Sabe qual é a infecção vaginal mais comum?

A vaginose bacteriana é a infecção vaginal mais comum e, se não for tratada, pode implicar riscos. O problema é que pouco se fala dela, ficando muitas vezes por diagnosticar.

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Se é mulher e está em idade fértil, então o mais provável é que já tenha tido – ou venha a ter – uma vaginose bacteriana (VB), mesmo sem saber. Isto porque uma em cada três mulheres pode desenvolvê-la ao longo da vida[1], muitas vezes sem sintomas [2] É, aliás, por esta razão que a VB é considerada a causa mais comum de infecções vaginais entre a puberdade e a menopausa [3]. Ainda assim, são muitas as mulheres que nunca ouviram falar deste problema de saúde ou, pior ainda, confundiram-se os sintomas e foram tratadas com medicamentos para outra infecção[4]. Na maior parte dos casos, a VB não é grave, mas há riscos a ter em conta se a infecção não for correctamente identificada e tratada.

O que é a Vaginose Bacteriana (VB)?

Dito de forma simples, a VB é uma infecção bacteriana que ocorre quando o pH da vagina se altera dando origem a mudanças importantes na microflora desta região. Verifica-se então uma redução das chamadas “bactérias boas” (os bacilos de Döderlein também comummente designados Lactobacillus) o que leva à diminuição da produção de ácido láctico e ao consequente desenvolvimento de “bactérias prejudiciais”, como a Gardnerella Vaginalis.

Apoiado na evidência científica[3], Fernando Cirurgião, director do Serviço de Obstetrícia e Ginecologia do Centro Hospitalar de Lisboa Ocidental, salienta que “a VB é a causa mais comum de corrimento anormal no mundo ocidental” e é precisamente através de “um corrimento vaginal fluido e leitoso, de cor branco-acinzentada e com um desagradável odor a peixe” que esta infecção se manifesta na maior parte das mulheres.

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Atenção às protecções naturais

De acordo com o especialista, “tanto o corrimento como o pH ácido da vagina são protecções naturais, que impedem a colonização das bactérias más e, por conseguinte, as infecções”. No que diz respeito às secreções vaginais – ou corrimento - há que ter em atenção que nem sempre a sua presença é indício de problema, ao contrário do que muitas vezes se ouve ou lê. Isto mesmo é sublinhado pelo clínico, segundo o qual “o facto de se ter uma certa quantidade de corrimento vaginal é normal, especialmente quando se está em idade fértil. A sua função é humedecer, lubrificar e manter a vagina limpa, dificultando o surgimento de infecções”.

O corrimento vaginal normal é transparente a branco, sem cheiro e com elevada viscosidade. Mas “se de repente diferir em cheiro, cor ou consistência, ou se aumentar ou diminuir significativamente em quantidade, pode ser indício de um problema subjacente”, especifica. A presença de corrimento anormal é um sintoma que pode também ser observado noutras infecções vaginais comuns nas mulheres durante a idade fértil, nomeadamente na candidíase ou tricomoníase, pelo que importa obter um diagnóstico correcto.

VB ou candidíase – o que é que eu tenho?

Uma das razões por que o diagnóstico de VB por vezes falha é a coincidência de sintomas com a candidíase - infecção fúngica que também resulta de alterações da flora vaginal, neste caso o crescimento descontrolado do fungo Candida albicans. Entre os sintomas mas frequentes destacam-se comichão, ardor, ligeiro inchaço dos lábios vaginais e corrimento espesso e esbranquiçado, com aspecto de requeijão. Já a VB raramente está associada a sintomas como dor ou prurido, sendo o corrimento o sinal mais visível, a que se soma o odor desagradável. Este quadro contribui para que a mulher sinta “impacto emocional, sentimento de vergonha e sensação de falta de higiene”, descreve Fernando Cirurgião. Além disso, na VB ocorre uma redução de ácido láctico e por isso o pH fica menos ácido (superior a 4,5), o que não se verifica na candidíase.

Neste sentido, o especialista refere que está disponível no mercado um teste de autodiagnóstico baseado na alteração de pH. “É um teste que, de forma simples e em segundos, ajuda a mulher a identificar o tipo de infecção vaginal e a encontrar o tratamento adequado”, esclarece, sublinhando que o mesmo “foi testado clinicamente com uma precisão superior a 90%”. Ainda assim, adverte que o mesmo “é apenas recomendado para diagnóstico da infecção quando se associa o pH aos sintomas da mulher, ou seja, uma avaliação de pH sem sintomatologia não permite concluir que existe patologia”.

Tratamento para evitar (muitos) riscos

O tratamento da VB é necessário, já que aumenta o risco de as mulheres desenvolverem doença inflamatória pélvica (DIP), endometrite ou contraírem doenças sexualmente transmissíveis, como o HIV. Também as mulheres grávidas com VB ficam mais propensas a sofrer um aborto, rotura prematura de membranas, parto pré-termo, endometrite pós-cesariana ou dar à luz um recém-nascido com baixo peso.

Perante um diagnóstico de VB, o especialista diz que “é sensato recorrer à utilização de um gel vaginal que trate os sintomas de forma natural, reduzindo o pH”. “Constituintes como o ácido láctico, que neutraliza eficazmente o mau odor e restabelece o pH normal da vagina, e o glicogénio, que fornece nutrientes às bactérias lácticas, auxiliando o seu crescimento, será uma boa solução”, reforça.

O tratamento pode também ser feito através de antibióticos, porém, nas suas palavras, esta opção traz “algumas desvantagens”, entre as quais se destacam o aumento do risco de recorrência e a possibilidade de a mulher vir a desenvolver candidíase, além de que há perigo na sua toma durante a gravidez.

Quanto à eventual necessidade de o tratamento se estender ao parceiro, o médico explica que “tendo em conta que a causa de VB é o desequilíbrio do pH e a consequente proliferação de bactérias nocivas, como a Gardnerella vaginalis, desconhece-se que esta infecte o parceiro. Logo, em caso de VB, o parceiro não tem de fazer nenhum tratamento”.

 

[2]Revisão dos Consensos em Infecções Vulvovaginais 2012 – Sociedade Portuguesa de Ginecologia.

[3]Sobel JD, Hay P. Diagnostic techniques for bacterial vaginosis and vulvovaginal candidiasis - requirement for a simple differential test. Expert Opin Med Diagn, 2010.

[4]Johnson SR et al. Attitudes and Experience of Women to Common Vaginal Infections. J Low Genit Tract Dis, 2010.

Código legal: L.PT.MKT.01.2020.2796

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