Opinião

A violência contra os médicos

A violência contra os médicos no exercício da sua profissão é um sintoma de uma doença. Chama-se degradação social.

Hoje, durante o pequeno-almoço, a televisão dava a notícia de mais dois casos de violência extrema contra médicos, em Moscavide e Setúbal. Sou um internista com 60 anos, que ainda não interiorizei, e no domingo estarei de urgência durante 24h. A minha mulher insiste em que devo deixar de fazer urgência, conforme a lei permite. Ao ouvir a notícia, começo a pensar que ela tem razão.

A violência contra os médicos no exercício da sua profissão é um sintoma de uma doença. Chama-se degradação social. Estes dois últimos governos não provocaram a enfermidade, mas deram as condições propícias para que ela se manifestasse e esteja a alastrar de forma avassaladora!

A degradação social é um fenómeno de corrosão progressiva, que temos dificuldade em reconhecer, até se tornar evidente que o nível de civilização baixou irremediavelmente. Nunca há um único culpado. Há um crescente laxismo, em que vamos aceitando o inaceitável. Na televisão, a vulgaridade é catapultada ao estrelato. Todos acreditam que o estatuto social se mede pelos bens, que se exibem sem despudor. A inteligência é confundida com a esperteza. Ninguém lê um livro ou dá valor a um intelectual.

Quando os sinais da doença estão instalados, sendo a violência contra médicos e professores dos mais preocupantes, a justiça tem de ser exemplar e imediata. Se a justiça não atua, a sociedade entenderá que tudo é possível e legítimo, como se a violência fosse uma mera expressão de opinião. Não tenho dúvidas que assim estes casos se irão repetir. Não me consta que em nenhum destes últimos três casos de agressão a médicos, os seus autores tenham ido passar sequer umas horas à esquadra para reflexão. Ficou-se pela identificação dos supostos doentes e familiares. A justiça pode esperar.

Desde o início deste ciclo político, a atitude dos governos perante a saúde tem sido sempre de mera propaganda, remetendo para os profissionais a responsabilidades das ineficiências do sistema. Em vez de se reformar o SNS, com medidas que aumentem a capacidade de resposta, fazem-se declarações bombásticas com contratações de profissionais, que ninguém vê. Dizem dar autonomia aos hospitais e depois enredam-nos numa teia burocrática, que torna vãos todos os esforços. Abrem-se concursos sem nexo, em que os diretores do serviço não têm qualquer intervenção.

Até a apregoada transparência das listas de espera da consulta e da triagem de Manchester no SU dos hospitais, é uma forma encapotada de desculpabilizar as políticas e culpar os profissionais. As pessoas entendem que se há urgências com uma hora de espera e outras com cinco horas, a culpa é de quem lá está a trabalhar. Há uns meses, um utente revoltado, a aguardar observação na urgência há 3h, disse-me que eu devia ter vergonha em chefiar aquela equipa. Pedi-lhe para que visse como todos estavam a trabalhar sem descanso. Manteve o dedo acusador: “você devia contratar mais gente!”

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