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Wim Mertens: 40 anos entre o erudito e o popular

Casa da Música e Centro Cultural de Belém são as salas portuguesas onde o compositor belga Wim Mertens celebrará quatro décadas de carreira. A acompanhar os concertos de quarta-feira e domingo, a edição da retrospectiva Inescapable.

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ALEX VANHEE

Wim Mertens era um produtor da BRT (a emissora pública de rádio e televisão flamenga), e um melómano apaixonado pelas obras de Steve Reich e de Philip Glass, quando iniciou a sua carreira de compositor em 1980. E fê-lo com um gesto bastante singular, muito distante da sonoridade que hoje lhe associamos. Através de um importador de máquinas de flippers sediado em Antuérpia, conseguiu o empréstimo de duas delas durante algumas semanas, gravou centenas de horas de possíveis combinações de sons dali extraídas e depois dedicou-se a aplicar-lhes uma das ferramentas fundamentais da sua ocupação profissional de então: uma minuciosa edição do material que tinha registado em fita, ao qual acrescentou depois alguns elementos de resposta musical. Inspirado pela frase que por imposição legal figurava nos flippers, chamou a essa gravação For Amusement Only. E a partir daí, não mais parou.

É esse ponto de partida que o compositor belga celebra em 2020, comemorando 40 anos de carreira com a edição de uma ambiciosa caixa retrospectiva intitulada Inescapable (61 peças distribuídas por quatro CD) e uma digressão que passa pela Casa da Música, no Porto, esta quarta-feira, e pelo Centro Cultural de Belém, em Lisboa, no domingo. Apesar de a electrónica de For Amusement Only não ser a linguagem com a qual Mertens ganhou maior protagonismo na cena musical europeia, a verdade é que muitos dos pressupostos que continuou a explorar se alicerçam claramente nesse primeiro gesto: formas minimais, uma vontade declarada de evitar a instrumentação clássica e, ao mesmo tempo, um desejo não menos claro de apagar os mandamentos da música avant-garde que imperava nos anos 70. Daí que o seu terceiro álbum, Vergessen, tenha sido baptizado com um vocáculo alemão sinónimo de esquecimento. “Senti que tinha de esquecer muitas das opções dominantes desse período da música e que tinha de recomeçar do zero”, explica ao PÚBLICO. Por muito que Vergessen (1982), editado após At Home: Not at Home (1980), recorresse já a músicos e instrumentos convencionais, Mertens via-se como um compositor que era também intérprete das suas peças, assegurando pianos (acústico e eléctrico) e vozes nas gravações.

“O compositor, nos anos 60 e 70, estava sobretudo envolvido na criação da partitura, não era tanto um intérprete nem estava implicado na praxis da performance”, recorda. “Quis colocar aí uma nova tónica. E a forma como gero as minhas peças é também diferente da prática de então, uma vez que a minha música está muito explicitamente ligada à presença da voz. Em Struggle for Pleasure [1983] ou At Home: Not at Home, por exemplo, provavelmente estava a cantar enquanto compunha as peças, mesmo que na versão final possam escutar-se apenas os instrumentos. Mas a voz era o meu guia pessoal, algo em que podia confiar.” Em conversa com vários compositores belgas, percebeu que o período do pós-guerra trouxera uma desconfiança em relação à voz que ele não partilhava; enquanto à sua volta assistia a um mergulho “numa espécie de serialismo, uma música baseada em cálculos, eliminando o input subjectivo do compositor”, Mertens quis romper com essa corrente e, progressivamente, centrar o seu discurso musical em opções melódicas e num formato algures entre a música erudita contemporânea e a música popular.

Na música popular, aliás, “há uma grande dinâmica para fazer coisas novas”, defende. Contrapõe-na ao imobilismo do campo clássico, em que “os cantores de ópera continuam a cantar todos da mesma forma, sempre com a mesma técnica”. De resto, começou a observar na pop “um fenómeno muito curioso": “A cada cinco, seis, sete anos, vemos uma nova voz surgir e afirmar-se – tivemos Thom Yorke, Lana del Rey e, agora, Billie Eilish.” E essa alteração, admite Mertens, interessa-lhe por aquilo que comporta de mudança de paradigma: o risco.

Olhar para trás

Preparar a edição de Inescapable (e a presente digressão) obrigou Wim Mertens a olhar para trás. E esse é um movimento que não aprecia, por ver nele o perigo da estagnação ou o risco de se sentir “demasiado confortável” com o que alcançou artisticamente nas mais de 700 composições lançadas ao longo destes 40 anos. No meio de tanta escolha possível, o compositor belga acabou por privilegiar a abrangência de registos – música electrónica, para guitarra ou para piano, com e sem voz, com instrumentos de sopro ou de cordas, um par de novas composições e dez versões ao vivo de peças de fundo de catálogo. “Um contínuo de 61 peças que podem ouvir-se non-stop, como se fossem 61 facetas de uma mesma atitude e uma mesma produção musical”, descreve Wim Mertens, enquadrando um todo pensado em conjunto como se soprado por um fôlego operático.

Embora confesse não ter interesse “per si nas formas tradicionais clássicas, como sonatas, sinfonias ou óperas”, Wim Mertens reconhece que a sua música se inscreve numa linhagem europeia. Mais do que isso, acredita, na verdade, que “um compositor deve manter-se bastante próximo das suas raízes e das suas fontes”. De alguma maneira, foi também isso que explorou no tríptico iniciado por Charaktersketch (2015), dedicado às ligações entre arte e política, mas sobretudo a uma reflexão sobre a Europa presente. Uma Europa que caiu como referência económica e cultural no mundo e que terá de se redescobrir num novo equilíbrio planetário. Através das suas composições, Mertens quer também questionar que papel pode a música desempenhar nessa nova ordem.

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