Anabella Sciorra contou em tribunal como foi violada por Weinstein

O testemunho da actriz de Os Sopranos marcou o segundo dia do julgamento do produtor de Hollywood em Nova Iorque. ““Eu dava-lhe socos e pontapés, tentando que me largasse, mas ele pôs-se em cima de mim e violou-me”.

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Reuters/JANE ROSENBERG

O segundo dia do julgamento de Harvey Weinstein em Nova Iorque ficou marcado esta quinta-feira pelo testemunho da actriz Anabella Sciorra, que acusou o produtor de a ter violado no seu apartamento, há 25 anos. “Teve relações sexuais comigo enquanto eu tentava resistir, e não pude lutar mais porque ele me prendeu as mãos”, disse a intérprete da série televisiva Os Sopranos.

A alegada violação terá ocorrido numa noite não identificada do Inverno de 1993-1994, há demasiado tempo para que Weinstein possa ainda ser judicialmente processado por ela, mas a acusação espera que os relatos de Sciorra e de outras mulheres que terão sido vítimas de agressões semelhantes, e que poderão vir a depor nos próximos dias, contribuam para mostrar que o réu é um predador sexual em série.

Se este objectivo for coroado de êxito, Weinstein poderá ver agravada a sua sentença caso venha a ser condenado pelas cinco acusações que enfrenta neste julgamento, todas elas relacionadas com agressões a duas mulheres: Miriam Haleyi, uma assistente de produção da sua empresa que terá sido forçada a fazer-lhe sexo oral em 2006, e a então candidata a actriz Jessica Mann, que o produtor terá violado em 2013.

A identidade desta última só foi divulgada esta quarta-feira, no primeiro dia de audições. Segundo afirmou em tribunal a procuradora Meghan Hast, Jessica Mann conheceu Weinstein quando tinha 25 anos, numa festa em Los Angeles, e este ter-se-á oferecido para ajudar a impulsionar a sua carreira como actriz, tendo-lhe mesmo acenado com a falsa promessa de que lhe conseguiria o papel principal num filme. Ainda segundo Hast, depois de ter sido violada pelo produtor num quarto de hotel de Nova Iorque, a actriz manteve com o agressor uma “aparência de relacionamento” e veio a ser agredida mais duas vezes nos anos seguintes.

O advogado de Weinstein, Damon Cheronis, descreveu esse relacionamento como “consensual e amoroso” e apresentou em tribunal uma mensagem de texto que Jessica Mann terá enviado ao réu em Fevereiro de 2017, e na qual terá escrito: “Amo-te, sempre te amarei, mas detesto sentir-me como uma ‘booty call’ [calão urbano para chamadas telefónicas feitas a altas horas da noite com o propósito expresso de arranjar um parceiro sexual para a ocasião]”. 

Socos e pontapés

Cheronis assegurou que a actriz trocou várias mensagens amigáveis com Weinstein, quer logo após a alegada violação, quer anos depois, e já anunciou que está na posse de mensagens de texto e e-mails que demonstrariam que também Haleyi teria contactado várias vezes o produtor anos após a agressão e que o acusa.

“Estas trocas de mensagens deverão tornar-se uma questão central no julgamento”, diz o diário americano USA Today, acrescentando que se espera, por isso, que a acusação chame a depor peritos que testemunhem que este “não é um comportamento incomum” em vítimas de agressões sexuais.

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Chegada da actriz Anabella Sciorra ao tribunal em Nova Iorque JUSTIN LANE/ EPA

O mesmo jornal relata que Anabella Sciorra, hoje com 59 anos, começou por responder com tranquilidade e em voz clara às perguntas da procuradora Joan Illuzzi, mas teve dificuldade em prosseguir quando lhe foi pedido para descrever em detalhe o que Weinstein lhe terá feito no seu apartamento da zona residencial de Gramercy Park, em Manhattan, depois de ambos terem participado num jantar de grupo num restaurante irlandês.

Sciorra aceitou boleia do produtor até casa e, quando julgava que este já tinha partido e se preparava para se deitar, ouviu bater à porta, contou. “Weinstein empurrou a porta, sem me dar tempo de perceber porque estava ali, e começou a desapertar a camisa, de modo que percebi que ele queria sexo, e eu não queria”. A actriz explicou que foi recuando para o quarto de banho, mas que o produtor a agarrou, a levou para o quarto e a atirou para a cama. “Eu dava-lhe socos e pontapés, tentando que me largasse, mas ele pôs-se em cima de mim e violou-me”, disse ainda Sciorra, acrescentando que, depois de a penetrar, Weinstein ainda lhe fez sexo oral contra a sua vontade. “Nessa altura já não me restava muita energia para lutar: disse ‘não’, ‘não’, mas o meu corpo foi-se abaixo”.

Explicando que nos dias seguintes quis fazer de conta que não acontecera nada para poder prosseguir com a sua vida, a actriz assumiu que não chamara a polícia. E quando a procuradora lhe perguntou por que não o fizera, respondeu “após uma longa pausa”, segundo o USA Today, e disse que não sabia, então, se o que acontecera fora um crime.

Sciorra disse ainda que algumas semanas depois confrontou Weinstein num restaurante, contando-lhe como desmaiara e acordara no chão, e este teria replicado: “Isso é o que as raparigas católicas dizem todas”.

O produtor teria ainda continuado a persegui-la durante muitos anos, telefonando-lhe, convidando-a para pequenos-almoços e batendo-lhe à porta quando ambos partilhavam hotéis em festivais de cinema e ocasiões semelhantes.

Harvey Weinstein continua a declarar-se inocente de todas as acusações, afirmando que as suas actividades sexuais com mulheres foram consensuais, mas além das acusações pelas quais agora responde em tribunal em Nova Iorque, deverá vir a enfrentar um novo julgamento em Los Angeles, onde é acusado de ter violado uma mulher e agredido sexualmente outra em dois dias consecutivos de Fevereiro de 2013.