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Miguel Ângelo: já se pode brincar com a língua portuguesa de uma maneira que soa bem

Entre a Resistência e os Delfins, Miguel Ângelo começa o ano na estrada com o seu novo disco, NOVA (pop). Com D’Alva, Chinaskee, Filipe Sambado e Surma. Esta sexta-feira estará em Ponte de Lima, no Teatro Diogo Bernardes, às 22h.

,NOVA (pop)
Foto
Miguel Ângelo na capa de NOVA (pop), por Edgar Keats

Quando Miguel Ângelo lançou o EP Grotesco vs. A Canção, em 2018, esperava-se que isso fosse o primeiro passo para um álbum de nuvens carregadas devido ao estado do mundo. E talvez seja, mas mais tarde. Porque pelo meio meteu-se um outro projecto: um álbum com seis canções desenvolvidas em parceria com alguns nomes da mais recente geração de músicos. Chamou-lhe NOVA (pop) e tem duas canções feitas de parceria com os D’Alva (Carnival e Quimera), duas com Filipe Sambado e Chinaskee (A Cantiga e Nova), uma com Surma (Aquista) e uma última só dele, a fechar o disco (Naqueles dias). Das plataformas digitais, onde lançou três singles e videoclipes, há-de conhecer versão em vinil por altura do tradicional “Record Store Day” (18 de Abril).

Por enquanto, roda pelos palcos. Esta sexta-feira estará em Ponte de Lima, no Teatro Diogo Bernardes (22h), com Filipe Sambado e Chinaskee; e dia 18 em Aveiro, no Teatro Aveirense (21h30), com os D’Alva. Entre outras datas, que ainda carecem de confirmação, estará no dia 10 de Junho em Pinhal Novo e a 19 de Julho em Águeda.

Liberdade para alterar

“Eu quis abrir mão da direcção estética e dos arranjos musicais”, diz Miguel Ângelo ao PÚBLICO. “Quando entreguei as maquetas, feitas por mim em casa, à guitarra ou ao piano, dei-lhes liberdade para levarem aquilo para o universo deles. Para alterarem até as harmonias.” E cada um seguiu o seu caminho. “No caso da Surma, as coisas foram para um universo mais alternativo e onírico, enquanto com os D’Alva são mais pop e com o Chinaskee e o Sambado estão mais entre o cantautor e a pop, como em A cantiga.”

Esta última canção nasceu depois de assistir a uma intervenção de José Mário Branco num dos jantares que a Associação 25 de Abril promovia com várias personalidades. “A seguir ao jantar, entrevistado por um jornalista que lhe perguntou ‘não acha que esta é uma boa altura para escrever outra vez [canções]?’, ele respondeu: ‘Mas eu já escrevi todas’. E foi depois dessa conversa que escrevi o primeiro esboço de algo que pudesse falar da situação actual e do papel interventivo da música hoje, que é muito pouco. É mais um papel de alienação, e não o papel combativo que teve nesses anos.”

Tributo à intervenção

O resultado, diz, “é quase um tributo às canções pop e à música de intervenção”: “Eu ouvia-as em pequeno, porque a seguir ao 25 de Abril passavam muito na rádio. Quando nós começámos a fazer música pop e rock, desligávamo-nos propositadamente do fado, do chamado nacional-cançonetismo ou música ligeira e da música de intervenção. No que fazia, descolava; mas em casa ouvia, porque sempre gostei muito. Era mais um statement geracional: os anos 80, a imagem, o vídeo, os sintetizadores.”

A letra de A cantiga diz “A cantiga é uma arma/ que agora só dispara para trás”. Miguel Ângelo explica: “É uma ironia em relação a esse período, quando havia o sonho, que já vinha desde o Dylan, de que as canções podiam mudar o mundo. É uma brincadeira de palavras com isso. Porque a minha experiência diz-me que quando as canções se tornam pop e êxitos as letras passam a ser um bocadinho secundárias. Por exemplo: quando as pessoas cantam o Nasce selvagem, com uma letra violentíssima (renuncia à família, à religião, ao clube, ao partido), cantam aquilo com uma leveza que não joga com a letra.”

Soar melhor em português

Naqueles dias é a única canção que não teve parceria: “É só minha. Quis experimentar o spoken word e guardei-a para isso. Porque todas as letras são muito autobiográficas e achei que com os 35 anos de carreira devia fazer alguma coisa deste tipo. E estou a falar muito de mim, nestas canções. Há até um verso no Quimera que eu queria tirar e os D’Alva pressionaram-me para que ficasse, onde digo ‘eu canto um lugar ao sol’.”

A língua portuguesa cantada foi um dos factores que levaram à escolha destas parcerias: “O uso do português nestes novos artistas que eu escolhi, à parte da Surma, que muitas vezes canta com uma língua imaginária criada por ela, tornou-se menos complexo. Isto já não é novo, vem desde aquelas edições da Flor Caveira, em meados da primeira década de 2000. Usava-se muito o inglês. Mas o Luís Severo e há já algum tempo o Samuel Úria dizem o que querem e brincam com as palavras de uma maneira que nos soa bem.

Antigamente, diz, aquilo soava mal. Agora não: Quer os D’Alva, a escreverem num estilo mais pop, quer o Sambado, mais próximo do cantautor, é cativante para mim ver que há artistas novos que, continuando com alguns códigos de pop de que eu gosto (eléctricos, obviamente), conseguem sem complexos cruzar uma vertente mais portuguesa, de língua portuguesa cantada. Mais aperfeiçoada do que há 10 ou 15 anos.”

O “renascer” dos Delfins

A par do seu trabalho a solo, que já soma quatro discos (Primeiro, 2012; Segundo, 2015; Grotesco vs. A Canção, 2018; e NOVA (pop), 2019), Miguel Ângelo continua a integrar a Resistência e o episódico regresso dos Delfins, que em 2019 actuaram com orquestra em Cascais e em 2020 farão cinco concertos (só a banda), a convite da produtora Gigs on Mars, começando pela primeira edição do South Sounds Art Festival, no Algarve, de 9 a 14 de Junho.

Dez anos depois do fim oficial dos Delfins, como recorda Miguel Ângelo: “A banda acabou a carreira no dia 31 de Dezembro de 2009, na baía de Cascais, já sem o Fernando Cunha, que tinha saído um ano antes. E lembro-me que foi à meia-noite porque fiz a contagem decrescente para o novo ano em palco, com o meu telemóvel. Agora vamos celebrar as canções dos Delfins, indo até ao Saber A-Mar. São os singles que todas as pessoas conhecem, sem nada novo nem vontade disso. O espírito não é esse, é reunirmo-nos e celebrarmos as nossas canções dessa maneira.”