Análise

Uma jornada atribulada

Uma jornada atribulada dentro das quatro linhas no que aos casos de jogo diz respeito, e uma intervenção do videoárbitro por vezes intermitente, em função de um protocolo muito limitador (intervir só em erros claros e óbvios) que deixa nos adeptos, de uma maneira geral, a sensação de alguma inutilidade perante situações em que todos gostaríamos de ver o árbitro de campo ir ao monitor para avaliar de forma definitiva o lance.

No Moreirense-FC Porto tivemos, aos minutos 29 e 90+5, dois cartões amarelos a Corona, ambos bem mostrados. Com o primeiro cartão, o jogador mexicano fechava um ciclo de cinco cartões, o que o colocava de fora do jogo com o Sp. Braga; ao ver de forma forçada o segundo, após instruções vindas do banco para o fazer, e ao ser expulso por acumulação de advertências, passou a estar disponível para o jogo com os minhotos, cumprindo a suspensão no encontro com o Varzim, para a Taça de Portugal.

Dizemos todos que houve um aproveitamento inteligente dos regulamentos, mas o artigo 12.º do Regulamento de Disciplina da FPF estipula também o seguinte: “Todas as pessoas físicas e colectivas sujeitas ao presente regulamento devem agir em conformidade com os princípios da ética, da defesa do espírito desportivo, da verdade desportiva, da lealdade e da probidade”. E Artigo 168,º sobre Prática de faltas intencionais e outros comportamentos irregulares, dispõe: “O jogador que, por qualquer forma, provoque propositadamente a exibição de cartão amarelo ou vermelho por parte do árbitro, é sancionado com suspensão de 1 a 3 jogos”.

Resumindo e concluindo, fico à espera de que, algum dia, em Portugal alguém faça cumprir o regulamento para casos como este, como já aconteceu na UEFA por mais de uma vez - Sergio Ramos, do Real Madrid, quando José Mourinho era seu treinador, sofreu na pele as consequências de ter forçado um cartão amarelo em circunstâncias idênticas.

Deste mesmo jogo, destaque para o golo de Luis Díaz, em que, na acção anterior, o seu colega Soares faz falta atacante ao agarrar e empurrar João Aurélio. Ao minuto 74, Otávio vê cartão amarelo, mas a pisadela de sola no calcanhar de João Aurélio era passível de cartão vermelho directo, enquadrado no facto de tal entrada pôr em risco a segurança e a integridade física do adversário. 

No Benfica-Desportivo da Aves, ficou por assinalar um penálti a favor dos “encarnados”, pois Bruno Morais, com o braço e de forma deliberada, atinge o pescoço de Seferovic, impedindo-o de disputar o lance. Ao minuto 52, foi bem revertido o cartão vermelho a André Almeida, pois o lateral não acertou com a sola em Ricardo Mangas, apenas com o peito do pé direito atingiu e rasteirou o seu adversário, tratando-se de uma entrada negligente. Assertivo foi o penálti a favor dos “encarnados “por derrube claro de Cláudio Falcão sobre Vinícius.

Para mim, o caso de jogo, que não foi correctamente avaliado, foi o golo da vitória do Benfica, ao minuto 89, que deveria ter sido anulado, já que no início da acção da jogada há uma falta clara e evidente por uma rasteira de Ferro sobre Mohammadi. Neste lance, lamento que na transmissão em directo nem uma repetição tenha sido mostrada. Contudo, relembro que o VAR não depende da realização e tem todas as imagens que quiser, pois o sinal entra directamente e em menos de um segundo na Cidade do Futebol.

Do jogo entre o Vitória de Setúbal e o Sporting, importa dizer o seguinte: moral e eticamente, a partida não deveria ter-se realizado; regulamentarmente tudo o que está escrito defende a posição do Sporting em não ter sido adiado o jogo. Só não entendo o porquê de, para uma situação especial e extraordinária como esta, a direcção dos sadinos não ter permitido que uma junta médica da Liga, independente, pudesse ter avaliado e confirmado toda a situação clínica para que uma medida extraordinária de alteração e adiamento pudesse ter sido tomada.

Tal como para todos os cidadãos sérios e honestos, não basta telefonar para o emprego a dizer que se vai faltar por doença (é preciso justificá-lo para oficializar a situação, com uma baixa ou dispensa médica, através de uma avaliação presencial), fica no ar para muitas pessoas e para quem gosta de teorias da conspiração a ideia de que toda esta história não está nem foi bem contada.

Mais do que o espectáculo degradante no que aos dirigentes diz respeito e do que os insultos e comportamentos indignos de alguns adeptos, que tivemos oportunidade de ver pelas imagens televisivas, é de realçar o que de melhor o futebol tem: os jogadores, que mostraram sempre uma grande atitude, de respeito mútuo e fair-play.