PS escolhe futuras concelhias com autárquicas de 2021 já muito presentes

Na direcção nacional já se fala de avocar a escolha do candidato autárquico de Barcelos. O autarca Miguel Costa Gomes, arguido na Operação Teia, é candidato à concelhia que vai propor o seu sucessor.

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António Costa, com Miguel Costa Gomes e Joaquim Barreto mais atrás Paulo Pimenta

Mais de três centenas concelhias do PS vão a votos a 31 de Janeiro e 1 de Fevereiro, já com as eleições autárquicas de 2021 muito presentes. As novas comissões políticas locais vão dar início ao processo eleitoral, com escolhas de candidatos autárquicos que já se advinham polémicas. E o mais certo é os focos de contestação contaminarem as eleições para as federações distritais do PS, que também vão a votos em Março.

Lisboa, com Sérgio Cintra, e Porto, com Tiago Barbosa Ribeiro, são concelhias com candidatos únicos. Mas no distrito de Braga, por exemplo, há vários concelhos onde os socialistas estão divididos, apoiando projectos opostos.

Barcelos parece ser o caso mais delicado. O presidente da câmara, Miguel Costa Gomes, que está a cumprir o seu terceiro mandato autárquico, anunciou nesta segunda-feira a sua candidatura à concelhia socialista, órgão que é presidido pelo seu chefe de gabinete, Manuel Mota. Na corrida está também Armindo Vilas Boas. Com 22 anos de militância socialista, Armindo Vilas Boas diz que concorre para “unir o partido” e contra um PS que diz estar “capturado por aqueles que têm responsabilidades no partido a nível local”.

Miguel Costa Gomes foi detido pela Polícia Judiciária em Junho de 2019, no âmbito da Operação Teia, indiciado dos crimes de corrupção passiva e de prevaricação. A medida de coacção que lhe foi aplicada foi a prisão preventiva que viria a ser levantada, em Outubro. Contudo, o autarca socialista continua proibido de fazer quaisquer contactos com funcionários municipais, alguns dos quais são militantes do Partido Socialista.

O juiz de instrução criminal considerou que Miguel Costa Gomes beneficiou as empresas de comunicação de Manuela Couto, mulher do ex-presidente da Câmara de Santo Tirso, o também socialista Joaquim Couto, em troca de favores políticos, designadamente apoio para uma eventual candidatura à presidência da Federação de Braga do PS.

A direcção nacional foi apanhada de surpresa com a candidatura de Costa Gomes à concelhia de Barcelos, com uma lista da qual faz também parte Armandina Saleiro, actual vice-presidente da câmara, que será ainda candidata à liderança das Mulheres Socialistas do concelho.

Nos termos dos estatutos do partido, caberá à comissão política concelhia, a eleger no dia 1 de Fevereiro, indicar o candidato do partido à Câmara de Barcelos nas autárquicas do próximo ano. Fonte da concelhia de Barcelos disse ao PÚBLICO que a escolha do candidato à câmara só deverá ser feita em 2021, depois de o PSD anunciar o seu candidato. “Nós somos poder e devemos esperar que o PSD diga quem é o candidato”, sublinhou a mesma fonte, contrariando outras vozes que garantem que Miguel Costa Gomes, que o PÚBLICO tentou ouvir, gostaria de ter Vasco Real como seu sucessor. Vasco Real trabalha no gabinete do presidente da câmara e é seu sobrinho. Há outro familiar do autarca barcelense a trabalhar no município. Trata-se do seu genro que é adjunto do vice-presidente do executivo e está na câmara desde 2009, ano em que Miguel Costa Gomes foi eleito presidente.

O PÚBLICO confrontou o secretário nacional para a Organização do PS, Hugo Pires, com a candidatura de Miguel Costa Gomes à concelhia. Hugo Pires manifestou estranheza por ela ter ocorrido e deixou um aviso à futura comissão política: “Não será a concelhia a indicar o candidato à Câmara de Barcelos nas próximas eleições, mas a direcção nacional. O processo será avocado”.

A direcção nacional do PS que hoje se distancia do autarca a contas com a justiça é a mesma que, nas últimas autárquicas, se atravessou por Miguel Costa Gomes, e também aí o processo passou pela avocação pela comissão política nacional. Em 2017, o então presidente da concelhia e vice-presidente da câmara, Domingos Pereira, tentou impor o seu nome como candidato autárquico do PS. Nessa altura, o partido avocou o processo e escolheu precisamente Miguel Costa Gomes contra Domingos Pereira, que se candidatou contra o PS, como independente. A comissão política nacional avocou, na mesma altura, o processo autárquico em Fafe.

Famalicão, Guimarães, Braga e Vizela são as concelhias com maior peso eleitoral no distrito e em todas elas há duas listas. E é também aqui que tudo se joga para a futura federação do PS-Braga. O director de marketing Rui Faria e o enfermeiro Eduardo Oliveira disputam a concelhia de Famalicão, da qual o primeiro já é líder. Em Guimarães, o combate vai ser entre Luís Soares, deputado, líder da concelhia e presidente da Junta de Freguesia de Caldelas, e Paulo Freitas do Amaral, secretário da Santa Casa da Misericórdia local. E em Braga há dois socialistas a disputar os votos: Dulce Campos e Artur Feio, que se candidata a um novo mandato.

O desfecho eleitoral em Vizela pode ter uma importância acrescida. A Câmara de Vizela já foi socialista, mas nas últimas eleições autárquicas foi conquistada pelo independente Victor Hugo Salgado, que já foi do PS. No partido há quem queira vê-lo de novo no partido.

Esse cenário estará em cima da mesa, estando dependente de quem vencer as eleições para a concelhia, mas também de quem os socialistas escolheram para a distrital de Braga. Nuno Faria e Dora Gaspar são os candidatos à concelhia de Vizela. Quanto à distrital de Braga, há uma candidatura já assumida, protagonizada por Ricardo Costa, vereador da Câmara de Guimarães. Em silêncio mantém-se Joaquim Barreto, o presidente da federação distrital.