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Viajantes portugueses não querem desistir do Irão

Entre avisos sobre a segurança no país e em toda a região do Golfo, viajantes e agências estão entre o cancelamento e o esperar para ver. Há quem não desista de férias e até espere partir em breve.

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,Mesquita Nasir-ol-Molk
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Em tempos de alta tensão na região, dúvidas sobre a queda de um avião ucraniano e recomendações de “cautela", salvo um ou outro desvio, não há por agora mudanças de planos de monta entre algumas das agências portuguesas que levam pessoas a explorar o Irão, país que tem encantado experientes viajantes portugueses e todos os que vão, apesar dos preconceitos e receios que pesam na bagagem.

“Uma coisa é a política, outra coisa são as pessoas”, resumia à Fugas Filipe Morato Gomes, 21 viagens ao Irão entre 2010 e finais de 2017 (muitas como líder pela Nomad) e que não se cansa de falar do “povo mais hospitaleiro do mundo (dizem o mesmo dos paquistaneses e dos sudaneses, mas ainda não conheço) com uma cultura lendária”. “Existe uma percepção ocidental muito especial do país e um grande preconceito em relação a todo o mundo árabe. Neste caso, quanto maior é o preconceito ocidental mais os iranianos se esforçam por demonstrar que estamos errados”, sublinha o autor do blogue Alma de Viajante – com variadíssimas crónicas publicadas sobre o Irão – e também presidente da Associação de Bloggers de Viagem Portugueses.

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Centro histórico de Yazd Filipe Morato Gomes

Na sua opinião, “não há nenhum motivo para evitar o Irão” (apenas “evitar aglomerados e manifestações”, no resto como aconselharia a quem fosse a Barcelona em Outubro de 2019).

Nos últimos dias, e após o assassínio do general Qassem Soleimani ordenado por Donald Trump, algumas das principais companhias aéreas cancelaram os voos do Irão e do Iraque e redireccionaram outros para longe do espaço aéreo de ambos os países. A alemã Lufthansa, a Emirates e a lowcost flydubai, ambas com base no Dubai, estão entre as companhias aéreas que cancelaram voos, assim como Singapore Airlines, Qantas, China Airlines e Malaysia Airlines.

“Não há nada com que ter cuidado”, diz Miguel Judas, líder de viagens pela Landescape, que ainda hoje ouve repetidos “tem cuidado” por parte dos amigos cada vez que anuncia mais uma exploração no Irão (as próximas estão marcadas para os dias 4 de Abril e 26 de Setembro). “Vamos ao Irão e a nossa perspectiva muda sempre por muito que viajemos e por muita mente aberta que tenhamos”, assume em conversa com a Fugas. “Somos bombardeados com informação que não corresponde à realidade. Criou-se uma imagem do país que não tem nada a ver com a realidade.”

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Miguel Judas

“Confunde-se tudo”, diz. O Irão é “uma sociedade muito diversa e rica” e “sem os fanatismos políticos, militares ou religiosos que tradicionalmente surgem associados” ao país anteriormente conhecido como Pérsia. “É como dizer que os americanos são todos iguais, que são todos rednecks e que querem disparar armas”, compara Miguel, que ainda hoje fica admirado com a “hospitalidade” de um “povo aberto e superculto”. “Muitas vezes fico surpreendido com as coisas que sabem sobre Portugal. A maior dificuldade é convencer as pessoas a irem lá.”

Contactada pela Fugas, a agência Abreu menciona “pedidos de cancelamento de reservas residuais” para o Irão e países limítrofes, sendo os clientes “encaminhados para outras opções”. Por seu lado, a 4x4 Viagens não retirou do site os programas para o Irão, mas suspendeu as vendas “até que a situação se clarifique”. “Logicamente, os clientes não viajam numa situação de conflito iminente”, responde Paulo Oliveira, director-geral desta agência, com mais de 900 programas exclusivos em 150 destinos. “Os constantes ameaços são tão recorrentes que já estamos habituados. É normal que haja constantemente tensões em qualquer ponto do globo. Os últimos foram no Chile a na Bolívia. E tudo se resolveu”, diz.

À pergunta frequente “é seguro viajar no país?”, a Landescape responde assim: “Como depressa se irão aperceber, o Irão é um dos países mais seguros para se viajar. E não o é por ser um estado altamente policial ou securitário, é-o porque as pessoas são naturalmente hospitaleiras e acolhedoras, porque gostam de receber bem os estrangeiros. É algo que faz parte da cultura persa desde o alvor dos tempos. Vais sentir-te mais seguro do que em qualquer outro país no mundo, asseguramos-te.”

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“Sem qualquer indicação de alterações”, e com o grupo completo e viagens compradas, Ricardo Alves, líder da Nomad, explorará o Irão entre os dias 15 de Fevereiro e 2 de Março com mais 11 pessoas. “Sempre que digo que vou ao Irão, as pessoas dizem ‘cuidado! aquilo é só terroristas e bombas’. Mas sou sempre recebido de braços abertos pelo povo mais generoso e acolhedor que conheço”, sublinha à Fugas este viajante obrigado a fazer alguns desvios na sua última visita ao Irão por causa dos protestos contra o sucessivo aumento dos preços dos combustíveis. “Segurança máxima”, garante. “Zero problemas. Posso deixar a mochila no meio da rua que alguém me irá guardá-la ou correr para entregar-ma. Já tivemos um vendedor num bazar a correr atrás de nós para nos entregar um troco esquecido. Os iranianos são de uma honestidade incrível. As pessoas são maravilhosas e extremamente cultas. Uma vez, quando souberam que eu era português, em vez do tradicional ‘Cristiano Ronaldo’ apontaram Fernando Pessoa!”

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Ricardo Ferreira Alves

No Irão, Ricardo, que escolheu o país para passar a lua-de-mel, sente-se “em casa”. “E os iranianos sentem a necessidade de mostrar que não são aquilo que ouvimos deles cá fora. As pessoas que levo vêm de lá comovidas com essa realidade.”

Filipe Morato Gomes recorda que as viagens com grupos começavam com muitas dúvidas. “Perguntavam sempre ‘será que, será que?’ e passados dez minutos no Irão estávamos a ouvir ‘welcome to Iran’ e ‘you're my guest’.”

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Conselhos do Portal das Comunidades

A propósito da situação no Golfo Pérsico, o Portal das Comunidades Portuguesas do Ministérios dos Negócios Estrangeiros, em actualização de 8 de Janeiro, desaconselha deslocações àquela região, lembrando que a “situação de segurança em toda a região” pode “sofrer alterações a qualquer momento". De qualquer das formas, recomenda “cautela em todas as viagens e deslocações” e deixa “conselhos” sem natureza vinculativa. Apela a que o viajante se registe antes de partir (através da aplicação Registo Viajante – android, iOS) e recomenda que se evitem “lugares de demonstrações públicas ou aglomerações”.

Apela aos viajantes que se encontrem no Irão que “redobrem as suas precauções” e que “sob nenhum pretexto” devem “capturar imagens ou sons de manifestações, de forças de segurança ou dos seus edifícios ou viaturas”. A utilização de drones para captação de imagens é fortemente desaconselhada em qualquer circunstância.

Desaconselha ainda “vivamente” quaisquer deslocações a locais a menos de 100 quilómetros da fronteira com o Afeganistão, a menos de 50 da fronteira com o Iraque (a evitar “em particular” as províncias do Curdistão e Cuzistão), assim como a leste da linha que une Bandar Abbas e Kerman, incluindo a província do Sistão Baluchistão.