Pai-herói, que percorre 24 quilómetros diários para que as filhas estudem, homenageado pelo Governo afegão

Governo do Afeganistão prometeu não só uma escola para a aldeia de Mia Khan como baptizá-la com o seu nome.

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Mia Khan com Rozie, a filha de 12 anos, que ele sonha ver transformada na primeira médica da sua aldeia Facebook/Comité Sueco para o Afeganistão
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Nas pequenas aldeias em redor de Zareh Sharan, capital da província afegã de Paktika, no Sudeste do país, há ainda quem acredite que as raparigas não deviam ir à escola. Mas para um pai de três meninas esses pensamentos são irrelevantes porque, diz, citado pelo site afegão de notícias Reporterly, “estudar é um direito das minhas filhas”. E Mia Khan empenha-se, todos os dias, para que esse direito não lhes seja vedado.

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É que, numa região onde a segurança ainda é um luxo reservado aos mais endinheirados, explica Khan ao mesmo órgão, ir à escola depende de ter quem acompanhe as crianças. “A [falta de] segurança é uma das dificuldades de quem vive no Afeganistão. Ser incapaz de passear em segurança, dos nossos familiares não poderem viajar pela cidade com facilidade ou dos nossos filhos não poderem ir muito longe para estudar.”

Porém, para este pai, de 63 anos, patriarca de uma família de 12, dos quais sete raparigas, a solução tornou-se óbvia. “Mia Khan viaja 12 quilómetros todos os dias na sua moto para levar as suas filhas à escola e, depois, espera por elas algumas horas, até que as aulas terminem, para as levar de volta a casa”, descreveu o Comité Sueco para o Afeganistão (SCA, na sigla original, uma organização não-governamental que opera no país, nomeadamente ao nível da educação e da inclusão de meninas na escola), no início de Dezembro, num post nas redes sociais.

Na verdade, a maioria das vezes, acabaria por o próprio relatar, os quatro — ele e as três filhas, de 8, 10 e 12 anos — percorrem a pé aqueles 12 quilómetros de casa à escola e, ao fim do dia, outros tantos para regressar ao lar.

Uma rotina diária inspiradora, como foi descrita por várias pessoas pelas redes, que acabaria por chamar a atenção do Governo afegão, num país onde há, segundo dados de 2015, cerca de 60% de analfabetos, sendo que este valor escala para 75% se se tiver em conta apenas o género feminino.

Na semana passada, Mia Khan foi homenageado pelo próprio ministro da Educação do país, Mirwais Balkhi, que o apelidou de “herói da educação”. Entretanto, Balkhi divulgou em comunicado, citado pelo South China Morning Post, a intenção de construir uma escola na aldeia onde Khan vive e baptizá-la com o seu nome.

“A educação das crianças é responsabilidade das famílias, mas o caso de Mia Khan é excepcional porque durante anos ele teve que andar com as suas filhas quilómetros”, considerou o porta-voz do mesmo ministério, Noorya Nazhat, ao jornal Arab News.

Lutar pela literacia

O afegão Mia Khan é analfabeto como tantos outros concidadãos. No entanto, o homem sempre quis algo diferente para os seus descendentes: “Eu trago as minhas filhas para a escola todos os dias para que possam estudar e experimentar uma vida diferente da que eu e a mãe temos”, disse ao Reporterly.

A sua atitude, além de promover a alfabetização das raparigas, num país onde prevalecem os casamentos forçados, a violência doméstica e elevadas taxas de mortalidade materna, vai ao sabor da corrente dos progressos feitos pelos direitos das mulheres afegãs, desde que foram proibidas, durante o regime talibã, de 1996 a 2001, de frequentar as escolas, de terem trabalho, de participarem na política e até de saírem sem a companhia de um parente masculino. Actualmente, sobretudo nas cidades, muitas mulheres trabalham fora de casa e mais de um quarto dos membros do Parlamento são mulheres.

No entanto, explica o jornal Arab News, a luta por maior igualdade está ainda por conquistar, com as mulheres a terem de enfrentar uma hostilidade quase cultural, tanto no seio das famílias como por parte de militantes fanáticos.

Certo é que nada disto parece incomodar Khan que considera “importante o papel das mulheres na sociedade”, dando tanto valor às mulheres e às raparigas quanto aos homens. Além do mais, com uma doença cardíaca e sem cuidados médicos onde vive, Khan sonha que a sua filha Rozie, de 12 anos, venha a ser a primeira médica da aldeia. “É o meu maior desejo ver a minha filha como a primeira médica. Eu quero que ela sirva a humanidade.” Já a menina afirma-se “feliz por estudar”.

As três filhas de Khan, explica o SCA no seu blogue, estudam na Escola para Raparigas de Nooraniya, escolhida pelo progenitor pela qualidade do ensino, estando duas delas no sexto ano e uma no quinto.