Netanyahu consegue vitória expressiva nas primárias do Likud

Apesar de formalmente acusado por corrupção, o primeiro-ministro venceu com 72,5% o desafio do antigo ministro Gideon Saar.

,Primeiro Ministro de Israel
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Benjamin Netanyahu fez campanha até ao último dia para as primárias CORINNA KERN/Reuters

O primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, venceu com uma grande margem o desafio levantado por Gideon Saar, seu antigo ministro, para a liderança do partido: 72,5% dos eleitores que votaram nas primárias do Likud nesta quinta-feira escolheram Netanyahu, contra apenas 27,5% que votaram em Gideon Saar.

Ninguém esperava que Netanyahu perdesse. Como dizia um eleitor a um jornalista do Haaretz, “o Likud não substitui os seus líderes”.

A campanha de Saar dizia, no dia da votação, que 30% já seria um óptimo resultado contra um homem que ocupou mais tempo do que nenhum outro o cargo de primeiro-ministro e a quem muitos dão crédito por ter conseguido o reconhecimento americano de Jerusalém como a capital do país e a mudança da embaixada de Telavive para a cidade, ou a declaração dos EUA de que os colonatos em território ocupado não são ilegais – mudanças de fundo em relação à que foi durante décadas a política oficial dos Estados Unidos.

Ainda assim, a vitória do líder do partido de direita foi especialmente expressiva. O que pode trazer um problema não para Netanyahu, mas para o seu partido. “O Likud já não existe, é o partido de Netanyahu”, comentava Anshell Pfeffer, do Haaretz. Noga Tarnopolsky, a escrever para o site americano Daily Beast, diz o mesmo: “O Likud vai concorrer com um candidato acusado que perdeu duas eleições e só quer uma coisa: imunidade legal, que o público detesta”.

Na terceira eleição no espaço de um ano, não se espera que haja um resultado diferente: os dois principais partidos, e os dois blocos que poderiam formar uma coligação liderada por um deles, estão empatados.

A razão de Saar para concorrer não foi tanto focar-se na acusação de corrupção contra Netanyahu – o primeiro-ministro diz que está a ser alvo de uma caça às bruxas e Saar não o desmentiu.

Saar tentou, sim, apresentar-se como alguém que pode desbloquear este impasse político, conseguindo uma coligação impossível para Netanyahu porque o seu principal rival, Benny Gantz, recusa formar governo com alguém sobre quem penda uma acusação judicial por corrupção. A única saída para um governo maioritário é ter outro candidato do Likud. Mas a expressão da votação nestas primárias representa um falhanço para Saar.

Em Israel, especula-se que a estratégia de Netanyahu é usar o tempo que falta até às eleições de dia 2 de Março para negociar um acordo – poderia receber imunidade em troca do seu afastamento da cena política. Saar candidatou-se também para marcar posição neste cenário.

Pedido de imunidade?

A situação actual é totalmente inédita em Israel – duas eleições sem possibilidade de coligação, um primeiro-ministro acusado e liderando um executivo interino com poderes limitados há quase um ano. E há quem tema pior, como Anshel Pfeffer no Twitter: “A maior implicação do resultado [das primárias] é que se a terceira eleição tiver um resultado semelhante à segunda, ainda há menos hipóteses de Netanyahu concordar com uma chefia de Governo rotativa em que Gantz ocupe o cargo primeiro. Porque o faria? A não ser que haja uma coligação pronta para o afastar, ele é intocável”.

Gantz tem defendido a solução de chefia do governo rotativa com a primeira metade para si próprio como modo de deixar o primeiro-ministro actual lidar com o seu processo judicial – nada na lei obrigada Netanyahu a demitir-se, mesmo que acusado; apenas após uma condenação seria obrigado a sair, embora seja óbvio que um processo por corrupção distrairá qualquer líder político.

Mas ​o procurador-geral, Avichai Mandelblit, recebeu várias petições argumentando que Netanyahu não pode continuar no cargo, com base numa lei que impede responsáveis públicos serem nomeados se forem acusados judicialmente.   

Noga Tornapolski diz que o objectivo de Netanyahu é agora tentar conseguir uma maioria no Parlamento que aprove uma lei de imunidade. Após ouvir o resultado das primárias, o seu colaborador próximo Miki Zohar comentou que “está dada a resposta sobre se devia pedir imunidade”. Esta é, no entanto, muito pouco popular: 70% dos inquiridos em sondagens têm-se declarado contra a imunidade.

Pedir imunidade é algo que Netanyahu tinha prometido não fazer, na fase em que garantia “não vai haver nada porque não há nada” na investigação por corrupção. Mas, como diz o jornalista Yossi Verter no Haaretz, a alternativa é disputar a campanha com um processo a avançar e a possibilidade de a primeira sessão acontecer ainda antes das eleições.