Opinião

Crónica de uma absolvição anunciada

Cheguei aos EUA num dia histórico, mas não se sente como um dia histórico. Será só o início de algo interessante.

Boston, Massachusetts, EUA. — Chego no primeiro dia do julgamento de Trump no Senado dos EUA, e seria fácil começar pelo tom grandiloquente dos dias históricos. Afinal, é apenas a terceira vez em mais de duzentos anos de independência que um Presidente dos EUA chega a este ponto em que é considerada a sua “remoção” (tecnicamente, a “impugnação” ou impeachment de Trump já se deu na Câmara de Representantes, faltando ao Senado considerar as penas associadas, que poderão ser de “remoção” do cargo e eventualmente “desqualificação” de exercer futuros cargos). Mas não, nada há que nos faça sentir que este dia é mais do que apenas o habitual hiperventilar dos polarizadíssimos órgãos de comunicação social estado-unidenses. Há sempre uma discussão a altos decibéis entre democratas e republicanos por aqui: à medida em que cada lado, e o país, foi ficando mais surdo, aquilo que só se fazia uma vez em cada dois séculos (o impeachment de Andrew Johnson) passou a fazer-se duas vezes a cada geração (os impeachments de Clinton e Trump) e a continuar assim far-se-á uma vez a cada mandato. Mas servirá de pouco, porque o próprio mecanismo de impeachment dá sinais de esvaziamento.