Mag Rodrigues
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Mag Rodrigues
Conto

O branquear da púbis

No cômputo geral, o saldo do envelhecimento parecia-lhe enfezado — tinha perdido algum do brilho e da graça da juventude, embora mantivesse alguma beleza gasta. Ganhou conhecimentos, mas perdeu paciência. E agora, aquilo dos pêlos brancos no sexo.

Olhar para o espelho é um gesto quotidiano, diário e, maioritariamente, maquinal. Na realidade, o que vemos quando nos vemos ao espelho? Se ficarmos a encarar a nossa imagem durante algum tempo — exceptuando talvez casos de narcisismo extremo —, a experiência torna-se bizarra. Quem é aquela pessoa? O reflexo devolve-nos alguém a quem não temos acesso por fora. Vivemos dentro desse invólucro chamado corpo, e muitas das vezes não temos noção da imagem que, com o passar do tempo, se vai alterando — o rosto, e o corpo, e a identidade.

Quando lhe apareceram os primeiros pêlos brancos na púbis, sentiu-se prejudicada por outrem que não sabia ainda nomear. Estava nua em frente ao espelho. Manteve-se imóvel por longos momentos. Depois incriminou a natureza e o tempo, e o espelho, por lhe devolverem uma imagem indesejada. Estava diante da evidência perturbadora do envelhecimento.

Foi buscar uma gilette ao armário do WC, entrou no banho e desbastou toda a zona púbica. Confrontou-se novamente com a sua imagem. A mulher imberbe no espelho pareceu-lhe grotesca. Vestiu-se rapidamente — cuecas, soutien, meias, calças, blusa. Voltou ao espelho. Olhou o seu rosto emoldurado pela cabeleira farta, há muito tingida de loiro. Pensou na inevitabilidade da passagem do tempo. Tentou apaziguar-se com a sua imagem, mas era-lhe difícil.

No cômputo geral, o saldo do envelhecimento parecia-lhe enfezado — tinha perdido algum do brilho e da graça da juventude, embora mantivesse alguma beleza gasta. Ganhou conhecimentos, mas perdeu paciência. E agora, aquilo dos pêlos brancos no sexo. No seu entender, tratava-se de um sinal óbvio do início do fim. Talvez fosse demasiado fatalista e precisasse apenas de algum tempo para se habituar a algo aparentemente ridículo e inofensivo, como o branquear da púbis. Num sentido mais profundo, não o era — nem inofensivo nem ridículo. Queria esquecer-se de si própria e do espelho, e de tudo aquilo que a entristecia, não só por estar a envelhecer, mas, sobretudo, por não ter ninguém com quem rir perante os acontecimentos desta natureza.

O que vemos quando nos vemos ao espelho e não trazemos ninguém dentro? — pensou. Por enquanto, não iria cogitar mais sobre o assunto. Trabalharia afincadamente, como sempre o fizera, até se esquecer que existem espelhos onde os corpos reflectem, sobretudo, medo.

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