Número recorde: mais de quatro mil enfermeiros pediram para emigrar

Ordem dos Enfermeiros diz que subida é superior a 60% em relação a 2018. E fala em “número recorde” de pedidos de certificado de equivalência para exercer no estrangeiro.

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Em Março do ano passado os enfermeiros fizeram uma marcha por melhores condições de trabalho Nuno Ferreira Santos

É “um número recorde”, afirma a Ordem dos Enfermeiros, de pedidos de declarações que lhes chegou no ano passado para efeitos de emigração. E bem acima de qualquer número desde 2010. No ano passado, os enfermeiros fizeram 4506 pedidos do certificado de equivalência para exercer no estrangeiro, um número que mais que triplica em relação a 2017 e representa um aumento de 64% face a 2018.

Os dados dos primeiros seis meses de 2019 já deixavam adivinhar que o ano passado poderia registar um número recorde de pedidos de declarações, tal como o PÚBLICO tinha noticiado. “Face aos dados do primeiro semestre de 2019, que contabilizou 2321 pedidos de declarações, a Ordem já tinha alertado para a possibilidade de 2019 vir a registar a maior vaga de emigração de sempre, o que acabou por se concretizar, e o ano fechou com números surpreendentes e além dos estimados”, refere a Ordem dos Enfermeiros em comunicado.

Nessa altura, as solicitações já eram quase tantas como as que foram feitas em todo o ano de 2018. Segundo dados da Ordem, nesse ano os enfermeiros pediram 2736 declarações e em 2017 esse número foi de 1286. O valor mais alto, desde 2010, tinha sido registado em 2014, em plena época de crise financeira, com 2850 pedidos de declaração para efeitos de emigração.

Na nota à comunicação social enviada esta quinta-feira, a bastonária Ana Rita Cavaco diz que “este é um número preocupante, que diz muito sobre o estado da saúde em Portugal e, em particular, sobre a forma como os profissionais são tratados”. A ausência de contratação e as condições de trabalho são duas das questões que a bastonária considera que pesaram nestes números.

“No estrangeiro, os enfermeiros têm a formação e a especialidade pagas, têm, efectivamente, uma carreira com diferenciação salarial, mas, acima de tudo, são reconhecidos e acarinhados”, afirma ainda Ana Rita Cavaco.

Embora nem todos os enfermeiros dêem indicação para que país pensam emigrar ou para o qual vão emigrar — esta informação não é obrigatória —, há quem o faça. E, segundo os dados disponíveis, Inglaterra continua a ser o principal destino, seguido de Espanha e Suíça. No comunicado, a Ordem fala da estimativa de mais de mil pedidos por ano que têm como destino o Reino Unido e salienta que “os Emirados Árabes surgem já no sexto destino preferencial, assim como vários países fora da Europa, como a China e o Qatar”.

No comunicado, a Ordem afirma que “em Portugal, apesar de faltarem 30 mil enfermeiros, não há contratação e, como tal, muitos profissionais acabam por emigrar”. A bastonária tem pedido a contratação de três mil enfermeiros por ano para reforçar sobretudo os hospitais.

No final do ano passado, a ministra da Saúde anunciou que neste e no próximo ano o Serviço Nacional de Saúde (SNS) seria reforçado com mais 8400 profissionais, sendo que não se sabe quantos destes serão enfermeiros. De acordo com a nota explicativa do Orçamento da Saúde para 2020, no ano passado as unidades do SNS, incluindo parcerias público-privadas, teriam 46.688 enfermeiros, mais 1756 do que no ano anterior.

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