Conseguiu-se “acordar” o VIH em animais para que um dia adormeça de vez

Para os cientistas envolvidos no trabalho, os resultados são um avanço na investigação do VIH e melhoram as hipóteses de se eliminar o vírus.

Vírus da imunodeficiência humana
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Vírus da imunodeficiência humana Petrovas et al/Science Translational Medicine 2017

A ideia da estratégia terapêutica “choque e morte” é simples. Primeiro, activa-se o vírus da imunodeficiência humana (VIH) que está escondido em células imunitárias. Depois, elimina-se esse vírus. Mas, se a ideia é simples, a sua aplicação tem sido bem mais complicada. Agora, duas equipas de cientistas anunciaram na revista Nature que se aproximaram um pouco mais desse objectivo: com diferentes métodos desta estratégia conseguiram reactivar tanto a forma símia do vírus da imunodeficiência (VIS) em macacos como o VIH em ratinhos com células imunitárias humanas. Para os investigadores, estes resultados poderão melhorar as hipóteses de eliminar o VIH em humanos.

Num comunicado sobre o trabalho, começa-se logo por apontar um dos principais obstáculos para curar a infecção pelo VIH: os reservatórios virais. Aqui, células imunitárias escondem o VIH, que está “adormecido”, quando alguém está a ser tratado com terapia anti-retroviral. Nem com medicação ou estimulação do sistema imunitário se tem conseguido diminuir o tamanho dos reservatórios.

A estratégia “choque e morte” consiste precisamente na activação dos reservatórios latentes, que começarão a produzir vírus (o choque), para depois serem eliminados (a morte). Esta é, aliás, uma das áreas mais exploradas na investigação do VIH nos últimos anos. Até agora, os resultados de experiências relativamente à activação dos reservatórios latentes não têm sido consistentes, realça Victor Garcia, director do Centro Internacional para o Avanço da Ciência Translacional da Universidade da Carolina do Norte (nos EUA) e um dos coordenadores de um dos artigos.

No trabalho da sua equipa, aplicou-se o inibidor AZD5582 – que activa uma via intracelular que leva à reactivação do VIH e do VIS – em macacos e ratinhos com células imunitárias humanas infectados. Desta forma, conseguiu-se reactivar o VIS em latência que estava escondido nos linfócitos-T CD4+, receptor que serve de porta de entrada do VIH nas células, para aí se multiplicar, destruindo o sistema imunitário. Além disso, conseguiu-se induzir a produção do vírus no sangue enquanto os macacos estavam a receber a terapia anti-retroviral. Dos 12 macacos usados na experiência, apenas um teve febre durante algum tempo e perda de apetite.

Já no outro estudo – da equipa de Guido Silvestri, da Universidade de Emory, nos EUA – estimularam-se os linfócitos-T CD4+ em macacos enquanto ao mesmo tempo se destruíam os linfócitos-T CD8+. Esta estimulação e destruição acabaram por reactivar o vírus em todos os macacos estudados.

“Os resultados obtidos nas experiências representam um progresso importante relativamente ao grande objectivo de perturbar os reservatórios do vírus nas pessoas infectadas e que são tratadas com medicamentos anti-retrovirais”, assinala ao PÚBLICO Guido Silvestri. O investigador refere ainda que conseguir “perturbar” os reservatórios é o primeiro grande passo para curar o VIH através desta estratégia.

Ainda muito teórico

Estas investigações “constituem as abordagens mais potentes de reversão de latência do vírus demonstradas até à data e dão-nos mais conhecimento sobre os mecanismos responsáveis por manter a latência viral”, lê-se no resumo da revista Nature sobre os trabalhos. Já Victor Garcia destaca que até agora ninguém tinha conseguido replicar em diferentes modelos animais este tipo de resultados com sucesso e de forma sistemática. 

Contudo, os cientistas frisam que estes resultados não representam que esta estratégia seja já uma cura para o VIH. Seguem-se agora mais testes em animais e depois os ensaios em pessoas.

Num comentário aos artigos científicos também publicado na Nature, Mathias Lichterfeld (do Hospital Women and Brigham’s de Boston, nos EUA) alerta que a estratégia “choque e morte” ainda é “um conceito muito teórico e não uma realidade terapêutica”. “Conseguir provas para a capacidade de [esta estratégia] conseguir reduzir os reservatórios virais e dar benefícios reais aos doentes ainda requer muito mais trabalho”, escreve.

Em Dezembro de 2017, Susana Valente (cientista portuguesa do Instituto de Investigação Scripps, nos EUA) também alertava para alguns perigos desta estratégia: “É algo arriscada porque estamos a falar de drogas que estão a acordar o vírus e que, em muitos casos, não são específicas para o vírus e, por isso, vão activar outros genes que deviam estar dormentes e podemos estar a criar outros problemas fora deste alvo, como cancro ou outras coisas”, dizia então ao PÚBLICO. Referiu ainda que a reacção à reactivação do vírus dependia de um sistema imunitário capaz de funcionar bem e, após vários anos de terapias, os doentes terão um sistema imunitários menos competente.

“Neste campo do ‘shock and kill’, todos os esforços estão agora a chegar ao ponto em que se percebeu que é preciso arranjar fármacos que activem o vírus de uma forma muito mais específica e que sejam muito fortes, porque temos de conseguir acordar até ao último vírus e, por outro lado, temos de promover uma imunocompetência dos linfócitos CD8”, explicou. Parte desta explicação acabou por acontecer agora. Veremos o que se conseguirá nas próximas experiências.