Paulo Pedroso revela que saiu do Partido Socialista

Ex-ministro está desiludido com a forma como o partido tem tratado o sindicalismo e considera que essa posição se agravou com António Costa.

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Rui Gaudencio

O antigo ministro socialista Paulo Pedroso deixou de ser militante do partido. O ex-deputado revelou que está “desvinculado da militância partidária” no meio de um texto publicado no domingo na sua página de Facebook.

“Saí do PS há meses, antes das eleições, mas pelos vistos só hoje deram por isso numa leitura mais atenta a um comentário meu sobre sindicalismo”, disse depois à agência Lusa, depois de ter confirmado ao semanário Expresso a sua saída. Questionado sobre as razões que o levaram a desfiliar-se, respondeu apenas que “aconteceu, não tem nenhuma leitura”, prometendo falar sobre isso “um dia”.

“Eu hoje sou um socialista democrático, preocupado com o futuro do sindicalismo e desvinculado da militância partidária e partilho com Carlos Silva o desencanto com o modo como esse partido trata, não a UGT, mas o sindicalismo em geral”, tinha escrito no domingo, numa referência à entrevista do líder da UGT, ao Porto Canal, em que Carlos Silva revelou que não se vai candidatar a um novo mandato, em parte porque não sente apoio do PS.

O texto tem duras críticas à posição do partido, que Pedroso acusa de dar mais atenção às empresas do que aos trabalhadores: “A escolha das listas de deputados, que relegou os sindicalistas socialistas para fora do Parlamento foi o corolário lógico de um desvio pro-business que é visível na posição do governo face à legislação laboral e no desequilíbrio dado na atenção a empresas e a trabalhadores.”

O antigo deputado diz ainda que o “desinteresse do PS pelo sindicalismo que se agravou” desde que António Costa é secretário-geral e primeiro-ministro. “É motivo para quem não quer a desinstitucionalização das relações laborais pensar que via socialista é esta que a direcção do PS de António Costa adoptou, mas que ainda está muito a tempo de corrigir, no partido e no governo, embora já não na representatividade parlamentar. Resta saber se o PS acha que tem aqui um problema e não há sinal nenhum de que ache.”

Na publicação em que revela a saída, Paulo Pedroso partilha uma notícia sobre o secretário-geral da UGT, em que aquele assume que não é candidato a um novo mandato na central sindical, também com fortes críticas ao PS: Carlos Silva critica a atitude do primeiro-ministro para com a central sindical, afirmando que António Costa tem relegado a UGT para segundo plano.

Paulo Pedroso faz parte do Conselho de Administração do Banco Mundial, tendo sido nomeado pelo ministro das Finanças em 2018, mas está também de saída, já que se aproxima o final do mandato. Foi deputado em três legislaturas, secretário de Estado do Trabalho e Formação e ministro do Trabalho e da Solidariedade, em 2001 e 2002.

A promissora carreira política de Pedroso terminou precocemente quando foi acusado no âmbito do processo Casa Pia, tendo estado preso preventivamente durante alguns meses. O ex-deputado acabou por não ser levado a julgamento neste caso e em 2018 o Estado português foi condenado a indemnizá-lo, com o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos a defender que a detenção e prisão preventiva aconteceram sem que as suspeitas de abuso de menores que sobre ele recaíam fossem plausíveis.

Também através do Facebook, o deputado socialista Porfírio Silva refere que as “qualidades” de Paulo Pedroso “só foram traídas pela ignomínia da manipulação das ferramentas da justiça”, numa referência ao caso Casa Pia. O parlamentar, que reclama “uma particular responsabilidade” pela aproximação de Pedroso ao PS, lamenta o seu afastamento.

“Tenho pena porque, para o que importa para o país, o PS, nas suas fraquezas e dificuldades, é insubstituível: por ser um espaço aberto e plural como não há outro na esquerda portuguesa. E o Paulo soube ser dos melhores de nós. Mas também comete erros. Como se vê por esta saída”, escreve Porfírio Silva.