A cultura moderna evolui mais depressa do que a biologia?

Investigação publicada na revista Nature Human Behaviour concluiu que a cultura moderna evolui mais devagar do que poderíamos imaginar, a um ritmo que é semelhante ao da evolução dos organismos vivos

China
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O carros foram um dos artefactos culturais analisados pelos investigadores CHINA STRINGER NETWORK/Reuters

Do lado dos artefactos, estudaram as mudanças na música pop, na literatura, artigos científicos e carros. Do outro lado, a análise da evolução biológica foi feita olhando para animais como tentilhões, mariposas, traças e caracóis. O resultado do exercício da improvável comparação entre estes dois mundos contradiz o senso comum: afinal, a cultura moderna não muda assim tão depressa quanto se possa pensar e o seu ritmo de evolução é semelhante ao dos organismos vivos.

“O ritmo da cultura moderna” é o título do artigo publicado na revista Nature Human Behaviour e o que os cientistas quiseram fazer foi medir esse ritmo, comparando-o com o das “coisas vivas”. Para esta complexa tarefa, a equipa de investigadores de diferentes áreas, desde a epidemiologia à engenharia e computação passando ainda pelas artes, aplicou “métricas desenvolvidas por biólogos evolutivos” (como as taxas evolutivas de Haldane) para calcular o ritmo da mudança nos dois grupos. Para isso, no grupo dos organismos vivos e artefactos, os cientistas seleccionaram “populações” – como, por exemplo, a música pop ou, do outro lado, os tentilhões nas Galápagos (estudados por Darwin). Além de terem concluído que os traços culturais e biológicos evoluem a um ritmo semelhante, a equipa percebeu também que a cultura não muda aleatoriamente, mas é moldada por forças selectivas que a estabilizam ou fazem com que evolua numa determinada direcção.

“Há muitas pessoas que defendem que a cultura evolui mais rapidamente do que os organismos. Mas nunca ninguém tentou realmente comparar as duas coisas. E, surpreendentemente, descobrimos que os artefactos culturais não evoluem muito mais depressa”, começa por referir ao PÚBLICO Armand Leroi, investigador do Imperial College de Londres, no Reino Unido, que coordenou o estudo. No artigo, os autores apresentam mais detalhes sobre as populações de artefactos culturais escolhidas. Assim, aqui se encontram “as músicas que entraram na tabela do Billboard Hot 100 dos EUA entre 1960 e 2010, romances americanos, irlandeses e ingleses publicados entre 1840 e 1890, os artigos publicados na British Medical Journal de 1960 a 2008 e modelos de carros vendidos nos EUA entre 1950 e 2010”. Ou seja, traduzindo as amostras em números: 17.094 canções, 2203 romances reunidos pelo Stanford Literary Lab em 2011, 170.577 artigos clínicos e 2210 modelos de carros.

Do lado dos organismos vivos, as populações constavam de “alguns dos mais famosos estudos de longo prazo da evolução animal na natureza”. O que quer dizer que usaram os resultados de um estudo de 50 anos sobre a mariposa-tigre-escarlate (Panaxia dominula), um estudo de 43 anos de uma outra espécie de traça (Biston betularia), um estudo de 40 anos sobre os tentilhões de Darwin nas ilhas Galápagos e, finalmente, um estudo de 20 anos sobre um caracol (Cepaea nemoralis). Ao todo, o conjunto de dados biológicos analisados é baseado nos fenótipos de 301.694 indivíduos.

Fazer um bebé ou uma música

Mas podemos usar os mesmos métodos e técnicas para comparar “populações” com dinâmicas tão diferentes? “Sim, desde que se aceite que a cultura evolui”, responde, Armand Leroi, que justifica: “Organismos e artefactos culturais são produzidos por um processo de ‘descendência com modificação’ (termo de Darwin)”. O cientista exemplifica: “Quando criamos um bebé ou uma nova música pop, não fazemos isso do nada: ambos são uma mistura de ‘pais’ – no caso de uma música pop, as músicas que nos influenciaram. E às vezes adicionamos algo genuinamente novo – uma mutação. Se se admitir que esses processos são realmente semelhantes, podemos aplicar os mesmos métodos a ambos.”

E assim chegamos à tal conclusão surpreendente sobre o semelhante ritmo das mudanças nestas populações tão diferentes. Armand Leroi tenta explicar os resultados. “Embora os artefactos em si estejam a mudar o tempo todo (sempre novas músicas, trabalhos científicos, modelos de carros etc.), os recursos geralmente permanecem praticamente os mesmos.” Voltamos, para simplificar, a um exemplo: “Pense na música pop – o rock’n’roll existe há 50 anos. Às vezes há mais, às vezes há menos, mas nunca parece desaparecer completamente. Isso significa que grande parte da cultura é realmente muito conservadora. Isso é verdade até para a literatura médica. Certamente, surgem novas tecnologias médicas – mas, enquanto as mulheres tiverem bebés, os médicos vão escrever artigos sobre a gravidez e as suas complicações.”

Sobre as forças que empurram (ou travam) a mudança, o investigador contrapõe ao conceito de selecção natural algo que chama selecção cultural em que, segundo explica, “a força selectiva é exercida por consumidores e produtores, os consumidores decidem o que gostam (músicas pop), o que afecta o que os produtores produzem e, portanto, a música muda”.

Armand Leroi refere que usou os dados que conseguiu obter na altura. Se fosse hoje, já podia incluir a pintura, por exemplo. O investigador admite ainda que a inclusão de dados sobre a evolução das propriedades dos computadores (que não possuíam) seria algo que poderia afectar os resultados do estudo, já que a evolução nesse campo foi muito mais rápida. No outro lado do estudo, onde se analisaram os organismos vivos, também não foi incluído nenhum estudo com humanos. “Não tínhamos dados. Teríamos de ter medições de seres humanos por dezenas de gerações (digamos, mil anos).”

Neste artigo publicado na Nature Human Behaviour, os autores voltam ao tema do rock’n’roll para uma conclusão ou provocação. “Embora tenhamos demonstrado que, entre 1960 e 2010, houve tópicos da música pop – que incluem guitarradas – que se mantiveram activos por alguma força, isso não significa que o rock’n’roll nunca possa morrer.” E, já agora, pode? Armand Leroi reconhece que não pode prever o futuro, mas arrisca constatar que o rock’n’roll “tem provado que é muito difícil de matar”.