Opinião

Trump e a Era da barbárie

Trump está a fazer dos Estados Unidos um rogue state, um Estado fora da lei.

Esta década começa mal para a Paz Mundial e para a Ordem Internacional. O assassinato do General Soleimani, ordenado por Trump, talvez a pensar que desviaria a atenção do Impeachment, pode levar à guerra com o Irão. De todas as repostas possíveis ao ataque à Embaixada americana em Bagdade, Trump, escolheu a mais extrema, em desrespeito para com a lei internacional e americana.

A ameaça de Trump de bombardeamento do Património da Humanidade no Irão, como Persépolis ou as maravilhas de Isfahan, é bárbara. Convenções internacionais proíbem que monumentos históricos sejam alvos militares, princípio que foi reafirmado pela resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas, aprovada por unanimidade, em 2017, no contexto da destruição pelo Daesh do património histórico de Palmira, na Síria. Mesmo que não se concretize, a ameaça de Trump põe em perigo o Património da Humanidade legitimando uma tendência que na última década levou à destruição de monumentos históricos como a grande mesquita de Alepo.

Trump está a fazer dos Estados Unidos um rogue state, um Estado fora da lei, e, ao fazê-lo, sendo a América a potência-chave na ordenação da Ordem Internacional, encaminha o Mundo para uma Era de barbárie, onde impera a lei do mais forte.

Em 2003, foi o desrespeito pelo direito internacional por parte dos Estados Unidos que fomentou as condições da crise atual. A guerra de Bush de conquista do Iraque foi um desastre humanitário, político, militar e estratégico, que pôs termo à hegemonia americana no Médio Oriente e aumentou, significativamente, o poder regional do Irão, sobretudo no Iraque pós-Saddam.

A maioria da população (cerca de 60%) do Iraque que é xiita, com fortes ligações religiosas e políticas ao Irão, onde encontrou refúgio à brutal repressão de Saddam Hussein, usou a derrocada do adversário para afirmar a sua influência. Os partidos xiitas assumiram o poder em Bagdad, apoiados por poderosas milícias que coordenaram a sua ação com os Guardas da Revolução iranianos, chefiados pelo General Soleimani. Estas milícias foram cooptadas pelo Estado Iraquiano e mostraram-se decisivas na guerra contra o Daesh, nomeadamente em Mossul, sob comando do General Soleimani, protegido então pela força aérea americana. Note-se que a guerra contra o Daesh reforçou ainda mais a influência iraniana no Iraque.

Em 2019, grandes manifestações em Bagdade e nas cidades do Sul, onde a maioria da população é xiita, contestaram a influência iraniana no Iraque e puseram em causa a divisão em linhas religiosas da política do país, exigindo, como as revoltas árabes de 2011, mais democracia e o fim da corrupção.

O General Soleimani foi, enquanto Comandante dos Guardas da Revolução, o responsável por graves crimes de guerra cometidos na Síria, nomeadamente em Alepo, e, mais recentemente, foi responsabilizado, pelos manifestantes anti-iranianos no Iraque, pela repressão sangrenta de que foram vítimas. Contudo, os Estados Unidos não o assassinaram para proteger os Sírios ou os manifestantes iraquianos; fizeram-no no quadro da estratégia de “máxima tensão”, com apoio dos seus aliados sauditas, que retirou os Estados Unidos do acordo nuclear, assinado por Obama, impondo pesadas sanções ao Irão.

Esta estratégia tem sido um fiasco e tem levado a uma escalada com o Irão, tanto mais que em Teerão os sectores mais extremistas, dominantes nos Guardas da Revolução, que sempre se opuseram ao acordo nuclear, marginalizaram os reformadores e têm utilizado a sua enorme influência regional para responder às pressões americanas, como o fizeram ao atacarem uma refinaria na Arábia Saudita.

Se o objetivo americano — assassinando um adversário poderoso — era o de enfraquecer a posição do Irão no Iraque, o tiro sairá provavelmente pela culatra. O parlamento iraquiano já exigiu a retirada americana e o movimento popular anti-iraniano saiu enfraquecido perante a violação da soberania do Iraque pelos EUA. E no Irão, a oposição, como a iraquiana, dilui-se na vaga de protestos pelo assassinato.

O Irão é um dos pesadelos dos presidentes americanos desde o golpe militar de 1953 que a CIA reconheceu ter orquestrado e que depôs o Primeiro-Ministro progressista, Mohammad Mossadegh, eleito democraticamente, mas que ousou nacionalizar o petróleo iraniano até então nas mãos dos britânicos. O Presidente Carter viu, perante o fracasso que foi a sua operação para resgatar os reféns da Embaixada americana em Teerão, eclipsarem-se as suas hipóteses de um segundo mandato.

E Trump? Trump, nas vésperas de campanha para a reeleição, lançou-se numa nova aventura militar, visando a lei internacional e proferindo declarações bárbaras, subestimando o apego dos eleitores americanos à lei. Talvez seja o princípio do seu fim.

Enquanto esperamos que o povo americano livre o Mundo de Trump, em novembro, a União Europeia  e toda a comunidade internacional deve fazer o que estiver ao seu alcance para  travar uma nova guerra do Golfo  e impedir que as  ameaças de Trump contra o património da humanidade se concretizem.

Fundador do Forum Demos

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