Torne-se perito Reportagem

LUCA: amigas, amigas, negócios com sabor e arte

Com a cozinha nas mãos da chefe do Mundo de Luísa, o LUCA, no CRU do Porto, é um espaço intimista que acolhe os visitantes com comida caseira. Há língua de vaca com ervilhas, bacalhau espiritual e opções vegetarianas como caril de legumes

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LUCA, Porto - Luísa Oliveira Santos e Francisca Sapage Amorim Anna Costa
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LUCA, Porto - Um espaço intimista Anna Costa

Negócios entre amigos sempre foram desaconselhados pela sabedoria popular, mas, como em tudo na vida, há excepções que contrariam os provérbios e é isso o que vem acontecendo com Luísa Oliveira Santos e Francisca Sapage Amorim. A primeira é chef do Mundo de Luísa, marca conhecida do grande público pela sua presença regular em programas televisivos matinais como os da TVI e Porto Canal, e a segunda é a organizadora de eventos da empresa PortoHost, que há anos acompanha as aventuras da amiga em diferentes projectos sempre relacionados com culinária.

Habituadas a dinamizar iniciativas de grande dimensão, as duas empresárias ambicionavam ter um espaço mais intimista onde pudessem acolher os visitantes com comidinha caseira e esse sonho concretizou-se no final de 2019, quando encontraram na cave com pátio de um edifício na Foz Velha, a poucos metros das praias do Porto, o ambiente típico da casa das suas avós.

Com traves no madeira no tecto, um pé-direito baixinho e recantos aconchegantes a pedir mobiliário modesto, retro e vintage, LUísa e FrancisCA deixaram-se conquistar pelo piso térreo do CRU – edifício ocupado por lojistas de sectores como a arte, moda e joalharia – e aí fizeram nascer um LUCA tão terra-a-terra que rapidamente conquistou a clientela com o seu ar caseiro e tratamento carinhoso.

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Luca, Porto Anna Costa

Francisca recebe as visitas e trata-lhes da mesa; Luísa ocupa-se da cozinha, onde a oferta não é parca, mas pouco se confecciona in loco. É esse, afinal, o segredo da boa gestão da casa e dos seus módicos preços: a empresa de catering de Luísa garante ao LUCA as principais refeições, evitando ao estabelecimento a confecção alimentar num espaço cuja arquitectura original não o permitiria sem consideráveis alterações físicas ao local, e na cozinha só se preparam, na hora, iguarias descomplicadas como café de saco, scones e tostas de mozarela com tomate e manjericão.

Doces há muitos, com especial incidência em bolos caseiros de fatias generosas, como o de cenoura com chocolate, e em opções sem glúten, como o de noz com ovos-moles, mas a expectativa maior prende-se com a ementa semanal que o LUCA revela aos domingos no Facebook.

É nela que se anuncia, afinal, em que consistirá o almoço ao longo dos seis dias seguintes e, sempre com duas alternativas diárias, a oferta inclui pratos tradicionais como língua de vaca com ervilhas, bacalhau espiritual, feijoada à transmontana ou empadão de carne ou vitela estufada em vinho do Porto, a par de propostas vegetarianas como caril de legumes ou tajine de grão com harissa e cuscuz. Sopas também há, como as de alho-francês, creme de cenoura ou aveludado de couve-flor, e, além dos habituais vinhos, cervejas e refrigerantes, a sugestão mais procurada – porque gratuita e à discrição – é a das águas aromatizadas com citrinos ou pepino, servidas em sifão.

O preço do menu de almoço – com sopa, prato principal, água simples ou com os referidos aromas, e café – é de oito euros, aos quais acresce apenas 1,50 por uma das diferentes sobremesas disponíveis a cada dia.

PÚBLICO - Luca, Porto - Bacalhau com broa
Luca, Porto - Bacalhau com broa Anne Costa
PÚBLICO - Luca, Porto - Folhado de ovos moles e framboesas
Luca, Porto - Folhado de ovos moles e framboesas Anne Costa
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Anne Costa

Para Luísa, a tranquilidade caseira do LUCA significa agora “deixar de andar com os sacos sempre às costas, a saltar de um lugar para outro”, e privilegiar os cozinhados de pequena escala que mais prazer lhe dão confeccionar e que cada vez são mais raros nas ementas da cidade. Trata-se, assim, de estimular um regresso à vida “simples e saudável de outros tempos, quando se tinha mais vagar para fazer as coisas e saboreá-las com a família e os amigos”. Para Francisca, está em causa “uma cafetaria para pequenos-almoços tardios”, lanches confortáveis e almoços saborosos, num espaço “despretensioso e com uma maneira informal de receber”.

Se o termo “LUCA” também joga com a sigla inglesa L.U.C.A, que significa Last Universal Common Ancestor e alude ao último organismo a partir do qual descendem todos os seres vivos que actualmente habitam o planeta, Francisca também vê nisso uma coincidência feliz: “Quer se trate do nosso espaço ou do conceito científico, gosto de pensar que todos partilhamos um bocadinho do LUCA e a verdade é que a boa comida também foi sempre um motivo universal de partilha – talvez até a razão mais agradável para aproximar pessoas e culturas.”