Opinião

Cristina, ou a política das emoções

Ninguém sabe se, um dia, Cristina Ferreira vai passar das palavras aos actos. Mas o mero facto de ter produzido estas palavras é, em si mesmo, um sinal que importa reter.

Cristina Ferreira deu recentemente uma entrevista à Visão em que se mostrava disponível para se candidatar à Presidência da República. Começando por revelar ter um “fascínio cada vez maior pela política e pela forma como os políticos podem mesmo mudar a vida dos outros”, reconhece que não se sente capaz de chefiar um governo. “Agora, representar todos os portugueses, acho que um dia o poderia fazer, que me iria preparar e que não iria falhar”, assevera-nos aquela que é, aos 42 anos, a mais conhecida apresentadora de televisão em Portugal.

O que estas palavras nos dizem sobre a Presidência da República? E sobre o nosso sistema de partidos e sobre a própria democracia portuguesa? Dizem muito.

Desde logo, dizem-nos muito sobre o atual inquilino do Palácio de Belém. Tal como Cavaco, Sampaio, Soares e Eanes, também Marcelo Rebelo de Sousa chegou à Presidência depois de anos na política. Nos casos de Soares e Cavaco, esta experiência incluía a própria chefia do Governo. Mas Marcelo trouxe algo de novo à Presidência: os “afetos”. Os afetos de Marcelo não são apenas uma inovação, como um dia o foram as “Presidências abertas” de Soares. Os afetos são o que define a sua presidência. Os afetos são a imagem de marca de Marcelo. O que lhe granjeia taxas estratosféricas de aprovação são os abraços e os beijinhos – de preferência dados à frente duma câmara de televisão. Por exemplo, o que ficou na memória dos portugueses sobre a atuação do Presidente em Pedrógão foi a forma como abraçou aqueles que tudo haviam perdido nos incêndios. Marcelo mudou a função presidencial neste aspecto crucial. Com Marcelo, e sobretudo no pós-Marcelo, à experiência e qualificações, “representar todos os portugueses” requer agora um novo, e decisivo, elemento: as emoções. Este é o legado de Marcelo – “o Presidente dos afetos” – aos portugueses.

Claro que as emoções sempre fizeram parte da política. Muitas vezes com má fama. A figura do demagogo, aquele que usa as emoções em vez da razão para ganho político, acompanha-nos desde a Grécia Antiga. Mas os afetos de Marcelo não são simples demagogia. Os afetos não são mobilizados em vez da razão. Marcelo alia razão e emoção. Marcelo faz uso da sua inteligência emocional. Os afetos de Marcelo são um ativo político, uma parte da sua identidade, um atributo que lhe permite fazer coisas e chegar aos portugueses – mas, por regra, de forma estratégica e racional.

A verdade é que é muito difícil controlar as emoções, sobretudo em política. A demagogia é um perigo sempre à espreita, da junta de freguesia mais recôndita ao centro do poder. Há poucas coisas mais perigosas para um Governo do que o escárnio, para já não falar na raiva, do povo. Neste sentido, as palavras de Cristina dizem-nos muito sobre o sistema de partidos em Portugal, e as emoções negativas que os nossos partidos suscitam no eleitorado.

Apontam para a possibilidade de estes se verem ultrapassados na definição dos candidatos presidenciais. Significa, sobretudo, a possibilidade de uma candidatura espontânea, fora dos partidos e contra a forma habitual de fazer política. Uma candidatura de alguém com uma notoriedade muito superior à esmagadora maioria dos políticos. Alguém que, potencialmente, poderia explorar em benefício próprio o afastamento entre representados e representantes no nosso país. Com a imagem que os partidos políticos têm entre nós, a primeira coisa que um candidato presidencial faz é afastar-se do partido donde vem; Cristina tem aqui uma vantagem imensa: viria diretamente da Malveira para Belém.

Diz-nos também duas coisas sobre a nossa democracia. Primeiro, o regime é hoje mais democrático. O leque de pessoas “presidenciáveis” é hoje mais alargado. Se os “afetos” importam tanto ou mais do que a experiência e as qualificações, Cristina Ferreira pode ser apenas a primeira de uma nova vaga de candidatos. Segundo, a nossa democracia está cada vez mais vulnerável a uma política das emoções que mascara a ausência de conteúdos programáticos por detrás da exploração mediática das experiências pessoais. Nos últimos anos, a exposição pública da intimidade tem sido explorada por quase todos os políticos. Com Cristina a candidata, teríamos a entrevistadora transformada em entrevistada. Quem a poderia censurar?

Ninguém sabe se, um dia, Cristina vai passar das palavras aos atos. Mas o mero facto de que ela produziu estas palavras é, em si mesmo, um sinal que importa reter. Um sinal do que está para vir. Termos uma mulher finalmente na Presidência da República seria bem-visto por muitos. Termos uma mulher do povo como Presidente seria alvo de críticas de muitos outros.

Na realidade, esta entrevista é apenas mais um passo num caminho que começou há muito. A representação democrática no nosso país teve início há pouco mais de 40 anos, e não tem parado de crescer desde então. Mas os deficits de representação mantêm-se significativos. Há poucas mulheres entre os nossos representantes. Há muito poucos jovens. E, num país em que metade dos contribuintes não paga IRS por não ter rendimentos suficientes, quase não há pessoas de classes sociais desfavorecidas. Na realidade, o sistema político e mediático afunila tanto o perfil dos nossos candidatos que torna uma putativa candidatura de Cristina quase inverosímil. E até motivo de chacota.

Mas se há algo que a história da democracia nos ensinou nestes últimos 200 anos é que, uma vez posta em movimento, não há impossíveis no que diz respeito a quem pode ser eleito. A democracia é como uma onda, uma onda que alisa a areia da praia à sua passagem. Uma onda irresistível: não há castelos de areia que lhe resistam. Mas também uma onda que provoca reações, nomeadamente daqueles que temem que esta crescente inclusão de vozes possa minar a democracia por dentro. Os limites constitucionais ao princípio da soberania popular têm origem precisamente aqui. De facto, algumas destas vozes vão ser estridentes, pouco informadas e até chocantes. Mas se uma dessas vozes chegar um dia à Presidência da República – chame-se ela Cristina ou Cristiano – não nos devemos queixar: para quê experiência e qualificações quando se pode ter afetos na Presidência?

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

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