Norte de Portugal e Galiza unidos para certificar caminhos de Santiago

Projecto Facendo Caminho junta duas regiões para promover uma “grande rota europeia” em ano que antecede o Jacobeu. Software de produção de cartografia, guia de boas práticas e envolvimento das comunidades fazem parte da estratégia

Foto
2021 será ano Jacobeu e são esperadas dez milhões de pessoas Nelson Garrido

O primeiro parágrafo havia sido escrito em Abril, com a publicação de um decreto-lei que dava novo horizonte aos caminhos de Santiago, regulando a sua promoção através da certificação dos seus itinerários. A ideia, até agora no papel, será levada este ano para o terreno, pelas mãos das entidades turísticas do Norte de Portugal e da Galiza, em parceria com a Direcção Regional de Cultura do Norte (DRCN) e o Agrupamento Europeu de Cooperação Territorial Galiza/Norte. Com um investimento a rondar os 657 mil euros, o projecto Facendo Caminho mostra, logo no nome, a proximidade entre as duas línguas e quer promover uma “grande rota europeia” e certificar, finalmente, os caminhos de Santiago.

O “atraso” do país na criação de uma comissão de certificação, sobretudo se em comparação com França, é inquestionável, admitiu Luís Pedro Martins, presidente da Entidade de Turismo do Porto e Norte de Portugal. Mas a concretização, em ano anterior ao Jacobeu, acaba por chegar “em boa hora”. Parte das respostas estão no terreno – mas dispersas e desarticuladas. “A ideia é finalmente juntar essas vontades”, simplificou na abertura de uma conferência de imprensa no Paço Episcopal do Porto, local cartão-postal de onde muitos peregrinos iniciam o seu caminho rumo a Santiago.

PÚBLICO -
Foto

As duas regiões vão trabalhar juntas para fazer da rota dos caminhos de Santiago transfronteiriços e transnacionais uma “grande rota europeia com depósito de conhecimento da UNESCO”. “Consolidar” os itinerários, impulsionar o “aproveitamento sustentável de um recurso patrimonial e natural transfronteiriço” e “proteger e valorizar o património cultural e natural” e ajudar no crescimento de “actividades turísticas e económicas que contribuam para o desenvolvimento económico” deste território são alguns dos itens da lista desenhada pelas entidades do Norte do país e Galiza.

Com a ajuda de uma comissão de acompanhamento a atar pontas entre o muito trabalho feito e a fazer, está prevista a criação de um software de produção de cartografia, um guia de boas práticas e gestão dos caminhos de Santiago, a participação em feiras de turismo e a elaboração de um estudo e documentação do património cultural transfronteiriço associado ao fenómeno Jacobeu​. E, muito importante, sublinhou Luís Pedro Martins, a chamada das comunidades para o projecto. É urgente envolver “aqueles que vivem em locais por onde passa o caminho” e fazê-los sentir este itinerário como deles. “O sucesso destes caminhos será também o sucesso dessas comunidades”, afirmou.

Nava Castro, directora-geral do turismo da Galiza apelou ao sentimento. Os “vínculos” entre Norte de Portugal e Galiza são históricos, recordou, e Santiago não fica de fora nessa equação. O projecto europeu, financiado pelo programa INTERREG VA Espanha-Portugal (POCTEP), quer “fortalecer esses vínculos”. E muito há por onde ir.

PÚBLICO -
PÚBLICO -
PÚBLICO -
PÚBLICO -
Fotogaleria

Por pequenas povoações da Galiza, onde vivem menos de 1000 pessoas, podem passar número igual ou superior de peregrinos. E isso é uma oportunidade. “Estas rotas podem converter-se em negócios, empresas e iniciativas turísticas que ajudem a desenvolver o território”, sublinhou Nava Castro.

Neste momento, divulgou, o Caminho Português da Costa e o Caminho Português do Interior são já o segundo e terceiro mais usados, depois do francês, para chegar até ao túmulo de Santiago Maior.

Em ano Jacobeu, são esperados dez milhões de visitantes em Santiago de Compostela, geografia onde já chegam “mais de 180 nacionalidades”.

António Ponte, director-geral da DRCN, assumiu o palanque para pôr a ênfase no património. “Não existem caminhos sem património cultural e sem pessoas”, afirmou. “Não são rotas turísticas, são itinerários culturais. Apesar de serem resultado de confrontos históricos, os itinerários culturais apresentam hoje uma pluralidade de dimensões partilhadas para lá da sua função primitiva, tendo uma posição privilegiada para constituir uma cultura de paz inspirando o espírito de tolerância”, acrescentou.

Até agora, as acções de entidades públicas e privas pecavam por “dispersão”, considerou. O projecto com a duração de 12 meses agora lançado, que terá também um site onde os peregrinos poderão aceder a informação essencial sobre todos os itinerários certificados, quer fazer caminho para mudar isso. E Nava Castro não podia estar mais optimista: “Haverá um antes e um depois” deste ano.