Opinião

Reagir aos ataques do populismo

A história ensina-nos que, embora com atraso, os males da Europa acabam por nos atingir, pelo que também nós nos devemos preparar para contra-atacar.

Na edição de 3 de Janeiro deste jornal, Ana Gomes Ferreira publicou uma pequena notícia intitulada “Xi Jinping vai ser anfitrião da Cimeira 17+1 “. Escrevi pequena notícia quanto à quantidade da prosa, mas o seu conteúdo, como ali logo se assinalou, assume uma grande dimensão, e indica que a China se veio explicitamente juntar à Rússia e aos Estados Unidos na vontade de fraccionar e enfraquecer a União Europeia (UE), não a querendo como grande potência. Dos 17 países convocados para Pequim, 11 tornaram-se membros da UE depois do fim do domínio soviético: Estónia, Letónia, Lituânia, Polónia, República Checa, Eslováquia, Hungria, Roménia, Bulgária, Croácia e Eslovénia, aos quais se juntou a Grécia, onde se manifestam fortíssimos interesses chineses. Os restantes cinco são candidatos à adesão à UE: Sérvia, Bósnia-Herzgovina, Montenegro, Albânia e Macedónia. É fácil notar que não foram convidados, ou recusaram-se a participar, países como Portugal, Espanha, França ou Alemanha. Isto é, foram recrutados os elos mais frágeis da União, onde se manifestam sobressaltos nacionalistas, accionados por diversas formas de retórica populista, ou seja, mais facilmente manobráveis do exterior.

Se recordarmos como já se moveram a Rússia e os Estados Unidos impulsionando movimentos populistas de direita que alteraram a fisionomia política da Europa, a intervenção do novo actor chinês não pode deixar de preocupar. A Itália foi o primeiro laboratório desta acção conjunta para enfraquecer por dentro a UE. A ascensão do partido La Lega de Matteo Salvini terá sido financiada por Moscovo, que logo agradeceu, defendendo o fim das sanções europeias a Moscovo decretadas depois da invasão da Crimeia. Steve Bannon, o conselheiro de Trump, colaborou activamente na estratégia que promoveu aquele partido como o mais votado de Itália. A Itália, que atravessa há anos uma crise de identidade politica, terá parecido a Bannon o terreno ideal de onde partir para minar a Europa e propôs-se mesmo criar ali uma academia para formar quadros eurocépticos, tendo obtido do Estado italiano a concessão de um imenso convento, a Certosa de Trisulti, para ai a instalar. A imprensa italiana suspeitou de un imbroglio, investigou, e verificou as múltiplas fraudes que levaram à concessão, nomeadamente com o apoio de cardeais anti-Papa Francisco, o qual, pelo seu lado, ainda recentemente veio defender a coesão da UE. Depois destas denúncias, a concessão foi retirada, mas não é de prever que o projecto tenha sido abandonado e o grupo que gira ao redor de Bannon estará já à procura de nova sede para pôr em prática idêntico programa.

Em França, o apoio a Marine Le Pen da parte de Bannon é patente e a Rússia concedeu ao seu partido créditos que a banca francesa lhe negou. Na Inglaterra, Bannon associou-se a Nigel Farage para promover o “Brexit”, que tanto agrada a Trump. Bannon apareceu nos comícios do partido neo-nazi Alternative für Deutschland e atacou Angela Merkel. Os aliados de Bannon na Bélgica não estão menos activos. Em Portugal, decorreu recentemente em Fátima uma reunião em que participaram Viktor Orbán, primeiro-ministro da Hungria, notoriamente eurocéptico, para dizer pouco, um conselheiro pessoal de Trump e prelados. Não consta que se tenham associado para uma peregrinação em honra dos três pastorinhos.

As acções desestabilizadoras das três superpotências não visam beneficiar as populações que agridem com a sua propaganda sugerindo-lhes miragens soberanistas, visam enfraquecer por dentro a União, de modo a torná-la presa fácil das suas manobras económicas e ideológicas. Entretanto, estas acções vão corroendo a coesão das diferentes sociedades sobre que incidem, como se verificou no caso do “Brexit”, que dividiu a Inglaterra em duas, estando também a contribuir para esfarelar a Itália; ocupam-se ainda de debilitar a França de Macron, que se tem vindo a afirmar, ao lado do Papa Francisco, como rosto e paladino da Europa.

As manobras de Bannon são feitas às claras, sem que nasça uma contraposição eficaz. Num filme que passou recentemente num festival em Lisboa, The Brink, de Alyson Klayman, gaba-se de tudo isto e promete mais, com o apoio de milionários americanos, entre os quais figura, com nome e rosto, um dos magnatas da Goldman Sachs. Bannon promove uma hábil estratégia de polarização em torno de problemas específicos, semeando fake news com o objetivo de instigar divisões e confrontos, segundo a técnica que vinha praticando nas hate radios que o tornaram famoso nos Estados Unidos, ainda antes de ser um dos promotores da eleição de Trump. Onde Bannon não chega pessoalmente, a sua voz inspira réplicas mais ou menos grotescas dos seus discursos por personagens que conquistam visibilidade segundo a sua receita de estar sempre presentes na cena mediática, sobretudo dizendo enormidades que lançam o debate público nos termos que ele propõe.

Esta estratégia não tem tido uma resposta europeia à altura dos ataques e os simples programas de autopromoção da União ignoram esta realidade e organizam-se como se nada estivesse a acontecer, apresentando a UE de forma quase paradisíaca, sem enfrentarem as realidades e fracturas no seio dos países membros. Ataques que têm feito ressurgir velhos fantasmas, do vómito antissemita ao regurgito nazi-fascista.

Parece pois urgente que os cidadãos de cada Estado, a Comissão e o Parlamento europeus se mobilizem com estratégias fortes para responderem à violência dos ataques, abandonando políticas de paninhos quentes, lembrando-se que à la guerre, comme à la guerre, pois é de uma batalha que se trata, de uma batalha quase de sobrevivência para resistir, salvaguardar os valores democráticos, e tornar os cidadãos cada vez mais conscientes de que são eles próprios os guardiães desta Europa. Creio que o mesmo Bannon nos sugere o uso da receita que, com tanta eficácia, se propõe envenenar-nos. Ou seja, contrapor à sua formação de quadros de extrema-direita, centros de formação de militantes europeístas cônscios dos nossos valores, capazes de responder directa e pessoalmente no quotidiano, nas redes sociais, nos órgãos de comunicação e nos centros de decisão, às insídias que sobre todos se abatem. Defender-nos contra as fake news e as infiltrações, repondo os factos e a verdade. Isto não significa aderir cegamente à UE, mas defendê-la propondo novas estradas possíveis. Os que a atacam, visam-na como um todo, seja qual for o modelo ideal que dentro dela se procure radicar.

O objectivo não é uma contraposição directa ao rude manipulador Bannon, mas levantar uma barreira ao proselitismo dos seus acólitos. Barreira erguida para a defesa dos nossos valores democráticos, que são vulneráveis e não se defendem sozinhos.

Muitos, incluindo na imprensa, parecem julgar que Portugal está imune a estes ventos e quando surgem arremedos grosseiros tratam-nos como folclore político, ignorando a história, a qual nos ensina que, embora com atraso, os males da Europa acabam por nos atingir, pelo que também nós nos devemos preparar para contra-atacar.

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