O caderno de encargos de Juan Guaidó para a UE: mais pressão, mais sanções, mais investigações

Líder da oposição venezuelana manteve encontros na Comissão e Parlamento Europeu onde reforçou a sua mensagem de que 2020 pode ser o ponto de viragem na crise política.

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Juan Guaidó com Antonio Tajani e Paulo Rangel OLIVIER HOSLET/Reuters

O presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, Juan Guaidó, chegou a Bruxelas com uma mensagem clara, que repetiu uma e outra vez nos encontros com os dirigentes da Comissão Europeia e do Parlamento Europeu e que é esta: só a realização de eleições presidenciais livres, permitirá ultrapassar o impasse político e fornecer respostas para a grave crise económica e social que o seu país atravessa. “Essa é a grande petição dos venezuelanos, e é por isso que lutamos”, resumiu aos jornalistas, mostrando-se esperançoso de que o ano de 2020 venha a ser o ponto de viragem que produza uma mudança política. 

Segundo o líder da oposição ao Governo do Presidente Nicolás Maduro, “aquilo que parecia impossível e irresolúvel há dois anos” — a saber, “que a Venezuela possa voltar a ser um país democrático e próspero” — tem agora “uma oportunidade”, uma vez que as acções encetadas pelo regime para o afastar da presidência da Assembleia Nacional vieram relançar o processo ao nível internacional. “Hoje, penso que todo o mundo está consciente da situação de emergência na Venezuela”, disse.

Por isso, considerou, a comunidade internacional deve usar o momento para promover “acções coordenadas e contundentes”, dirigidas estrategicamente para atingir o círculo mais restrito do poder: mais pressão política e diplomática, mas, sobretudo, mais sanções e mais investigações, por exemplo para detectar os movimentos de capitais de figuras do regime em território da UE, ou monitorizar as operações de venda de ouro venezuelano à Turquia através de canais europeus.

“As sanções são a ferramenta que o mundo livre tem ao seu dispor para pressionar, e infelizmente hoje são medidas correctivas. Os caminhos da diplomacia são necessários, mas as sanções são mais importantes porque a ditadura de Maduro não responde à lógica da política, responde às máfias e ao narcotráfico”, acusou Juan Guaidó.

E segundo o próprio, a experiência prova que o Governo de Nicolás Maduro recua perante o agravamento do quadro sancionatório. “O que ele nos disse foi que as sanções são muito eficazes e daí o seu apelo a que sejam reforçadas. De cada vez que os europeus e os americanos reforçaram as sanções, houve de facto uma evolução do regime, que deu alguns passos atrás” em termos da repressão e perseguição política, relatou o eurodeputado do PSD, Paulo Rangel, o único eleito português que esteve reunido com Juan Guaidó.

Em sintonia com o líder venezuelano, o social-democrata considera que depois de vários impasses, “o golpe que Maduro deu [na Assembleia Nacional] veio relançar o processo” e oferecer à comunidade internacional uma segunda oportunidade para fazer cair o regime venezuelano. “Nós não fomos capazes de dar um apoio suficiente na altura crítica que foi a do início do ano passado”, lamentou Paulo Rangel. “Agora, para o bem e para o mal o processo está relançado. A UE tem que reforçar as medidas sancionatórias, e fazer uma pressão enorme para fazer eleições livres e ter um governo legítimo”, disse, precisando que o objectivo da UE não é “entregar o poder directamente à actual oposição” mas sim “garantir as condições, eventualmente com alguma presença internacional, para organizar um processo eleitoral e restabelecer a democracia na Venezuela”.

Pelo seu lado, a eurodeputada comunista, Sandra Pereira, criticou a iniciativa do Parlamento Europeu de acolher Juan Guaidó, “que se autoproclamou Presidente da Venezuela sem ter sido eleito pela vontade popular”, frisou. “Nós rejeitamos completamente e repudiamos a posição de alguns dos grupos do Parlamento mas também da Comissão Europeia, uma vez que o Alto Representante para a Política Externa também recebeu Juan Guaidó, disse a eurodeputada, que encara o reconhecimento institucional do líder venezuelano como “uma ingerência”.

“Para nós, devem ser respeitadas as posições do povo venezuelano, que tem sido claro, quer nas urnas, quer nas ruas, no seu apoio a Maduro”, afirmou Sandra Pereira, lembrando que o PCP foi observador das eleições e constatou que estas “decorreram de forma democrática, livre e transparente”. “E depois disso, vimos que o povo tem o seu destino nas mãos. Os venezuelanos não querem que países estrangeiros vão para lá mandar e por isso parece-nos que esta tentativa de golpe, apoiada quer pelos Estados Unidos, quer pela União Europeia, fracassou”, concluiu.