Crónica

O carrossel

Já não me lembrava que a sequência do restaurante era tão divertida. Monsieur Hulot, apanhado como sempre de forma involuntária, vê-se no interior do luxuoso espaço, que já antes da sua chegada dera mostras de não vir a durar muito. Não conto mais para não estragar a surpresa, mas sobretudo porque não consigo: Playtime é difícil de explicar a quem nunca o viu. Acontecem muitas coisas – este talvez seja o melhor resumo.

A Cinemateca passou o filme na semana passada, integrado na programação de comédia que arrancou este mês e se vai estender por 2020. Creio que foi a primeira vez que o vi em sala. Só não o garanto porque não tenho a certeza se isso não aconteceu há uns anos, durante uma retrospectiva de Jacques Tati no Nimas. Seja como for, revi-o como uma revelação.

É uma pena que nunca mais tenhamos oportunidade de ver Playtime como Tati queria, motivo que aliás o levou à falência, mas se há filme que tem mesmo de ser visto em sala é este. Sei-o por experiência própria: a primeira vez que o vi foi numa televisão das antigas, com ecrã pequeno. Prometeram-me um filme para rir às bandeiras despregadas e não lhe achei piada nenhuma, tirando um ou outro momento (recordo-me especificamente do avião no restaurante).

De outra vez, vi-o no computador. Tinha de escrever um ensaio para uma cadeira da faculdade e escolhi este filme, mas não tinha nem cinema nem televisão por perto. Foi paradoxal. Ali estava eu a escrever imensas e gloriosas palavras sobre a beleza de Playtime e sobre como essa beleza só era verdadeiramente apreensível num ecrã grande, ao mesmo tempo que o via num portátil já velho e com um ecrã sem boa definição. Acho que o professor não deu por isso.

Com esse trabalho apercebi-me de muitos pormenores que tinham escapado no primeiro visionamento e agora voltei a surpreender-me com novos detalhes. Jacques Tati desenha Playtime como uma obra de arte total, em que imagens e sons se conjugam de forma quase perfeita para criar efeitos cómicos permanentes. Não há espaços vazios na tela. Todos são preenchidos por personagens, objectos, acontecimentos. O olhar tem por onde escolher. Imagino o que seria vê-lo em 70mm, como o realizador idealizou. O que terá ficado fora de campo?

A sala da Cinemateca estava bem composta e desconfio que grande parte dos espectadores já tinha visto o filme pelo menos uma vez. Isso não se reflectiu nas reacções. Houve cenas que puseram toda a gente a rir com gosto, mesmo quando antecipadamente se sabia como acabavam.

Meio século depois, Playtime fala-nos do quê? Aquele mundo certinho, limpinho, aprumadinho, rectilíneo e hierarquizado, que era então uma novidade risível, é a realidade em que nos movemos hoje e desde há décadas. Porque nos rimos, então? É sintomático que as gargalhadas se soltem mais na sequência do restaurante, pois são cenas em que todos nos imaginamos, mesmo nos dias que correm: um desarranjo do protocolo e do rigor com que sonhamos diária e secretamente.

A ridicularização do mundo moderno e esterilizado em Playtime (não chega a ser uma crítica), que Tati ensaiara em Há Festa Na Aldeia e O Meu Tio, tem o seu ponto máximo na cena final. Vejo-a agora como se ele nos pusesse em frente a um espelho, a olhar para os círculos que infinitamente percorremos sem que disso tenhamos noção. Visto ao longe, do conforto da nossa cadeira estofada, tem muita graça.

Quando saímos da sala, temos os sentidos apuradíssimos. Os passos de toda a gente tornam-se sons vívidos, os movimentos são escrutinados. Os pequenos hábitos levados à grande tela confrontam-nos connosco e exigem-nos uma resposta cá fora: ainda é para rir? Tati teve o cuidado de não ser panfletário, de não nos impor agendas ou ideologias. Mostra-nos a hipérbole e deixa-nos decidir o que fazer com ela.

Por mim, ponho-me ao lado dele. Rir disto tudo ainda é realmente o melhor. Playtime somos nós, é a nossa vida, mas aqui não há revolução. Outro cinema que a faça.