Sindicato de call centers diz que incorporação de trabalhadores na Altice é “manobra publicitária”

“Vai continuar a ser o salário mínimo para a maioria dos trabalhadores, só muda o logótipo no recibo do vencimento”, segundo o dirigente do sindicato.

Fica evidente para Manuel Afonso que a Altice "não integrar os trabalhadores nos quadros"
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Fica evidente para Manuel Afonso que a Altice "não integrar os trabalhadores nos quadros" plm pedro lima/nfactos

O Sindicato de Trabalhadores de Call Center (STCC) interpreta como “uma manobra publicitária” e “uma forma perversa de ganhar dinheiro” a anunciada incorporação na Intelcia, maioritariamente detida pela Altice Portugal, de 2 mil trabalhadores da ManpowerGroup Solutions.

“Parece-nos simultaneamente uma manobra publicitária e uma forma perversa de a própria Altice ganhar dinheiro à custa destes trabalhadores”, afirmou o dirigente do STCC Manuel Afonso, em declarações à agência Lusa. Segundo salientou, os trabalhadores em causa “não vão ser integrados nos quadros da Altice”, tendo esta criado “a sua própria empresa de outsourcing para os ter subcontratados já não a uma empresa de outsourcing externa, mas a uma empresa de outsourcing da própria empresa”.

“Partindo do princípio que tudo isto será feito através de uma transmissão de posto de trabalho e que os trabalhadores não vão perder a antiguidade, para eles a diferença é pouca ou nenhuma”, considerou Manuel Afonso, sustentando que, “se os trabalhadores fossem, de facto, integrados pela Altice passariam a fazer parte da contratação colectiva de trabalho da Altice e passariam a ter acesso aos serviços de saúde da Altice, e nada disso vai acontecer aqui”.

A Altice Portugal anunciou hoje o início de uma nova operação em Portugal, através da Intelcia (que opera na área de outsourcing ou subcontratação de serviços), a qual vai incorporar cerca de 2 mil pessoas da ManpowerGroup Solutions num processo que deverá estar concluído até Março. Assim, a Intelcia Portugal, que é detida em 65% pela Altice Portugal, passa a ser o prestador preferencial dos serviços de atendimento ao cliente da dona da Meo, pelo que as áreas de contacto com o cliente e comercial, que eram asseguradas até agora pela ManpowerGroup Solutions, vão passar a ser totalmente assumidas por aquela entidade.

Na opinião do dirigente sindical, o cenário “até é mais perverso” do que o actual, já que “fica evidente que, embora sempre tenham dito que contratam outsourcing porque não é o seu ramo de negócio gerir call centers, afinal querem e podem gerir os call centers, mas pura e simplesmente não querem integrar os trabalhadores nos quadros”. “Agora já são os próprios a gerir o call center, só que criam um intermediário extra, que deixa os trabalhadores fora da contratação colectiva, fora da progressão na carreira e fora dos serviços de saúde internos da antiga Portugal Telecom, e mantém-nos no Código do Trabalho, no mínimo dos mínimos que a lei permite”, sustenta o STCC.

Segundo Manuel Afonso, “é a Altice que se está a transformar, ela própria, numa empresa de outsourcing, mas em vez de integrar os trabalhadores nos quadros, cria mais uma empresa intermediária, uma subempreiteira”. Para o dirigente sindical, esta alteração em nada significa uma redução da precariedade laboral dos trabalhadores, já que tal implicaria “integrar directamente na contratação colectiva da própria Altice ou fazer um contrato colectivo de trabalho transversal a todos os call centers, que dê direitos a estes trabalhadores para lá do mínimo a que a lei obriga”.

Neste caso, diz, a única alteração é que “a empresa deixa de pagar à ManPower por esse serviço e passa a pagar a si própria, porque passa a subcontratar a uma empresa que é do próprio grupo”. Convicto de que o anúncio hoje feito pela Altice Portugal “é uma manobra publicitária”, Manuel Afonso nota que “as palavras [escolhidas pela empresa] estão muito bem trabalhadas”, dizendo-se que “os trabalhadores vão ser integrados nas folhas de pagamento, e não nos quadros da Altice”.

“Ora o que interessa ao trabalhador não é o nome da empresa que vem na folha de pagamento. O dinheiro vai continuar a ser o salário mínimo nacional para a imensa maioria desses trabalhadores, só muda o logótipo no recibo do vencimento, o que talvez se torne até mais frustrante, porque fica evidente que a empresa pode, mas não quer integrar os trabalhadores”, rematou.

Segundo foi hoje anunciado pela Altice Portugal, os cerca de 2 mil trabalhadores que estavam na ManpowerGroup a prestar um conjunto de serviços para a empresa vão ser incorporados na Intelcia e passam a “integrar a folha salarial” do grupo. Com esta medida, “a Altice volta a investir em Portugal e a criar emprego”, afirma o presidente executivo da Altice Portugal, Alexandre Fonseca, salientando que “este movimento vai reforçar o compromisso do grupo” no mercado português.

Alexandre Fonseca garantiu ainda que vão ser “asseguradas todas as condições que os trabalhadores tinham na sua empresa de origem”, além de que vão beneficiar de um seguro de saúde com acesso à rede da Altice Portugal.

A Intelcia Portugal conta com uma centena de trabalhadores, aos quais se vão juntar os cerca de 2.000 trabalhadores da ManpowerGroup. A Altice Portugal detém 65% da empresa, sendo que os restantes 35% são detidos por dois acionistas marroquinos. Em termos globais, a Intelcia conta com mais de 14 mil colaboradores e presença em nove países, apostando na continuação da sua expansão.