em fazer o “trabalho sujo”. Com isso, Kobe ganhava direito a ser o “dono da bola” no ataque. E a bola foi dele, anos a fio, pelos LA Lakers.

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Mas Carlos Andrade fala de outro factor. “Essas críticas e a imagem egoísta que tinham dele eram opiniões e ele não as via da mesma maneira. Quem trabalhava com ele percebia o porquê de ele jogar assim. Até porque quem percebe de basquetebol sabe que os jogadores como ele e como o Michael Jordan faziam acima de 30 ou 40 lançamentos por jogo. Eu próprio critiquei quando ele, às vezes, exagerou nos lançamentos. Claro que exagerou. Mas só os colegas dele sabiam as horas que ele passava no pavilhão a treinar, para ganhar o direito de, no jogo, lançar as bolas todas que queria lançar. Depois de cinco anéis de campeão, mostrou que nada daquilo estava errado”.

No último jogo da carreira, Kobe Bryant, que dizia estar diminuído fisicamente e já incapaz de jogar ao melhor nível, marcou… 60 pontos. É este o momento que Carlos Andrade escolhe como grande memória que guardará do norte-americano: “Foi um bocado o resumo da pessoa que ele era. Marca 60 pontos e salva a equipa de perder o jogo. É essa a imagem que vou reter para sempre: a de que ele nunca desistia”.

Carregou três cruzes

No campo, o individualismo foi a cruz de Kobe. No balneário, o feitio irascível nunca passou despercebido e espoletou guerras com vários colegas e treinadores. Na vida pessoal, uma acusação de violação, em 2003, manchou a imagem do basquetebolista. Kobe assumiu ter-se envolvido com a queixosa, de 19 anos, praticando adultério, mas garantiu que, no momento, pensou que o envolvimento estava a ser consensual. O caso foi resolvido, dois anos depois, com um acordo extrajudicial, mas a imagem pública de Kobe nunca voltou a ser a mesma.

Uma mancha no currículo de vida de um atleta que, quando se despediu da NBA, há quatro anos, escreveu um poema famoso e que lhe valeu, até, um Óscar de Melhor Curta de Animação, narrada e produzida pelo próprio. Nesse poema, Kobe declarou-se ao basquetebol.

“Desde o momento em que comecei a enrolar as meias do meu pai e a fazer, imaginariamente, lançamentos decisivos, uma coisa eu soube que era real: apaixonei-me por ti”. O mundo não diz diferente de Kobe. Desde o momento em que começou a enrolar as meias do pai e a fazer lançamentos decisivos, na NBA, uma coisa o mundo do desporto soube que era real: apaixonou-se por Kobe.

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