O camarada Jerónimo esteve no programa da Cristina a contar histórias da “corda”

“O meu partido continuará para além da minha vida”, diz o secretário-geral do PCP, que acredita que a sua sucessão “não será um problema”. Jerónimo de Sousa, o operário, foi classificado por Cristina Ferreira como uma “instituição”.

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Jerónimo de Sousa acedeu aos pedidos insistentes da produção do Programa da Cristina e, nesta quinta-feira, sentou-se durante meia hora no sofá da estrela das manhãs da SIC instagram.com/dailycristina

Não cozinhou nem cantou; não levou a família mas falou dela; riu-se e emocionou-se. Jerónimo de Sousa acedeu finalmente aos pedidos insistentes da produção do Programa da Cristina e, nesta quinta-feira, sentou-se durante meia hora no sofá da estrela das manhãs da SIC para contar histórias de uma longa vida política, mas sobretudo para falar sobre o operário que nasceu, cresceu e ainda vive na “corda” industrial de Lisboa e que continua a dominar o deputado.

No final, fugindo às perguntas sobre o seu futuro – e sobre quem o poderá substituir na liderança do PCP -, o ainda secretário-geral do partido admitiu que “nada é eterno”, que há-de mudar de “responsabilidades”, mas garantiu nunca alterar o seu “rumo” de comunista e de ligação quase umbilical ao partido. “Não conte com isso, Cristina…”, respondeu, com um sorriso quando ela perguntou se o fim partidário está para breve.

“Deveríamos ter sempre a consciência de sermos nós a decidir quando sair enquanto tivermos a capacidade para reflectir isso. (...) A vida partidária é o que é, mas há uma coisa que eu sei: o meu partido continuará para além da minha vida.”

A sua sucessão, disse, é uma “questão que ainda não está colocada” – apesar de ser quase certo que dará lugar a outro secretário-geral na reunião magna de Dezembro. E garantiu: “Tenho a convicção que a questão do secretário-geral do PCP não vai ser um problema no congresso. E mais não digo…”

Esta foi a parte da conversa mais formal. Na meia hora anterior, Jerónimo conversou com Cristina Ferreira sobre a sua curta meninice, a ida para o Parlamento, o que o distingue dos outros políticos e até a empatia que provoca nas crianças e que, garante, não sabe explicar. Depois de querer saber o que encerra a palavra camarada – que Jerónimo lhe explicou afavelmente com os conceitos da “unidade”, da coesão e do “sentido de luta” mas também salientando que o significado “vai para além do conteúdo partidário” –, a apresentadora levou-o para a meninice.

Jerónimo de Sousa contou que viver na corda industrial era ter o destino traçado de “ir para a fábrica” depois de acabar a escola primária. “Não valia a pena sonhar… Ali na corda ou seria metalúrgico, vidreiro, cerâmico ou operário químico. Mas sempre operário.” E foi isso que ele e todos os cinco irmãos foram.

Os pais não sabiam ler nem escrever, eram seis irmãos (apenas uma rapariga) e a comida era escassa. Jerónimo recorda que a mãe servia primeiro o pai, depois os filhos por ordem de idade – ele era o último deles, “sempre com uma vontade enorme de comer mais”. “A última era ela. Se não houvesse mais, era ela a prejudicada, mas garantia que os filhos comiam todos.” Recorda que a mãe sempre o tratou por “menino”, mesmo quando, muitos anos mais tarde dizia “está aqui o meu menino, que é deputado. Fui menino até aos 40 e tal anos.”

A conversa foi entrecortada por fotografias do bebé que nasceu com 5,4 quilos, das crianças alinhadas na frente dos pais, do estudante, do adolescente, do operário, do casamento, do deputado, do neto. Falou de como conseguiu contornar a inevitabilidade de só fazer a quarta classe – um professor da primária que queria que continuasse os estudos. Que acabou por fazer à noite, em Vila Franca, indo a pé. Onde terá feito aquele que terá sido o seu primeiro discurso político. Escrito, na verdade.

Foi numa composição mandada fazer por um professor que vinha “das elites de Coimbra”, que não dava nota mais alta que um 11, e lhes pediu uma “redacção sobre o Homem e a necessidade do estudo”. Jerónimo fez um texto descrevendo o seu dia-a-dia. “Aquilo estava bonito”, afirma, orgulhoso. E rematava dizendo que quando chegasse a casa à uma da manhã ia lembrar-se do professor que “quando muito dará onze valores a esta redacção”. Jerónimo diz que sentiu a “discriminação” nos olhos dos outros alunos – “Mas foi este gajo que foi capaz de escrever isto?”. O professor disse que o texto merecia os 11 valores e os restantes nove “vão para os mentecaptos que aqui estão”.

Contou da sua atrapalhação com a ideia de ser deputado e como quando entrou no palácio foi tratado por doutor e engenheiro apesar de sempre se ter dito operário, ou das perguntas sobre quem lhe escrevia os discursos porque um metalúrgico “não seria capaz”. Jerónimo vinca nunca se ter sentido “menor” por lidar com as elites. Fala das normas da greve que ajudou a fixar na Constituição, da contribuição para a igualdade no salário entre mulheres e homens na metalurgia, de “respeito e admiração” pelo patrão que não olhava ao cadastro dos presos políticos que empregava na fábrica e que pouco tempo antes de falecer ainda lhe disse “estás a trabalhar bem, continua”.

O líder do PCP disse sentir-se político, mas com a vantagem de ter mantido sempre uma profunda ligação à vida real. “Nunca ninguém olhou para mim com sobranceria nem com admiração como alguém superior; como alguém que era deles.” E admitiu que sempre contrariou a ideia dos que julgavam que “o operário metalúrgico é burro”. Admitiu que seria uma enorme desilusão se as filhas fossem do Bloco de Esquerda – e mostrou-se admirado quando Cristina lhe diz que, no mesmo sofá, Catarina Martins o identificou como o político que mais admira.

Aquele que é o único deputado da Constituinte ainda no Parlamento, o único operário, e o maior contribuinte para a Segurança Social – já vai em 57 anos –, falou da “satisfação interior de ver o respeito e reconhecimento” que lhe demonstram pessoas de ideologias completamente diferentes da sua. E até as crianças – e aproveitou para contar o episódio do filho de António José Seguro que era seu admirador aos três anos e que brincou com ele mas recusou cumprimentar Francisco Louçã por ser “muito alto”.

Aos 72 anos, Jerónimo já viu três irmãos falecerem quando chegaram aos 80 anos. E pensa na morte, tem medo de morrer? “Não gostava de morrer, mas não me inquieta a morte. O ser humano tem de lidar com essa precariedade da vida e por isso devemos dar tudo enquanto cá estamos.”

A conversa, sentados, tinha começado com Cristina Ferreira a perguntar quem ali estava – se o operário metalúrgico, o deputado ou o secretário-geral do PCP. E acabou com a apresentadora a dizer-lhe que afinal era mesmo o operário que ali continuava, depois de Jerónimo ter contado que ganha apenas o ordenado correspondente ao de um metalúrgico, e dito que, apesar da “insatisfação natural de que se podia sempre fazer mais”, deu “o melhor” de si como político e que ainda sente “alegria” quando consegue aprovar medidas no Parlamento. “Há pessoas que são uma instituição. Tem de ter essa noção de que é uma instituição”, rematou a apresentadora.

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