Opinião

Luanda Leaks: reputação ou lucro?

Perante os avisos, como foi possível que a mais notável sociedade portuguesa fosse permeável à integração no universo opaco de ligações concertado por Isabel dos Santos e sua família, cujos indícios de suspeição eram notórios?

Sem surpresa, o escândalo Luanda Leaks atingiu a reputação de Portugal, em especial das empresas, das marcas e das personalidades envolvidas. Sem surpresa porque era previsível devido a diversas razões de que são exemplos as seguintes.

O ano de 2014 entreabriu no horizonte de África a aplicação do sistema de cooperação internacional resultante da resposta à crise de 2007/2008 centrado na transparência fiscal e na mobilização dos recursos dos países em desenvolvimento, em articulação com a luta contra a corrupção, o branqueamento de capitais e o papel dos intermediários como bancos, advogados, consultores, etc.

Ademais, a análise das diversas fugas de informação confirmava, como ao tempo escrevi, que os Panama Papers “são a última fuga de informação, antes da próxima... que surgiu à medida das necessidades do processo de refundação do sistema de cooperação internacional em resposta à crise de 2007/8”. Este contexto afirmava com clareza o risco reputacional, visível na força destruidora de furacões mediáticos com olho em irregularidades financeiras que desencadearam reações em cadeia nas relações e nas redes sociais, materializando uma hostilização emocional que determinou destruições, perdas e retirou a licença social aos visados.

Na realidade nacional existiram, aliás, diversos avisos que sinalizavam serem bem reais, entre nós, os perigos que especifiquei. Basta referir a reação mediática e das redes sociais à operação que a Jerónimo Martins SGPS realizou em 2011 (transferência da residência fiscal para os Países Baixos), aos usos indevidos do regime da Zona Franca da Madeira, ao insigne trabalho político e cívico da deputada Ana Gomes sobre casos em Angola, às inclemências comportamentais de instituições de crédito com efeito sistémico entretanto perecidas como o BES, ao dilacerante depoimento de Ricardo Salgado que deu a conhecer que o “leopardo quando morre deixa a sua pele. E um homem quando morre deixa a sua reputação”.

Acresciam as denúncias sobre a severa pobreza em Angola em relatórios da ONU, da União Europeia ou de ONG, como a Oxfam, nas divulgações do Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação, do New York Times ou na constante atenção da imprensa portuguesa de que é exemplo o Debate Africano na RTP África.

Perante tais avisos, como foi possível que a mais notável sociedade portuguesa fosse permeável à integração no universo opaco de ligações políticas e empresariais concertado pela engenheira Isabel dos Santos e sua família, cujos indícios de suspeição eram notórios?

Escolho destacar uma vertente pouco valorizada, mas que considero ter sido fundamental e que consiste na mentalidade/cultura de risco predominante nos decisores que consideram o conceito Economia Reputacional uma harpa de líricos, e no processo de decisão ignoraram ou relegaram para segundo plano o risco reputacional, dando primazia ao risco financeiro. Ou seja, na avaliação da criação ou preservação de valor, o lucro prevaleceu sobre a reputação. Assim desprotegendo o capital reputacional da empresa/marca e a sua sustentabilidade em face de uma previsível explosão reputacional que antes de o ser já o era devido às razões que mencionei.

Faço notar que a governação interna dos grupos e empresas envolvidos permite demonstrar este fraco escol de gestão, pois, apesar da importância primordial que protestam atribuir à reputação, em nenhuma delas existe um Chief Reputational Officer, ou seja, um administrador com a responsabilidade global da gestão e orientação da reputação, que prevaleça sobre o CFO (administrador com o pelouro financeiro). Auto-explicativo?

O autor escreve segundo novo acordo ortográfico