A temperatura dos oceanos bateu recordes: quais são as consequências?

Nos últimos cinco anos foram registadas as temperaturas mais quentes nos oceanos desde que há dados. Este calor em excesso favorece a ocorrência de chuvas mais intensas e de inundações, de tempestades severas e é uma ameaça à vida marinha.

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Recifes de coral ao redor da ilha de Matangi, nas Fiji NASA

As temperaturas dos oceanos atingiram no ano passado valores recorde, revelou esta segunda-feira um artigo publicado na edição online da revista Advances in Atmospheric Sciences. Já se sabia que os oceanos estavam a aquecer e que isso prejudicava a vida marinha e os ecossistemas, mas por que é esta subida tão importante?

O que é que isto significa?

A equipa responsável pelo estudo afirma que “medir a temperatura do oceano é uma das melhores maneiras de quantificar a taxa de aquecimento global”. É mais comum que se faça a medição do “nível” de aquecimento global através da temperatura média do ar à superfície, já que é aí que os seres humanos vivem. Julho de 2019 foi, por exemplo, o mês mais quente de sempre. Mas, tal como destacam os cientistas, os fenómenos climáticos naturais como o El Niño (e muitos outros) podem fazer com que este valor seja demasiado variável de ano para ano. “Os oceanos dizem-nos realmente a que velocidade é que a Terra está a aquecer. Usando-os [como medida] vemos que há uma taxa de aquecimento contínua, ininterrupta e acelerada do planeta Terra. Esta é uma notícia terrível”, explicou John Abraham, professor da Universidade de St Thomas, no Estado norte-americano do Minnesota, e um dos membros da equipa ao The Guardian. Estas novas informações provam de forma ainda mais clara que o planeta está a aquecer, e a um ritmo mais acelerado.

Além disso, mais de dois terços da área do planeta são ocupados pelos oceanos e a água é capaz de absorver muito mais calor do que o ar. “Como os valores anuais podem ser afectados por variabilidades internas ou erros instrumentais, as tendências a longo prazo são muito mais importantes para mostrar as mudanças climáticas”, realçam os autores. E estas "tendências a longo prazo” mostram que os oceanos atingiram nos últimos cinco anos as temperaturas mais elevadas desde os anos 1950 e que não há registo na história humana de as suas águas alguma vez terem estado mais quentes do que em 2019.

Os novos dados revelam ainda que este aquecimento foi generalizado, mas o Oceano Atlântico e o Oceano Antárctico (especialmente as zonas próximas da Corrente Circumpolar Antárctica) continuaram a registar em 2019 um aquecimento mais elevado em comparação com os restantes.

Como é que isto nos afecta?

De acordo com os autores do estudo, as ondas de calor marítimas e outras tensões causadas pelas mudanças ambientais nos oceanos têm consequências para a vida na Terra.

Quando o calor aumenta, também a evaporação e a humidade crescem, algo que favorece a ocorrência de chuvas mais intensas e leva a cheias e inundações. Oceanos mais quentes levam a tempestades mais severas e temperaturas muito altas podem até alterar o ciclo natural da água. Mas esta equação é complexa e pode ter o resultado oposto: mais secas e incêndios florestais. É pouco provável que as mesmas zonas do planeta experienciem ao mesmo tempo chuvas fortes e secas prolongadas, mas estas condições vão afectar simultaneamente zonas diferentes do globo.

“É uma das principais causas dos crescentes incêndios catastróficos na Amazónia, Califórnia e Austrália em 2019 (que se estenderam para 2020)”, referem os autores do estudo divulgado esta segunda-feira.

A vida marinha está em perigo?

O aumento das temperaturas do oceanos representa um “grande risco à biodiversidade, à pesca e pode causar grandes perdas económicas”, dizem os autores. Com oceanos mais quentes, as espécies marinhas tenderão a migrar na direcção dos pólos e para águas mais profundas, a diversidade de peixes e invertebrados hoje explorados pode diminuir e os recifes de coral tropicais sofrerão uma redução colossal.

Um oceano mais quente é particularmente impactante para os corais e outros organismos sensíveis ao “calor”, que começam a morrer. O branqueamento dos corais acontece quando a água aquece mais do que seria suposto. Devido a esse aquecimento, as algas que vivem em simbiose com os corais (e que lhe dão os tons coloridos) começam a tirar-lhes a cor porque passam a produzir substâncias tóxicas e deixam de fazer a fotossíntese.

Mas existem outras consequências significativas como a redução do gelo, com desaparecimento da calota polar no Árctico até daqui a pouco mais de dez anos, a redução da concentração de oxigénio e a libertação de metano do fundo do mar.