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Morreu Syd Mead, o criador visual de Blade Runner

Designer americano morreu na Califórnia, aos 86 anos. Tomorrowland, Missão a Marte, Alien – o Regresso e Tron são outros dos filmes que têm a sua assinatura visual.

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Blade Runner, de Ridley Scott DR

Desenhou os veículos e a atmosfera futurista de filmes como Star Trek – o Filme (Robert Wise, 1979), Tron (Steven Lisberger, 1982), Missão a Marte (Brian De Palma, 2000) ou Tomorrowland (Brad Bird, 2015), mas ficará para a história do cinema e para todo um certo imaginário visual do futuro pelo seu trabalho em Blade Runner, tanto no filme original de Ridley Scott (1982) como na sequela realizada em 2017 por Denis Villeneuve, Blade Runner 2049 – Syd Mead, é dele que falamos, morreu segunda-feira, em Pasadena, Califórnia, aos 86 anos, de linfoma. A morte do “futurista visual”, como gostava de ser chamado, foi confirmada com um post no Facebook, “Syd Mead, 1933-2019”, e também pelo seu companheiro Roger Servick, citado pela BBC.

Para o Blade Runner original, Mead criou um cenário inesquecível para uma Los Angeles do futuro, onde os veículos voadores se cruzavam numa metrópole marcada pelo contraste entre arranha-céus ainda mais altos do que os que hoje vemos em Nova Iorque ou Chicago e uma urbe subterrânea e à superfície habitada por uma população empobrecida e permanentemente exposta à chuva e à poluição. Já para o filme de Villeneuve, Mead recriou, com a mesma marca visual futurista, uma Las Vegas despovoada e em ruínas.

O artista visual trabalhou também para grandes empresas do ramo automóvel e da electrónica, como a Ford e a Chrysler, a Philips ou a Sony. Gostava de limites, como saber que um carro não voa — e arranjar maneira de o fazer flutuar como em Blade Runner - Perigo Iminente. Apesar de toda a glória que lhe trouxe o filme de Ridley Scott, desdramatizava o seu peso. “Na verdade, não estava assim tão fascinado… era um trabalho”, dizia ao PÚBLICO em 2014, quando esteve em Portugal para o Festival Trojan Horse Was a Unicorn, recordando despreocupadamente o seu trabalho para o filme. 

Ridley Scott descobriu a arte de Mead folheando Sentinel, um primeiro catálogo dos seus trabalhos, onde ficou precisamente impressionado com os seus veículos futuristas. Depois do V’Ger desenhado para a primeira versão para o grande ecrã de Star Trek, foi de facto o imaginário “barroco supersónico” – a expressão é do próprio Syd Mead – criado para Blade Runner que viria a definir a sua assinatura. Scott deu-lhe o guião baseado na obra de Philip K. Dick e Mead pegou nas Torres Gémeas e nas ruas em grelha da baixa de Nova Iorque para criar uma cidade aérea. Desenhou os carros voadores Spinner, incluiu inspirações de Scott como os do desenhos de Moebius, a pintura Nighthawks, de Edward Hopper, e os comics franceses Métal Hurlant

Uma autoria que se desenvolveu, depois, na criação de outras atmosferas futuristas, principalmente nos veículos e nas naves espaciais que Mead desenhou e/ou inspirou para outros filmes. O jornal Le Monde recorda, a propósito, o testemunho do designer da trilogia inicial de Star Wars, Joe Johnston, que lhe atribui a inspiração para os tanques quadrúpedes de O Império Contra-Ataca.

“Syd Mead desempenhou um papel primordial na estética do cinema com sua capacidade única de visualizar o futuro. As suas visões e ilustrações de mundos tecnológicos futuristas permanecem como um testemunho da sua vasta imaginação. Mead é um dos artistas conceptuais e designers industriais mais influentes do nosso tempo”, disse Nelson Coates, o presidente da Art Directors Guild, instituição que anunciara já uma homenagem ao designer de Blade Runner na próxima gala daquela agremiação profissional de Hollywood, a ter lugar no dia 1 de Fevereiro em Los Angeles. 

Syd Mead gostava de limites, fosse num trabalho comercial como o desenho dos interiores do avião Concorde para a Air France ou de ilustrações para os hotéis Intercontinental, ou num trabalho como concept artist para Hollywood como os que fez para Missão: Impossível 3 (2006 ) ou Elysium (2013). “Num filme, o guião é a Bíblia e o realizador é deus. Às vezes, é muito difícil trabalhar alguns dos deuses – talvez como o deus verdadeiro, não sei”, disse ao PÚBLICO em 2014. 

Notícia corrigida às 8h39 de 2 de Janeiro: nome do designer de Star Wars

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