Crítica

Juventude e maturidade pianística na Gulbenkian

Com o jovem Jan Lisiecki e a veterana Mitsuko Uchida, o piano tem tido dias felizes em Lisboa.

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Jan Lisiecki assinou um contrato com a Deutsche Grammophon aos 15 anos, mas sempre recusou o rótulo de menino-prodígio HOLGER HAGE

A profusa oferta pianística da temporada Gulbenkian contou recentemente com mais dois intérpretes de relevo de diferentes gerações: o jovem Jan Lisiecki, num recital a solo com um programa inteligentemente arquitectado, e a veterana Mitsuko Uchida, que mostrou mais uma vez a sua estreita afinidade com a música de Mozart, em conjunto com a Mahler Chamber Orchestra, com a qual mantém desde 2016 um projecto a cinco anos como Artista Associada.

Apesar de ter começado a dar concertos públicos ainda criança e de ter assinado um contrato com a Deutsche Grammophon aos 15 anos, Jan Lisiecki  (actualmente com 24 anos) sempre recusou o rótulo de “menino-prodígio”, ou seja, o estereótipo associado a uma facilidade técnica precoce que se exibe como fenómeno fora do comum. Com efeito, este pianista canadiano, filho de pais polacos, tem sido justamente elogiado pela sua maturidade artística, a qual se reflecte também na coerência do programa que apresentou na Gulbenkian. A sua paixão por Chopin (representada pelos Nocturnos op. 27, nºs 1 e 2, e op. 62, nºs 1 e 2, e pela Balada nº 4) surge entrelaçada com diferentes facetas da produção de Mendelssohn (Canções sem Palavras op. 67; Rondo capriccioso, op. 14; e Variações Sérias, op. 54), compositor bem menos presente nos recitais de piano do que o seu colega polaco, no âmbito de um alinhamento que explorou também o conceito musical de capriccio. Esta designação foi aplicada ao longo dos tempos a composições diversas de forma livre, frequentemente com traços virtuosísticos. Assim, foi possível escutar desde uma sóbria versão do Capriccio sopra la lontananza del suo fratello dilettissimo, BWV 992, de J. S. Bach, até à sedutora Valse-Capriche, de Anton Rubinstein, passando pelo brilho e pela energia rítmica do Rondo a capriccio, op. 129, de Beethoven, e pelo já referido Rondo Capriccioso, de Mendelssohn. Se, nestas últimas peças,  Lisiecki mostrou a sua vertente mais extrovertida, admirável agilidade técnica e incisivos contrastes dinâmicos, nas Canções sem Palavras de Mendelssohn e nos Nocturnos  de Chopin colocou um belo cantabile e uma toucher delicada ao serviço de um inspirado lirismo poético, fazendo destas obras momentos altos do recital. Nas Variações Sérias, op. 54, de Mendelssohn, ficou patente o controlo apurado dos planos sonoros das densas texturas surgidas a partir de um tema fora do vulgar no âmbito das variações oitocentistas pelo cromatismo e pela escrita severa a quatro partes. Finalmente, na Balada nº4, Lisiecki uniu numa narrativa coesa a introspecção e o refinamento expressivo ao fulgor e ao dramatismo das passagens mais exuberantes e tecnicamente mais exigentes. No encore, regressou à delicadeza onírica com a famosa Rêverie do ciclo Cenas Infantis, de Schumann.

Quanto a Mitsuko Uchida, na presente digressão com a Mahler Chamber Orchestra tem interpretado vários concertos de Mozart, dirigindo ela própria, a partir do piano, a formação orquestral. O programa apresentado em Lisboa incluía os Concertos nºs 13 e 17, intercalados por Coralquartett, de Jörg Widmann (n. 1973), um arranjo para orquestra de câmara, flauta, oboé e fagote do Quarteto de Cordas nº2, realizado pelo próprio compositor. Esta obra, constituída por um único andamento lento, inspira-se livremente nas Sete Últimas Palavras de Cristo na Cruz, de Haydn, pretendendo evocar a crucificação através de uma paisagem sonora algo estática que vai acumulando tensão e na qual se exploram múltiplos efeitos tímbricos e dinâmicos. Dois dos instrumentos adicionados (flauta e fagote) foram colocados no meio da plateia, realçando assim o diálogo espacial com a formação em palco. Mais do que uma criação especialmente digna de nota, esta foi uma ocasião para os instrumentistas da Mahler Chamber Orchestra, dirigida pelo concertino Alexi Kenney, demonstrarem a sua versatilidade e o seu domínio técnico para além da linguagem clássica mozartiana.

Este interlúdio sombrio foi rodeado pela luminosidade de Mozart, um dos pilares da carreira de Uchida, cujas prestações se caracterizam habitualmente pela fluidez elegante dos fraseados, pela nitidez das articulações, por uma equilibrada gestão das dinâmicas e por um sentido de estilo que, sem se filiar directamente nas correntes de interpretação historicamente informadas, se mostra em estreita sintonia com linguagem do Classicismo. Se no Concerto nº13 tanto a solista como a orquestra confirmaram a sua alta reputação, foi porém no Concerto nº 17 que se excederam e deram o seu melhor. A imensa riqueza temática e os múltiplos contrastes da magnífica partitura de Mozart tiveram em Uchida uma interlocutora eloquente e contaram com admiráveis intervenções da orquestra num diálogo que contou com belíssimas intervenções da flauta e do fagote, mas também de todo o naipe dos sopros da família das madeiras em geral, sem desprimor para a qualidade das cordas. Os entusiásticos aplausos finais foram premiados com o singelo Andante da Sonata KV. 545, conhecida como “Sonata Fácil”, de Mozart, em mais uma meticulosa prestação da pianista.