Reportagem

Sai um cappuccino e um corte de cabelo para esta mesa

Da próxima vez que for ao cabeleireiro em Lisboa, pode levar toda a família para tomar um café. O Kaya acaba de abrir e une os dois mundos, prometendo “café de especialidade, comida saudável e cabeleireiro orgânico”.

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O Kaya quer trazer "mais um bocadinho de vida à zona". Sara Jesus Palma
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Os bolos são todos feitos no espaço. Sara Jesus Palma
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Willian Bertuola trabalhava na área da tecnologia, antes de ser barista. Sara Jesus Palma
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O matcha latte é feito com as folhas mais nobres do chá verde e bebida vegetal de aveia. Sara Jesus Palma
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Rafael Silva é cabeleireiro há mais de dez anos. Sara Jesus Palma
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Todos os produtos utilizados são orgânicos e à base de óleos essênciais. Sara Jesus Palma
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A ementa passa por panquecas, tostas e bowls. Sara Jesus Palma

Rafael prepara-se para atender mais uma cliente, Willian tira um café e Gilbert confecciona umas panquecas de banana e avelã. Um trio improvável do qual nasceu o café-cabeleireiro Kaya na Rua Marquês de Fronteira, em Lisboa.

A montra promete “café de especialidade, comida saudável e cabeleireiro orgânico”, mas não prepara para o que se encontra para lá daquele vidro. Empurramos a porta e somos brindados com a simpatia do trio: Rafael, o cabeleireiro, Gilbert e Willian, especialistas em café.

Aqui nada é industrializado, desde a cozinha ao café, sem esquecer, garantem, o cabeleireiro. Os mais distraídos podem pensar que se trata de um café tradicional, mas são surpreendidos pela miragem de Rafael a arranjar cabelos. “O cabeleireiro casa com o café e vice-versa”, acredita Rafael Silva, cabeleireiro há mais de dez anos.

A ideia inicial de Gilbert Marconi e Willian Bertuola, que fizeram formação de barista há alguns anos, era abrir um café de especialidade, mas depois lembraram-se do amigo Rafael. Nasceu um casamento perfeito com um só objectivo: “Ter bons produtos”, defende Gilbert.

Tudo o que sai da cozinha, responsabilidade de Gilbert Marconi, é feito de raiz, ali mesmo. A ementa é maioritariamente vegetariana, mas sem “grandes clichés”, garante o empresário. Panquecas, tostas e bowls são algumas das opções. Para acompanhar, além do café, também servem smoothies.

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Panquecas de banana e creme de avelã (4,20 euros) e Latte (2,60 euros). Sara Jesus Palma

À mesa, enquanto esperamos pela nossa vez no cabeleireiro, chegam as Panquecas de Banana e Creme de Avelã (4,20 euros). Para acompanhar, Willian Bertuola sugere um Latte (2,60 euros), que é não só apelativo à vista, como ao paladar.

O café é de especialidade e, é realmente, uma grande especialidade. Mas o que significa isto? Gilbert, com formação de barista, explica: são cafés premium “100% arábica”, originados da Etiópia ou da América do Sul. O café de especialidade só nasce em altitude, acima dos mil metros. “São plantas com menos cafeína. Quanto maior a altitude, menos cafeína tem a planta”, esclarece.

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Gilbert Marconi e Willian Bertuola são responsáveis pela cozinha e pelo café de especialidade Sara Jesus Palma

Para o café expresso que os portugueses tanto gostam, Willian e Gilbert escolheram um grão do Brasil, de onde são naturais. “Escolhemos pelo gosto português. É um café mais torrado com gosto de chocolate”, diz Willian.

Os produtos locais são sempre privilegiados. Os cafés são da Olisipo e da Buraca Roasters, ambas marcas portuguesas. Tal como o chá preto, que é de São Miguel, Açores.

Por falar em chá, enquanto Rafael termina as madeixas na cliente, Willian prepara um matcha latte (3,50 euros), feito com as flores mais nobres da planta do chá verde e bebida vegetal de aveia. Não se deixe assustar pela cor verde.

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Matcha Latte (3,50 euros) Sara Jesus Palma

Antes de abrirem o Kaya, Gilbert, que no Brasil era pedagogo, e Willian, da área da tecnologia, trabalharam como baristas noutros espaços de Lisboa. O novo espaço, onde nasceu o café-cabeleireiro há duas semanas, foi outrora uma loja de móveis e estava fechado há mais de 20 anos. “A ideia também era trazer um bocadinho de vida aqui para a zona”, justifica Gilbert Marconi.

O trio andava à procura de um nome quando encontrou kaya, que encaixou na perfeição. Além de ser uma árvore asiática, é um termo budista que, como explica Rafael Silva, “significa três formas [através das quais] Buda mostra a sua verdade”. “Esta é a nossa verdade, a nossa arte”, diz, a sorrir, o cabeleireiro.

“Aqui não há um ambiente de salão de cabeleireiro”

A experiência de cabeleireiro nada tem a ver com os salões de bairro. Desde logo, faltam as revistas cor-de-rosa e não demos pelas típicas coscuvilhices... Gilbert avisa logo à entrada: “Aqui não há um ambiente de salão de cabeleireiro, onde tem aquela conversa que muitas vezes não vai dar em nada.”

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Rafael Silva é cabeleireiro há mais de dez anos Sara Jesus Palma

Os serviços oferecidos são os clássicos como corte feminino (35 euros) ou masculino (25 euros), hidratação (25 euros), reconstrução (45 euros), descoloração (65 euros) e madeixas (80 euros).

A experiência é mais personalizada. Antes de começar a fazer o que quer que seja, Rafael faz um diagnóstico capilar (incluído no valor do serviço) com questões que vão desde a frequência com que o cabelo é lavado aos produtos utilizados e a frequência com que aplica calor, secadores ou pranchas.

Somos surpreendidos quando Rafael pergunta que carnes comemos, a quantidade de vegetais, se praticamos desporto, etc. “A saúde do cabelo começa no bulbo capilar”, esclarece.

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Um cliente preocupado com a saúde capilar é o que o cabeleireiro procura. Todos os produtos utilizados, das marcas italianas Davines e OWay, são orgânicos e feitos à base de óleos essenciais, “que não agridem o meio ambiente, o profissional e a cliente”, esclarece.

Depois de dez anos a trabalhar com marcas convencionais, Rafael sentiu que estas prejudicavam não só a sua saúde, como a dos clientes. Foi então que, durante algum tempo, abandonou a profissão para trabalhar numa loja de produtos de beleza orgânicos, onde conheceu as marcas que agora utiliza. “As marcas orgânicas, apesar de os resultados serem mais lentos, não agridem”, garante o cabeleireiro.

A todas as clientes que o visitam, Rafael oferece um café ou um chá (ou não fosse este um café-cabeleireiro). O Kaya está aberto todos os dias, excepto à segunda-feira. Por isso, já sabe, se precisar de arranjar o cabelo, leve a família toda para tomar um café.

Texto editado por Sandra Silva Costa

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