Opinião

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As ofensas e ataques antissemitas têm aumentado na Europa e nos Estados Unidos, quase na mesma proporção em que os radicalismos vão avançando.

O ano de 2020 nasce com marcas de ódio generalizado, com o planeta a ferro e fogo em múltiplas latitudes, com uma tendência manifesta de agravamento. Ódios, recalcados ou não, fluem agora em rios incontidos.

Falemos de um exemplo, que infelizmente muitos outros há.

“O povo judeu sofreu tanto na História. Eles foram expulsos e perseguidos. Estávamos convencidos de que isso tinha terminado, mas agora voltou a prática de perseguir judeus.”

A declaração foi proferida pelo papa Francisco, no dia 13 de novembro de 2019, na sequência das mensagens de ódio enviadas à senadora italiana Liliana Segre, sobrevivente de Auschwitz.

As ofensas e ataques antissemitas têm aumentado na Europa e nos Estados Unidos nos últimos anos, quase na mesma proporção em que os radicalismos vão avançando.

Em fevereiro de 2019, 96 túmulos de um cemitério judeu em Quatzenheim, perto de Estrasburgo, foram vandalizados, sendo-lhes aposto o desenho de cruzes suásticas nas lápides, a poucas horas da realização de uma manifestação de protesto nacional contra o aumento de ataques antissemitas em França.

Em março, o memorial que assinalava o local onde existia a sinagoga de Estrasburgo, destruída pelos nacionais socialistas em 1940, foi vandalizado.

Em julho, Fathi Hamad, responsável de uma das unidades do Hamas, que controla a Faixa de Gaza, apelava à morte de judeus: “Sete milhões de palestinianos no estrangeiro, preparem-se. Vocês têm judeus entre vocês, em todos os locais onde vocês estão. Ataquem todos os judeus que puderem, em todo o mundo, e matem-nos.”

Em outubro, no dia em que se comemorava o Yom Kippur, um ataque a tiro junto a uma sinagoga em Halle, no Leste da Alemanha, matou duas pessoas e feriu outras duas. O atacante filmou e transmitiu o ataque em directo na Internet.

Já no dia 4 de dezembro, em Westhoffen, perto de Estrasburgo, no cemitério judeu, 107 túmulos foram vandalizados com cruzes suásticas, no mesmo dia em que o cemitério judeu de Schaffhouse-sur-Zorn, a 20 quilómetros de distância, também amanheceu com marcas antissemitas.

No dia 28 de dezembro, em Monsey, Nova Iorque, um homem com uma faca invadiu a casa do rabino Chaim Rottenberg, onde dezenas de pessoas celebravam o festival judaico Hanukkah, ferindo cinco pessoas com uma arma branca.

Só no mesmo mês de dezembro em Nova Iorque, registaram-se 13 ataques antissemitas, a maioria em Brooklyn, onde reside uma vasta comunidade judaica.

O mayor de Nova Iorque, Bill de Blasio, ordenou o reforço de segurança nos bairros judeus e reconheceu o aumento do antissemitismo em todo o país e de forma cada vez mais violenta.

Estes são só alguns exemplos da violência contra judeus.

Segundo dados do Instituto de Registos e Notariado, até novembro de 2019, 45 mil descendentes de judeus expulsos de Portugal nos séculos XV e XVI pediram a nacionalidade portuguesa.

Quando, a 1 de março de 2015, entrou em vigor a lei que permite aos judeus sefarditas requererem a nacionalidade portuguesa, mais do que reparar um erro histórico, que nada reparará, a minha intenção era também abrir uma porta para o futuro, tal como afirmei publicamente, uma vez que para mim eram claros os sinais do regresso do antis-semitismo.

O ódio faz muito mal à humanidade, mas também a quem o sente.

A autora escreve segundo o novo acordo ortográfico

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