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Justiça brasileira acusa jornalista Glenn Greenwald de acesso ilícito a telemóveis das autoridades

Greenwald é acusado de fazer parte de uma “organização criminosa” que invadiu os telemóveis de procuradores e funcionários públicos.

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Adriano Machado

O Ministério Público Federal (MPF) do Brasil acusou formalmente sete pessoas de acesso ilícito a telemóveis das autoridades. Entre os acusados está o repórter norte-americano Glenn Greenwald, responsável pela investigação jornalística às suspeitas de irregularidades em torno da operação judicial anti-corrupção Lava Jato (conhecida como Vaza Jato).

Em comunicado, o MPF informa que os acusados são suspeitos ainda de integrarem uma organização criminosa e de prática de branqueamento de capitais, bem como de intercepções telefónicas.  “O jornalista Glenn Greenwald também foi denunciado, embora não investigado nem indiciado. Para o MPF, ficou comprovado que ele auxiliou, incentivou e orientou o grupo durante o período das invasões”, diz o órgão. 

As conversas privadas divulgadas em Junho de 2019 puseram em causa o distanciamento e imparcialidade de Sergio Moro, que foi o juiz responsável pelo julgamento dos casos de corrupção, e o procurador Deltan Dallagnol, que chefiava as investigações da Operação Lava Jato.

As mensagens publicadas pelo site The Intercept Brasil sugeriam que o juiz interferiu no curso das investigações. Nas conversas privadas mantidas entre Moro e procuradores do Ministério Público, o primeiro discutia pormenores da investigação, dava sugestões, fazia reprimendas e até se punha ao lado da acusação contra o ex-Presidente Lula da Silva, que acabaria por condenar por corrupção e lavagem de dinheiro.

De acordo com o The New York Times, Greenwald é acusado de fazer parte de uma “organização criminosa” que invadiu os telemóveis de vários procuradores e outras autoridades públicas no ano passado. Numa nota publicada no Twitter, Greenwald diz que as acusações são “uma tentativa óbvia de atacar a imprensa livre em retaliação pelas revelações que foram divulgadas sobre Moro e o Governo Bolsonaro”.

“Não seremos intimidados por estas tentativas tiranas de silenciar jornalistas. Estou a trabalhar agora em novas histórias e relatórios e continuarei a fazer o meu trabalho jornalístico. Muitos brasileiros sacrificaram a sua liberdade e até a sua vida pela democracia brasileira e sinto a obrigação de continuar esse trabalho”, refere o jornalista na nota.

Num vídeo publicado na mesma rede social, Greenwald acusa vários membros do governo de Bolsonaro, e o próprio Presidente brasileiro, de “não acreditarem numa imprensa livre” ou na democracia, e de defenderem a ditadura militar. Sobre o juiz responsável pela acusação, o jornalista diz que este está a abusar do seu poder para “castigar os inimigos políticos do Governo”. Greenwald afirma ainda que a polícia brasileira investigou há vários meses as fontes do trabalho do The Intercept Brasil e concluiu que os jornalistas não cometeram nenhum tipo de crime e que a investigação é legítima.

Numa denúncia de 95 páginas, os procuradores dizem que o The Intercept Brasil fez mais do que apenas receber as mensagens hackeadas e supervisionar a publicação das informações. Citando mensagens interceptadas entre Greenwald e os hackers, os procuradores dizem que o jornalista desempenhou um “papel claro na facilitação da prática de um crime” e que o jornalista incentivou os restantes acusados a apagar arquivos a que o The Intercept Brasil já tinha tido acesso, com o objectivo de apagar qualquer tipo de pista.

Em resposta à acusação, a publicação jornalística afirma que os excertos de conversas utilizados pelo Ministério Público Federal são os mesmos que já tinham sido analisados pela Polícia Federal brasileira, que não imputou nenhuma conduta criminosa a Greenwald. Segundo a nota do The Intercept Brasil, a polícia brasileira até sublinhou “a conduta cuidadosa e distante” do jornalista em todo o processo. “No Intercept vemos nesta acção uma tentativa de criminalizar não somente o nosso trabalho, mas de todo o jornalismo brasileiro. Não existe democracia sem jornalismo crítico e livre. A sociedade brasileira não pode aceitar abusos de poder como este”, lê-se na nota da publicação

The Intercept é um site jornalístico fundado em 2014 e que tem entre os seus editores Glenn Greenwald, advogado e jornalista norte-americano radicado no Brasil que trabalhou com Edward Snowden para denunciar os programas secretos de vigilância global dos Estados Unidos efectuados pela Agência de Segurança (NSA).

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