Opinião

A improbabilidade estatística de amar

Há pessoas mais ou menos compatíveis connosco, ou melhor, com o que somos num dado tempo e lugar. E não lhes podemos exigir o que eles/elas não podem dar.

Kant sabia muitas coisas e uma delas era que existem coisas vedadas ao entendimento humano. Mesmo para quem defenda uma visão antropocêntrica do mundo, realidades como o amor e o ódio fogem a um total controlo da racionalidade. Conhecemos, porém, a “economia da felicidade” e a “psicologia do amor”. Todavia, interessante que seja que a ciência se dedique a objectos há não muitas décadas atrás “esotéricos”, aqui sou um positivista ao contrário – ponham-me o amor na ponta de um bisturi e só aí acreditarei que o saber humano o alcança em pleno.

Isso e a capacidade de mudar. De mudar-se, de regenerar-se. O tempo cronológico vai-nos ensinando – assim se espera – a aceitarmos quem connosco vive e convive, no sentido de os suportarmos apenas (no trabalho, p. ex.) ou de nos aproximarmos na plenitude do nosso ser (nas relações pessoais). E tudo o que vá para além disto não queremos, e bem. A “modernidade e o amor líquidos” (Bauman) são repasto cultural favorável – o egoísmo solipsista reinante não permite grandes esforços para além dos social e profissionalmente necessários a darmo-nos com alguém de que não gostamos. E isto, em si, nada tem de mal. É higiene mental pura e inteligente, sofisticada maneira de saber viver.

Em paz estamos quando aceitamos que tantas relações poderiam ter sido diferentes, que poderíamos ter encontrado o “homem ou mulher da vida”, não fossem estas ou aquelas características, quando depois entendemos que não existem tais coisas. As criancinhas não deviam ter de levar com princesas e príncipes encantados. Há pessoas mais ou menos compatíveis connosco, melhor, com o que somos num dado tempo e lugar, pois estamos em constante devir, do primeiro grito ao último arfar pelo ar que rareia. E não lhes podemos exigir o que eles/elas não podem dar. Também não queremos que nos exijam a nós. E é nesta zona de conforto mútuo que ficamos, que vamos estando, anos ou meses, dias, por vezes. E não há mal nisto. A volatilidade das relações humanas acompanha a volatilidade das mundanas verdades pós-modernas. Há Verdades com maiúsculas, mas estas não se consomem à velocidade de um tweet.

Tantas são as condicionantes que, em termos probabilísticos, cada vez mais me surpreendo com os relacionamentos amorosos significativos existentes. Um estatístico diria que são próximos do zero. Mas as pessoas tentam e voltam a tentar, e esperança renovada haja por cada queda. 

Isso e o banimento da perspectiva moralista do que é uma relação: quem são os elementos da mesma, que características devem ter, como se devem comportar. A estatização moralizante de alguns, que até se dizem “progressistas”, é assombrosa e só encontra paralelo no péssimo conceito paternalista de “tolerante”. É este último o berço de todos os discursos de ódio que infernizam o espaço público, de tanto sofrimento escondido. Tolerante, o tanas! Eu tenho apenas de saber que há pessoas que amam da mesma forma que todo o ser humano, independentemente  do/a destinatário/a dessa forma sublime de respirar com o outro, em todos os matizes possíveis entre adultos responsáveis.

Estamos todos em processo – de aceitarmos que o/a companheiro/a é aquela pessoa concreta, com qualidades e defeitos, com quem queremos ou não estar (lixo com as relações tóxicas!) – e – o que às vezes é tão ou mais difícil – aceitarmos que não é justo para nós lançarmos mãos de ferramentas de camuflagem social para agradarmos à contraparte: mais tarde ou mais cedo a natureza dá voz ao rugido de leão ou leoa. Aceitação de nós mesmos com a cintilante inteligência emocional de que os barrotes do ser são para conservar e que os adornos sazonais se podem eliminar ou mudar de lugar. É essa, também, uma prova de amor próprio e aos outros.