Editorial

Por que é que os leaks não são todos iguais?

As suspeitas do Luanda Leaks aceleraram a investigação em Angola e o provável é que o mesmo aconteça em Portugal. Mas há uma pergunta para a qual não há resposta. Por que é que o Football Leaks não suscita o mesmo interesse público e judicial em Portugal?

As revelações dos esquemas financeiros de Isabel dos Santos e do marido, através dos quais terão desviado dinheiros públicos para paraísos fiscais, não são a surpresa do ano. Nos anos de crise, Portugal não tinha liquidez, Angola tinha. Nesse período, ninguém se importou muito em saber se a origem do dinheiro angolano era ou não fraudulenta. Afinal, o que se passou foi que as verbas de fundos públicos de Angola foram aplicadas na compra de empresas portuguesas em sectores fundamentais como a energia, as telecomunicações, a banca ou a comunicação social.

A promiscuidade entre elites e classes políticas dos dois países está à vista: dezenas de ex-governantes passaram pelas administrações de empresas de capital angolano, incluindo um ex-presidente do instituto de cooperação e ex-ministros das Finanças e dos Negócios Estrangeiros. Quando o clã de José Eduardo dos Santos gozava de infinita impunidade, o tema era de delicada abordagem nas relações entre os dois países. E o interesse era mútuo.

Com o Luanda Leaks, Isabel dos Santos perdeu a impunidade. A empresária foi constituída arguida em Angola por má gestão e desvio de fundos da Sonangol e o Procurador-geral daquele país, que não afasta a emissão de um mandado de captura internacional, veio a Lisboa falar com as autoridades portuguesas. Isabel dos Santos vai vender a sua participação no banco Eurobic, os seus administradores na Nos demitiram-se, a PwC anunciou que vai deixar de trabalhar com a empresária, e a presidente da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários deu início a “acções de supervisão concretas”. Isso mesmo, “concretas”.

O nome Isabel dos Santos tornou-se tóxico, a ponto de ter sido riscado do Fórum Económico Mundial de Davos. 
Como seria de esperar, as suspeitas aceleraram a investigação em Angola e o provável é que o mesmo aconteça em Portugal, onde o Ministério Público investiga há mais de oito anos várias figuras dessa elite angolana, entre as quais Isabel dos Santos.

Mas há uma pergunta cada vez mais frequente, pertinente e para a qual não há resposta cabal. Por que é que o Football Leaks não suscita o mesmo interesse público e judicial em Portugal? O coordenador responsável da rede de investigação sobre agências anticorrupção diz que os magistrados portugueses “são conservadores” quanto à análise de informação fornecida em denúncias como estas. Talvez. Mas o conservadorismo não explica tudo. Pelo menos, não explica o desinteresse.