“América não, não!”: Dezenas de milhares de pessoas contra presença dos EUA no Iraque

O influente clérigo xiita Moqtada al-Sadr convocou uma manifestação para pressionar autoridades iraquianas a expulsarem militares norte-americanos.

Manifestação contra presença militar dos EUA no Iraque juntou dezenas de milhares de pessoas em Bagdad
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Manifestação contra presença militar dos EUA no Iraque juntou dezenas de milhares de pessoas em Bagdad EPA/AHMED JALIL

Um protesto contra a presença militar norte-americana no Iraque juntou dezenas de milhares de pessoas em Bagdad esta sexta-feira, mas não degenerou em violência ao contrário do que se receava.

Os altifalantes na Praça al-Hurriya, perto da principal universidade da capital iraquiana, passavam uma mensagem inequívoca: “América não, não!” A manifestação convocada pelo clérigo e político xiita Moqtada al-Sadr serviu para pressionar os governantes iraquianos a cumprirem a promessa de expulsar os militares norte-americanos do país.

Entre os manifestantes ouviam-se slogans como “Fora ocupadores” ou “Sim à soberania”. Um porta-voz de Sadr leu um discurso do político em que detalhou várias condições como a saída do contingente militar, o fim dos acordos de segurança assinados entre os EUA e o Iraque e ainda o encerramento do espaço aéreo iraquiano a aeronaves e aparelhos de vigilância norte-americanos.

“Se tudo isto for posto em prático, estaremos a lidar com um país não-ocupador, caso contrário será considerado um país hostil”, afirmou o porta-voz de Sadr.

A presença militar dos EUA no Iraque – instalada desde a invasão de 2003 para derrubar Saddam Hussein – acrescenta um novo ingrediente à crise política que se abateu sobre o país e que tem dado origem a grandes manifestações. A execução do general iraniano, Qassem Soleimani, e do comandante de uma milícia iraquiana, Abu Mahdi al-Muhandis, no início de Janeiro no aeroporto de Bagdad precipitou o debate.

Poucos dias depois, o Parlamento iraquiano aprovou um diploma a requerer a retirada de todas as tropas estrangeiras do país e o fim da colaboração militar com os EUA no combate contra o Daesh. Porém, o diploma não é vinculativo e qualquer decisão continua pendente de discussões entre os EUA e as autoridades iraquianas.

O ataque dos EUA conseguiu unir as forças políticas xiitas contra a presença de tropas estrangeiras, mas a sessão parlamentar em que a retirada foi votada foi boicotada pelos partidos sunitas e curdos – ambos olham para a manutenção de militares norte-americanos no país como essencial para a luta contra o Daesh e para impedir um domínio excessivo dos xiitas.

Temia-se que a mobilização convocada por Sadr – que tinha apelado a uma marcha de “um milhão” de pessoas – pudesse dar origem a episódios de violência, como tem acontecido com outras manifestações nos últimos tempos. A acção acabou por terminar ao fim de algumas horas sem se deslocar na direcção da embaixada norte-americana na Zona Verde de Bagdad, onde no final de Dezembro uma marcha acabou por desencadear uma tentativa de invasão do complexo.

O protesto não se juntou a outra acção de contestação realizada na Praça Tahrir, enquadrada na onda de manifestações anti-sistema que se arrasta desde Outubro, verificou a Reuters. O descontentamento de grande parte da população, especialmente os jovens desempregados ou com salários baixos, abrange toda a classe política estabelecida no período pós-invasão, incluindo Sadr, cujo partido é o segundo mais representado no Parlamento.