Globos de Ouro

Se ainda não sabemos quem é Awkwafina, está na hora

Acaba de se tornar a primeira americana de ascendência asiática a ganhar um Globo de Ouro de melhor actriz. Agora, a nomeação para o Óscar parece inevitável para esta entertainer que construiu o seu humor a partir do trauma pessoal da morte da mãe e foi educada por uma avó não muito diferente daquela que veremos a partir de quinta-feira no seu novo filme, A Despedida.

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Awkwafina (aliás, Nora Lum) é a primeira mulher de ascendência asiática a ganhar o Globo de Ouro de melhor actriz num filme musical ou de comédia pelo seu papel de protagonista em A Despedida WIKI COMMONS

Na madrugada de segunda-feira, Awkwafina, aliás Nora Lum, tornou-se a primeira mulher de ascendência asiática a ganhar o Globo de Ouro de melhor actriz num filme musical ou de comédia pelo seu papel de protagonista em A Despedida, que chega aos cinemas portugueses na quinta-feira. Conhecida sobretudo pelo seu papel cómico em Asiáticos Doidos e Ricos (2018), de Jon M. Chu, a actriz também apareceu em Paradise Hills (2019) e está escalada para uma série de novos filmes, incluindo Shang-Chi and the Legend of Ten Rings, operação da Marvel agendada para 2021.

No seu inimitável estilo entusiástico, Awkwafina disse aos repórteres amontoados nos bastidores que a sua vitória nesta 77.ª edição dos Globos de Ouro foi “alucinante": “É uma sensação incrível. E com ela vem outra sensação, a de que vou fazer mais coisas. Espero que isto seja apenas o começo.” Antes, no momento de agradecer o prémio, que dedicou ao pai ("Eu disse-te que arranjava emprego!"), dissera à audiência: “Se me aparecerem tempos difíceis pela frente, sempre posso vender isto [a estatueta dourada]. Nunca tinha vindo aos Globos de Ouro. Estou aqui agora, e é maravilhoso.”

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Awkwafina na madrugada de segunda-feira com o seu Globo de Ouro MIKE BLAKE/REUTERS

Aos 31 anos, esta rapper, argumentista e estrela do YouTube que se tornou viral com clips como o desbocado My Vag é seguramente uma das mais cómicas e talentosas mulheres do planeta. Em A Despedida, porém, o filme que se estreou há um ano no Festival de Sundance e agora chega a Portugal, ela revela a sua faceta dramática, ao encarnar uma nova-iorquina a cuja avó (a veterana actriz de televisão Zhao Shuzhen) restam apenas três meses de vida. O filme, que antes dos Globo de Ouro já lhe dera outros prémios, incluindo o de melhor actriz dos Gotham Independent Film Awards, foca-se no reencontro da família em Changchun, na China, reconstituindo, de forma parcialmente autobiográfica, a história da realizadora, a também sino-americana Lulu Wang, que se mudou para os Estados Unidos com seis anos mas manteve uma sólida relação com a avó. Também Nora Lum tem uma ligação fortíssima com a sua avó paterna, que a criou após a morte da mãe, quando a actriz tinha apenas quatro anos. 

Quando conheceu Lulu Wang, Nora Lum não queria acreditar que as duas partilhavam esse elo com as respectivas avós. Decidiram trabalhar juntas imediatamente. Tratando-se fundamentalmente de uma história sobre a imigração asiática nos Estados Unidos, A Despedida é também um tributo a uma certa geração, mais antiga, de mulheres chinesas.

“Acho que as mulheres mais velhas não são suficientemente celebradas, atendendo ao impacto que têm nas nossas vidas e na nossa formação”, argumenta a actriz. “Daí que A Despedida tenha sido tão especial: iluminou aquela relação de uma maneira inédita para mim.”

