Portugal, um país forte com os fracos

Portugal, que tem a fama de um país de brandos costumes, só o é em determinadas circunstâncias. Os nossos brandos costumes tendem a ser brandos com os fortes, mas nem tanto com os fracos.

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Melanie Wasser/Unsplash

Não é descabido alegar que a balança da justiça sempre tendeu a desnivelar em benefício dos poderosos. É um desequilíbrio histórico que, apesar de alguns fugazes momentos de ajuste, não tem encontrado, nos tempos que correm, um caminho fácil de correcção. Aliás, com o desenvolvimento e o perpetuar do sistema capitalista enquanto modelo social, as clivagens entre os donos deste regime e aqueles que nele trabalham têm-se mostrado cada vez mais evidentes. Portugal, que tem a fama de um país de brandos costumes, só o é em determinadas circunstâncias. Os nossos brandos costumes tendem a ser brandos com os fortes, mas nem tanto com os fracos. Aliás, ultimamente, parece que sofremos de uma grave miopia que nos leva à indignação com aqueles que menos têm, pelas suas atitudes e comportamentos, e nos torna complacentes com aqueles que tudo podem e tudo fazem em seu próprio benefício.

No último artigo que escrevi, onde apelava ao fim do ódio entre nós e ao fim dos abusos policiais, fui presenteado com um chorrilho de comentários racistas, misóginos e de ódio em relação à cidadã agredida pela polícia na semana passada. Mesmo não tendo o artigo focado com especial atenção o racismo, antes o ódio de todo o tipo e qualquer tipo de violência, foram muitos os que decidiram destilar ódio e preconceito racista, mas também de classe, nas caixas de comentários. Alguém, de quem não me recordo, assinava um artigo onde sustentava que as caixas de comentários representam o país real. Não poderia estar mais de acordo. Li comentários que dificilmente consigo imaginar serem ditos na rua ou no café, mas só não o são porque ainda resta um pouco de pudor em verbalizar determinadas coisas. No entanto, o facto de não serem ditas está longe de significar que não correspondem ao que muitos pensam. Somos muito fortes com os fracos, não somos? É fácil dizer que não se resiste a detenções, não é? É muito fácil criticar o comportamento dos que menos têm, dos que menos protegidos são e, porventura, mais desesperados vivem a sua vida, não é? Se vivemos todos sob o jugo de determinadas regras é porque não existe circunstância alguma em que se possam quebrar, não é?

Gostava de ver toda esta indignação, gerada por uma mãe de 40 anos ao praticar, alegadamente, um delito menor, direccionada contra os grandes banqueiros e empresários deste país que levam mais dinheiro para casa num mês do que os restantes num ano inteiro. São praticados salários de miséria em Portugal e nós indignamo-nos com estrangeiros e emigrantes? Ainda ninguém foi julgado no caso BES e nós ficamos indignados com o rendimento mínimo? Não, não somos de brandos costumes, mas de costumes enviesados pelo capital, porque ambicionamos ter, um dia, o que os poderosos conseguiram. Mas é uma esperança estéril, essa, porque são eles que baralham e dão as cartas e, a não ser que lhe arranquemos o baralho das mãos, nunca nos hão-de dar o melhor jogo. Temos de aprender que a nossa luta não é contra negros ou amarelos, emigrantes ou refugiados, mas contra o grande capital que nos coloca às turras uns com os outros enquanto vão forrando os bolsos à nossa custa.

A justiça está ao serviço dos cidadãos e nunca o contrário, porquanto deveríamos exigir dela que seja tão exigente com os fortes quanto é com os fracos, isto porque a sociedade vive de acordo com as suas decisões e, no que concerne aos crimes de colarinho branco, não são rápidas o suficiente. Deveríamos ficar mais indignados com os crimes de colarinho branco do que com os delitos dos negros.

Somos um país preconceituoso consigo e com os seus, facilmente levado na cantiga do medo que nos turva a vista e desvia do que é essencial, porque são muitos os motivos que nos deviam indignar que deixamos incólumes, por andarmos ocupados a distinguir as cores de cada um.