Opinião

Rui Rio e o futuro do centro-direita

A reconfiguração do centro-direita português terá de ter, na próxima década, o PSD como pólo agregador.

Após as legislativas, o Parlamento é o espelho da mutação que vive o sistema partidário em Portugal, seguindo uma tendência europeia. Se a pulverização partidária se confirmar, dentro de uma década a geografia política poderá mudar substancialmente, fruto da transfiguração populista e extremista do discurso político. Não quer dizer que os partidos que hoje existem, em particular os maiores, desapareçam. Ainda que o CDS e o PCP venham a reduzir-se na sua expressão parlamentar, nada indicia que o PS e o PSD sejam decisivamente abalados. Mas a crise da representação e da identificação dos cidadãos com os partidos está em mutação, e se o PS tem esse problema anestesiado enquanto António Costa for líder, no PSD a crise está exposta desde 2015.

À tendência europeia para a invasão do discurso partidário e político pelo extremismo acresce em Portugal a crise que a direita vive e o facto de ter sido o Governo do PSD e do CDS, liderado por Passos Coelho e Paulo Portas, a gerir o país entre 2011 e 2015, o período da intervenção externa da Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional com o objectivo de reajustar a política orçamental e a economia e viabilizar o empréstimo de 78 mil milhões de euros que evitou a bancarrota do Estado. Assim, o PSD sofre não só a pressão externa de novos partidos como o Chega e a Iniciativa Liberal como tem de saber ultrapassar os efeitos que essa governação provocou nos cidadãos e reganhar a sua confiança.

Não é fácil nem será rápido o passo em frente no PSD, assim como é impossível saber hoje qual o perfil programático e o discurso que este partido virá a ter no futuro. Uma coisa parece certa, toda a reconfiguração do centro-direita português terá de ter, na próxima década, o PSD como pólo agregador, daí que já tenha defendido, neste espaço de opinião, que a fusão do CDS com o PSD é previsível e deveria ser avaliada o quanto antes. 

É com este cenário do sistema partidário em mutação que Rui Rio foi reeleito presidente do PSD, com 53,02% contra 46,98% obtidos pelo seu desafiante, Luís Montenegro. Estas duas personalidades representam de facto as duas tendências políticas que convivem dentro do PSD desde a sua fundação. Rio é herdeiro de uma linha político-ideológica social-democrata com origem em Barbosa de Melo e Mota Pinto, o chamado “grupo social-democrata de Coimbra”. Montenegro descende de um universo liberal e personalista, que tem como figura de referência o líder fundador Sá Carneiro. E ambos seguem ainda hoje estratégias de alianças diversas nascidas há quatro décadas. O primeiro é partidário de alianças preferenciais ao centro, o segundo à direita.

Percebe-se que o PSD tenha optado pela reeleição de Rio como presidente. Não só pelas feridas ainda abertas no partido e na sociedade pela governação de Passos, mas também porque é evidente que, face à bipolarização esquerda-direita que se vive e à forma como o eleitorado vota maioritariamente à esquerda, é ao centro que o PSD pode crescer. Rio foi, aliás, cristalino ao assumi-lo na campanha para a segunda volta, em entrevista à Antena 1: “O PSD é tradicionalmente o partido do centro, do equilíbrio, onde está a maioria dos portugueses; se perdermos o centro, temos mais dificuldades em crescer, onde temos de crescer é na camada moderada da sociedade, temos de crescer onde estão os votos, que estão mais à esquerda.”

Por agora, a restruturação do centro-direita está adiada e ninguém pode dizer em que resultará. Mas pode ser que Rio faça parte dela, que sobreviva à frente do PSD e que a sua resiliência lhe permita ser candidato a primeiro-ministro em 2023 ou antes, se uma crise levar à queda do Governo de António Costa. Assim como Montenegro, Miguel Pinto Luz e Miguel Morgado — que não se chegou a candidatar têm condições de se manterem como players no futuro do centro-direita. O próprio Passos poderá vir a integrar as equações por onde o centro-direita abrirá as portas do futuro, do mesmo modo que Portas.

Decisivas para a sobrevivência política de Rio e para o futuro do PSD serão as autárquicas. É no poder local que se faz a implantação nacional dos partidos que aspiram a ser governo, como o próprio Rio já disse múltiplas vezes. Para mais quando a erosão eleitoral do PSD em 2013 e 2017 foi brutal.

Igualmente determinante será a forma como vai desempenhar o papel de líder do principal partido da oposição. Pode até vir a negociar com Costa medidas e reformas estruturais, na vetusta expressão introduzida por Mota Pinto no léxico político português. O resultado das directas no PSD dá a Rio o direito a desenvolver a sua estratégia e a ser respeitado como líder pelo partido e não alvo de uma guerrilha permanente dos que se lhe opõem, a começar por Montenegro e Pinto Luz. Isto se ambos quiserem de facto manter-se como alternativas de liderança e vir a fazer parte das soluções de futuro no centro-direita.

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