Tal como sucede com muitos outros génios da comédia, o humor de Nora Lum radica no trauma pessoal da morte da mãe, uma imigrante coreana que após o nascimento da filha se debateu com um quadro de severa hipertensão pulmonar. “Quando perdi a minha mãe, senti necessidade de trazer alegria e riso às pessoas que me rodeavam, porque não queria ser uma fonte de tristeza para elas. Essa experiência fez-me aceder ao drama e chegar bem fundo cá dentro. E é tão fácil usar a comédia para mascarar isso tudo. Acho que o verdadeiro desafio que os comediantes enfrentam é o de serem honestos consigo próprios. Somos muito duros connosco. Tive de aprender música, tive de aprender a representar, tive de aprender a apresentar televisão, mas nunca tive de aprender a fazer comédia. Não digo isto de forma pretensiosa, é a verdade: veio-me naturalmente. O riso realizava-me verdadeiramente e eu soube que era o que estava destinada a fazer. Para mim é uma ferramenta muito poderosa.”

Lum, que tem todo o ar de uma nova-iorquina atrevida — cresceu em Queens e debateu-se, durante a infância, com perturbação de hiperactividade e défice de atenção —, admite que a sua queda para a estridência vem da avó. “Ela sempre encorajou o meu atrevimento, a minha excentricidade. Sabia que era o que me fazia sobressair. E, em vez de me afastar disso, encaminhou-me exactamente nessa direcção. Nenhuma piada era inconveniente”, conta. A confiança que a avó lhe transmitiu, acrescenta, não tinha a ver com “beleza nem com inteligência”, mas com sentido de humor e capacidade de fazer rir os outros. “Ensinou-me a humildade e muitas outras coisas. Ensinou-me a ter respeito, a ser bem-educada, a pensar nos outros, a ser gentil. Considerava tudo isso mais importante do que a escola. Nunca me forçou a ser a minoria-modelo. Amou-me e mimou-me. Fez de mim quem eu sou, definitivamente.”

Em 2018, Nora Lum também deixou a sua marca no Saturday Night Live, quando se tornou a segunda asiática a apresentar o programa depois de Lucy Liu o ter feito 17 anos antes. “Dediquei à Lucy Liu uma parte do meu monólogo nessa emissão”, aponta. “Para mim foi um momento histórico. Lembro-me de ter obrigado o meu pai a levar-me de comboio para a vermos ao vivo, mas não conseguimos entrar.”

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A Despedida A24
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A Despedida A24
PÚBLICO - Em <I>A Despedida</i>, uma família na diáspora regressa à China para reencontrar a matriarca, afectada por um cancro
Em A Despedida, uma família na diáspora regressa à China para reencontrar a matriarca, afectada por um cancro A24
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A Despedida A24
PÚBLICO - Tal como a personagem que encarna no filme, Nora Lum tem um vínculo especialmente forte com a avó, que a criou após a morte da mãe
Tal como a personagem que encarna no filme, Nora Lum tem um vínculo especialmente forte com a avó, que a criou após a morte da mãe A24
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A actriz admite que à medida que o tempo vai passando aprecia cada vez mais o seu lado chinês. “É normal os sino-americanos demonstrarem ressentimento em relação à sua nacionalidade e à maneira como são tratados em miúdos, por serem diferentes. Mas creio que é normal que a dada altura haja uma reversão desse processo e nos sintamos orgulhosos das nossas raízes. Adoro ir à China e tento visitar o país uma vez por ano. Há já algum tempo que não vou porque estava nas lonas.”

A representação, uma novidade na carreira desta sino-americana que se tornou conhecida como comediante e rapper, está agora a levá-la noutras direcções, e Nora Lum está a adorar a viagem. “Aterro em cada projecto com um quê de síndrome do impostor, porque literalmente não sei como cheguei até aqui: toda a gente me conhece do Asiáticos Doidos e Ricos e daquela cabeleira loira, que não foi ideia minha mas sem a qual, no final de contas, acho que a personagem não teria podido existir. Mas representar dá-me uma via de acesso aos bolsos mais fundos da minha personalidade e outra via de acesso à minha capacidade de entreter: é o que eu gosto de fazer, é aquilo para que fui feita. Quando era mais nova, nunca me senti confortável comigo. Fui sempre uma grande maria-rapaz, nunca me senti uma Grace Kelly. Só nos últimos dez anos é que percebi que é OK assumir-me e ser quem sou.”