Torne-se perito Análise

Está a América a abandonar o Médio Oriente?

O medo do vazio criado pela retirada da “potência imperial” é o novo e maior factor de perturbação e insegurança no Médio Oriente.

Depois da invasão do Iraque ter precipitado a desintegração da ordem política do Médio Oriente, cresce um novo factor de perturbação e insegurança: a perspectiva de um Médio Oriente sem América, o medo do vazio criado pela retirada da “potência imperial”. É um curioso paradoxo. A estratégia da Casa Branca é tudo menos clara. Oscila entre fraqueza e beligerância. Isto produz um “nevoeiro” desestabilizador porque ninguém sabe com o que pode contar. Todos os actores parecem agir como sonâmbulos.

Está aberto um novo capítulo americano sobre o papel dos Estados Unidos no Médio Oriente. Donald Trump nunca escondeu a vontade de se afastar das “guerras intermináveis” da região. Pode fazê-lo? E a que preço? Os aliados dos EUA, a começar pelas monarquias do Golfo, interrogam-se sobre os efeitos da “retirada”. Até que ponto podem contar com as garantias de segurança dos Estados Unidos? Há intensas movimentações diplomáticas. A Rússia, a China, a Turquia, cada uma à sua dimensão, preparam-se para ocupar um eventual “vazio” deixado pelos americanos.

No dia 8 de Janeiro, Trump reafirmou­ - uma vez mais - a intenção de se ver livre do “fardo” do Médio Oriente. “Nos últimos três anos, sob a minha liderança, a nossa economia tornou-se mais forte do que nunca e a América conquistou a independência energética. Esta realização histórica mudou as nossas prioridades estratégicas. (…) E abrem-se novas opções no Médio Oriente. Somos independentes e não precisamos do petróleo do Médio Oriente.”

Doutrina Carter

Perguntam os analistas americanos: está Trump a repudiar a Doutrina Carter, que durante 40 anos presidiu à estratégia de segurança nacional dos EUA? A doutrina foi formulada em Janeiro de 1980 pelo Presidente Jimmy Carter para salvaguardar o petróleo do Golfo de ameaças externas. A URSS tinha acabado de invadir o Afeganistão (Dezembro 1979) e Washington temia que aproveitasse o caos lançado pela Revolução Islâmica iraniana para dominar a região, vital pelo seu petróleo. Carter previa o uso da força considerando que, para a segurança americana, uma “agressão” no Médio Oriente seria tão grave como no seu próprio território.

 Em 1987, no auge da guerra Iraque-Irão, Ronald Reagan acrescentou à doutrina um “Corolário”, pelo qual os EUA garantiam a defesa das rotas de petróleo, perante ameaças vindas de fora ou do interior da região (ler, por exemplo, Hal Brands, Steven Cook e Kenneth Pollack, RIP The Carter Doctrine, Foreign Policy, 13 Dezembro 2019). Para Reagan, a energia do Golfo era vital não só para os EUA mas também para os seus aliados europeus e asiáticos.

A invasão do Iraque, em 2003, começa a mudar o quadro. Apesar do patente desastre, George W. Bush recusou a retirada do Iraque para evitar lançar “o caos na região”. Barack Obama entendeu que a presença no Iraque fragilizava o poderio americano e, por isso, anunciou a retirada militar em 2011. E formulou a nova prioridade estratégica: Ásia e Pacífico. Retirou as tropas do Iraque para a seguir ter de organizar uma coligação internacional para combater o Daesh no Iraque e na Síria. Foi neste contexto que promoveu a assinatura do acordo nuclear de 2015 com o Irão. Tratava-se de estabelecer um novo quadro geopolítico que minorasse os riscos de uma mudança do papel americano.

De Obama a Trump

O acordo de 2015 visava uma “viragem tectónica” na política americana para o Médio Oriente. Perante a erosão dos Estados árabes, os EUA apostaram em que uma cooperação estratégica com o Irão contribuiria para diluir a fractura entre sunitas e xiitas, que dilacerava a região. “Há um laço muito forte entre a resolução da questão nuclear e a capacidade de a América desempenhar um papel num Médio Oriente em rápida mutação”, lia-se no texto da iniciativa “Iran Project”, de veteranos da política externa americana.

Para isso, era vital anular o programa nuclear de Teerão e evitar uma corrida atómica na região. Foi a função do acordo. Apostava em que uma nova ordem não deveria assentar apenas nos Estados árabes, como o Egipto e a Arábia Saudita, mas também nas potências não árabes, como a Turquia, o Irão e Israel. Tal estratégia visava prevenir a emergência de uma potência hegemónica. Se o Irão é uma potência regional, jamais poderá exercer a hegemonia no Médio Oriente, porque é etnicamente persa e rodeada por árabes, israelitas e turcos. A Arábia Saudita, Israel ou a Turquia também não reuniam condições dominar a região. A derradeira potência hegemónica foi o Império Otomano.

A segunda “viragem tectónica” será a de Trump. Depois de denunciar o acordo de 2015 com o Irão, retirou as tropas americanas da Síria e abandonou os curdos. Aposta na “revolução do petróleo de xisto”. Entre 2008 e 2018, a produção de petróleo cresceu 140% e os EUA passaram a ser exportadores líquidos. Isto permite a alguns estrategas dizer que, no novo quadro da competição mundial, os EUA deveriam abandonar os “teatros secundários” e concentrar-se no desafio da China. Trump avisou os aliados árabes de que deveriam assumir o “fardo da segurança”. Vários Estados árabes começaram a explorar a possibilidade de uma maior cooperação com Moscovo e Pequim.

Nem só o petróleo conta

“Bem-vindos ao Médio Oriente pós-americano. Para ser justo, a frase é algo exagerada, pois os EUA não se retiraram da região”, escreve Richard Haas, presidente do Council on Foreign Relations. “Mas a verdade fundamental é que os EUA reduziram tanto a sua presença como o seu papel numa região que dominaram durante quase meio século.”

Trump marca uma ruptura. As prioridades estratégicas mudam certamente com o tempo e com as circunstâncias. E algo está a mudar. Mas o Presidente pensa mais em termos de “negócio” do que em ordem internacional. Qualquer retirada nunca poderá ser total. Vê-lo-emos muito depressa. O que pesa não é apenas o petróleo. É o equilíbrio de poder entre as potências. Se uma retirada americana se faz à custa do reforço estratégico da China, e também da Rússia, os EUA pensarão duas vezes. E já estão a pensar. Teremos muitas ocasiões reflectir sobre isto.