Arguido da GNR convencido de autorização “ao mais alto nível” para recuperar armamento de Tancos

Bruno Ataíde foi o elo que ligou os elementos da GNR e da PJ Militar a João Paulino quando este quis devolver o material.

,Caso dos Pais de Tancos
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LUSA/PAULO NOVAIS

Bruno Ataíde, militar da GNR de Loulé e amigo do principal suspeito do assalto aos paióis de Tancos, disse esta segunda-feira ao juiz Carlos Alexandre que recebera garantias de que o plano para recuperar o armamento na Chamusca, três meses depois do assalto, tinha sido autorizado “ao mais alto nível”. Ele próprio, enquanto elo de ligação entre João Paulino e os militares dos dois órgãos de polícia, teve um papel-chave na recuperação das armas.

Quando o juiz lhe perguntou a quem se referia quando mencionou a autorização ao mais alto nível, Bruno Ataíde, que era militar do Departamento de Investigação Criminal de Loulé, falou do conhecimento e da autorização de responsáveis acima dos chefes da investigação da PJ Militar e da GNR.

Perante a insistência do juiz, o arguido deu a entender que estava convencido “por exemplo” que o então ministro da Defesa também teria conhecimento, apurou o PÚBLICO junto de várias fontes ligadas ao processo.

Bruno Ataíde foi o primeiro a falar em interrogatório e um dos 15 que pediram a abertura da fase de instrução que decorre à porta fechada no Tribunal Central de Instrução Criminal, em Lisboa.

Na semana passada, os arguidos chamados ao tribunal para apresentarem a sua versão dos factos, como por exemplo o tenente-coronel Luís Sequeira, então chefe da Secção de Informações e Investigação da GNR de Loulé saíram sem prestar declarações.

Foi no dia 30 de Agosto de 2017, perto da meia-noite, que se deu o encontro entre Bruno Ataíde e o seu amigo, João Paulino, para dar início às negociações entre os elementos da PJ Militar e da GNR e este ex-fuzileiro, disposto a entregar as armas a troco de não ser revelada a sua identidade. O material foi recuperado seis semanas depois, em Outubro.

Quando questionado sobre o conhecimento que o coronel Manuel Estalagem, director da investigação criminal da PJ Militar teria do plano, Bruno Ataíde terá garantido que o responsável sabia das negociações para reaver o armamento. 

Por isso, disse que esperaria vê-lo entre os arguidos da PJ Militar, como o major Vasco Brazão, o major Pinto da Costa e o coronel Luís Vieira, à data director-geral da PJ Militar. Entre os acusados pelo assalto e os acusados pelo achamento, o MP acusou 23 pessoas.

Entre os acusados, além do coronel Estalagem também não está Paulo Lemos “Fechaduras”, que Bruno Ataíde disse igualmente esperar ver na lista de envolvidos por ter dado instruções essenciais para que o grupo de Paulino abrisse os paióis, como o próprio Paulo Lemos admitiu na fase de inquérito. 

O MP ainda não conseguiu notificar Paulo Lemos, que foi constituído arguido mas não acusado, e que foi chamado por um dos arguidos, como testemunha para prestar declarações perante o juiz Carlos Alexandre. 

Conhecido pela alcunha de “Fechaduras”, Paulo Lemos começou por fazer parte do grupo que iria realizar o assalto, retirando-se depois. 

E ter-se-á retirado, porque, na versão dele, se arrependeu; ou porque, na versão da PJ Militar e da GNR, desde o início que colaborou, enquanto informador, com a PJ, a quem apresentou uma denúncia em Março de que um assalto estaria para acontecer.

No fim desta fase de instrução, que começou na passada quarta-feira, 8 de Janeiro, e poderá prolongar-se por três meses face à pela complexidade do processo, saber-se-á quem irá a julgamento e por que crimes.