Vodafone abandona projecto de criptomoedas do Facebook

A multinacional de comunicações é a oitava empresa a abandonar o projecto que foi anunciado em meados de Junho.

Libra
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Desde de cedo que o projecto é alvo de escrutínio de governo e reguladores Reuters/DADO RUVIC

A Vodafone é a mais recente multinacional a abandonar o projecto de criptomoedas do Facebook, que foi criado com o objectivo de facilitar pagamentos e transferências online a partir de aplicações como Messenger e o WhatsApp, sem depender de bancos tradicionais. O anúncio feito ao final do dia de terça-feira.

O projecto, que arrancou em Junho de 2019 com o apoio de perto de três dezenas de parceiros (desde à Mastercard e Visa, à Uber e Spotify), tornou-se o primeiro exemplo de colaboração entre vários gigantes empresariais para criar uma divisa para ser enviada electronicamente em todo o mundo, sem depender de uma entidade central como um banco. E eram estas empresas que, em conjunto, seriam responsáveis por gerir a nova moeda. Mas desde então, várias puseram o projecto de parte – e a Vodafone é a oitava a desistir.

Desde o início do projecto que a Libra é alvo do escrutínio de reguladores e políticos em todo o mundo pela possibilidade de um novo sistema de criptomoedas facilitar actividades ilegais como lavagem de dinheiro, e pelo risco de destabilizar o mercado económico devido à sua volatilidade. O conceito de moedas digitais ganhou fama com o bitcoin, a mais conhecida das divisas digitais, que foi apresentada pela primeira vez em 2008. Só que o valor da moeda é muito instável: em 2018, por exemplo, a bitcoin caiu de 17 mil dólares para quatro mil. As oscilações geraram, alternativamente, milionários e grandes perdas de dinheiro.

Com isto, as empresas de pagamento PayPal, Mastercard e Visa foram as primeiras a abandonar o projecto em Outubro, devido à incerteza em torno da regulação.

Contactada pelo PÚBLICO, a equipa da Libra confirma o afastamento da Vodafone. “Embora a composição dos membros da Associação possa mudar com o tempo, a estrutura de governo e a tecnologia da Libra garantem que o sistema de pagamento se vai manter resiliente”, lê-se no comunicado assinado por Dante Disparte, responsável pela política pública e comunicação da Associação Libra. ​

Tal como outras criptomoedas populares, como o bitcoin, a Libra vai circular numa base de dados descentralizada e de código aberto. Mas, contrariamente à grande parte das moedas digitais, a Libra começa por estar suportada por uma reserva de moedas fiduciárias, como o dólar norte-americano. E cada membro fundador da associação contribuiu com pelo menos dez milhões de dólares (perto de nove milhões de euros) para garantir alguma estabilidade inicial.

A Vodafone não justifica directamente a saída, mas nas respostas enviadas à imprensa a empresa nota que se mantém o objectivo de “dar um contributo genuíno para promover a inclusão financeira” e que vai orientar os seus esforços no M-Pesa, um serviço de pagamento móvel da Vodafone disponível em alguns países como a Índia, África do Sul e Roménia. “Não colocamos de parte a possibilidade de colaborar futuramente [com a Libra]”, lê-se na conclusão do comunicado da Vodafone.

Actualmente, a Associação Libra está a trabalhar num documento que responda às preocupações de reguladores.

A incerteza em torno do projecto e o facto dos parceiros iniciais do projecto o continuarem a abandonar, dificultam os planos de Mark Zuckerberg lançar a Libra em 2020. Em Outubro de 2019, quando foi chamado a depor no Congresso norte-americano sobre os planos para a rede Libra, o presidente executivo do Facebook lembrou que se uma empresa dos EUA não avançar com um sistema de pagamento digital, os norte-americanos arriscam acabar por ser ultrapassados pela China. E apesar da ideia da Libra surgir com o Facebook, qualquer programador e empresa pode desenvolver carteiras que funcionem em rede – a versão do Facebook, capaz de funcionar no Messenger e no WhatsApp, será a Calibra.