Ana Laíns: “A língua portuguesa é e será sempre a minha bandeira”

A cantora Ana Laíns celebra 20 anos de carreira num espectáculo com convidados e já com a lotação da sala esgotada. Entre eles, estão Luís Represas, Ivan Lins, Mafalda Arnauth e Fernando Pereira. Na próxima sexta-feira, no Casino Estoril, às 22h.

,Casino Lisboa
Foto
Ana Laíns numa foto promocional, com um adufe PAULO MARIA IMAGES

A cantora Ana Laíns está de volta aos palcos, agora para celebrar 20 anos de uma carreira “muito transversal”, como ela própria diz. O espectáculo, desta vez, será no Casino Estoril, no dia 31 de Janeiro (às 22h) e tem por convidados Luís Represas, Ivan Lins, Mafalda Arnauth, Fernando Pereira, Silvestre Fonseca, Fernando A. Pereira, o Grupo Cantares de Évora e as Adufeiras de Idanha-a-Nova. Portucalis, o seu mais recente disco, dará o mote ao concerto: a defesa e celebração da língua portuguesa.

Nascida em Tomar, em 1979, Ana Laíns cantou o fado pela primeira vez em público em 1995, aos 16 anos, foi vencedora da Grande Noite do Fado em 1999 e lançou até agora três discos: Sentidos (2006), Quatro Caminhos (2010) e Portucalis (2017), onde teve como convidados Filipe Raposo, Ivan Lins, Luís Represas e Mafalda Arnauth.

Pelo meio, foi nomeada pela Associação 8 Séculos da Língua Portuguesa embaixadora das comemorações e encabeçou um concerto no CCB, em Julho de 2015, para o qual convidou (olhando ao objectivo) vários músicos, actores, cantores ou declamadores: Aline Frazão, Celina Pereira, Ivan Lins, Karyna Gomes, Luiz Avellar, Marta Dias, Paulo de Carvalho, Júlio Soares, Joaquim de Almeida, Elsa de Noronha, Olinda Beja, Jorge Arrimar, Valéria Carvalho e os grupos Adufeiras de Idanha e A Moda Mãe.

O imitador e o trovador

Justificar a lista de convidados para o actual concerto é fácil, diz ao PÚBLICO Ana Laíns: “Não é difícil explicar estes convites, difícil é justificar porque é que não estão outros. No caso da Mafalda Arnauth, do Luís Represas e do Ivan Lins, tem a ver com a participação que tiveram no meu último disco, Portucalis, e com uma amizade mais aprofundada com todos eles.”

Não só: “A Mafalda é ‘prata da casa’ na minha vida, das pessoas que eu mais admiro e das maiores amigas que tenho na área da música. O Luís Represas faz parte do Portucalis numa das canções mais bonitas, com letra de Fernando Pessoa, e não faria sentido não o ter neste concerto a cantá-lo comigo. E o Ivan Lins é uma pessoa com quem comecei a trabalhar com mais frequência, já fui convidada num dos concertos dele cá em Portugal e temos uma relação mais próxima desde 2015.”

PÚBLICO -
Foto
Ana Laíns e Ivan Lins por altura do espectáculo de 2015 RUI GAUDÊNCIO

E há dois Fernando Pereira, o imitador (também cantor) e “o trovador”, como intitulou o seu disco de estreia a solo o fundador dos grupos Romanças e Real Companhia. “A minha intenção neste concerto, também como reflexo da minha carreira ao longo de 20 anos, é mostrar que ela tem sido muito transversal”, diz Ana Laíns. “E o Fernando Pereira, o nosso imitador, faz parte do meu caminho, trabalhei muito com ele ao longo destes anos e é um dos meus grandes amigos na música. Independentemente dos géneros musicais que façamos, todos cabemos no mesmo palco. Isso vale para o Fernando Pereira e também para o Silvestre Fonseca, que é o guitarrista.”

Quanto ao outro Fernando [A. Pereira], Ana Laíns vê-o como “o último grande trovador, na linha do Zeca Afonso”: “Foi muito importante na minha vida porque me ajudou numa fase de muitas dúvidas em termos de identidade musical. Tê-lo conhecido (e aos trovadores) foi preponderante e isso não tem preço. Ele está no concerto por admiração e gratidão.”

A presença das raízes

Por fim, o Grupo Cantares de Évora e as Adufeiras de Idanha-a-Nova: Ana Laíns já trabalhou com ambos. “Elas já são parceiras recorrentes, aliás o adufe é a minha grande paixão. Quanto ao Grupo Cantares de Évora, tive oportunidade de cantar com eles em 2019, no Festival Artes à Rua, em Évora, e foi tão bonito que achei que faria sentido convidá-los para este concerto, sendo que também queria ter as nossas raízes aqui representadas, de forma tradicional, com a nossa personalidade e nossa ruralidade.”

Ivan Lins, Luís Represas e Mafalda Arnauth participarão, em palco, nas canções que já haviam gravado com ela no disco, respectivamente: Sou dual, Não sei o quê desgosta e Charanga do tempo. “No caso do Grupo Cantares de Évora vou cantar o Pêra madura, um tema tradicional alentejano que gravei no meu primeiro disco. Com as Adufeiras vou cantar a Cantiga bailada, um tema tradicional da Beira Baixa, que é talvez aquele que eu mais cantei na minha vida e que faz parte há mais tempo do meu repertório.” Do que irá cantar com cada um dos Fernandos, prefere guardar segredo. Será surpresa.

Sentido de portugalidade

Com Ana Laíns, estarão em palco os músicos Paulo Loureiro (piano e direcção musical), Carlos Lopes (acordeão), Bruno Chaveiro (guitarra portuguesa), Hugo Ganhão (baixo), João Coelho (bateria) e João Ferreira (percussão). O sentido do espectáculo, como se disse no início, passa muito pela celebração da língua portuguesa, sentido esse que Ana Laíns faz questão de sublinhar:

“Essa é e será sempre a minha bandeira. E acho que há um crescente sentido de portugalidade nos últimos anos, também por parte dos meus colegas. A língua portuguesa continua a dar cartas em termos de escrita no mundo inteiro e o facto de muitas das nossas formas de expressão cultural estarem a ser consideradas Património Imaterial da Humanidade também ajuda a divulgar mais a nossa língua. Paralelamente, entristece-me a forma como cada vez mais se escreve nas redes sociais, porque enfraquece a memória em relação à história da nossa língua e à forma de a tratar com algum respeito.”