Exposição em Vila Franca lembra a noite mais negra: as cheias de 1967

Maior tragédia depois do terramoto de 1755 afectou sobretudo zonas rurais mais pobres. Exposição revela imagens e documentos que o antigo regime escondeu.

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O ciclone e as cheias que, na madrugada de 26 de Novembro de 1967, se abateram sobre a região de Lisboa terão provocado mais de 700 vítimas mortais. A dimensão da tragédia foi minimizada pelos mecanismos de censura do antigo regime, que “contabilizou” 462 mortes, não tendo revelado ao país muitas das consequências da catástrofe e, sobretudo, as condições de pobreza em que vivia a maioria das vítimas. No momento em que as cheias voltam à ordem do dia, em Vila Franca de Xira recorda-se, em exposição, essa noite negra.

O concelho de Vila Franca de Xira foi o mais afectado e só no Lugar das Quintas, uma pequena aldeia da freguesia de Castanheira do Ribatejo atravessada pelo Rio Grande da Pipa, morreram 89 dos cerca de 150 habitantes. Segundo registos do Instituto de Meteorologia, a tromba de água que caiu sobre a região em poucas horas terá sido a maior do século e os danos estenderam-se de Cascais até Alenquer e Arruda. Em poucas horas choveu mais do que seria normal num mês de Novembro.

Mas a falta de comunicações e de iluminação pública fizeram com que a população de aldeias como as Quintas fosse “apanhada” pelas cheias enquanto dormia. A água subiu rapidamente três/quatro metros nas zonas mais baixas do lugar e raros foram os que conseguiram escapar com vida.

“Cheias de 67” é o título de uma grande exposição inaugurada, neste mês de Dezembro, no Celeiro da Patriarcal, em Vila Franca de Xira. Resulta de dois anos de investigação e de recolha documental e revela muitas imagens e alguns documentos desconhecidos dos portugueses. É o caso de um conjunto de fotografias do inglês Terence Spencer, que na altura não foram divulgadas em Portugal. Reúne, também, 25 depoimentos de pessoas que de alguma forma viveram a tragédia de Novembro de 1967.

A exposição tem o Alto Patrocínio do Presidente da República e curadoria do jornalista Joaquim Letria que, na manhã de 26 de Novembro de 1967, foi o primeiro repórter a chegar ao Lugar das Quintas. O então jovem jornalista do Diário de Lisboa não estava preparado para o que encontrou e quando o questionamos sobre isso não consegue travar algumas lágrimas. “Sabíamos que estava ali uma terra que estava isolada, mas não fazíamos ideia do que íamos encontrar. Encontrámos 89 mortos numa população de 150 pessoas. E isso diz tudo. O resto era lama, destruição. Foi uma situação que ficou sempre marcada na minha memória. Ao longo da minha vida, infelizmente, vi coisas ainda piores talvez, noutros países, noutros contextos, mas nada me marcou tanto como o que vi no Lugar das Quintas”, diz Joaquim Letria ao PÚBLICO. O repórter apanhou, então, “boleia” num barco de borracha da marinha (não havia outra forma de acesso) e com dois fuzileiros e dois bombeiros deparou-se com os contornos mais dramáticos da tragédia.

“Voltámos para trás, para a Castanheira do Ribatejo, e dissemos o que tínhamos encontrado. É a partir daí que aparecem os primeiros socorros que partem para as Quintas. Os militares foram muito importantes nesse apoio”, recorda Joaquim Letria, vincando que aquelas pessoas viviam em habitações precárias, como aliás se vivia nas zonas rurais país fora. “Eram as casas que tinham. Portugal era um país muito pobre e nas cheias de 1967 vamos encontrar as mortes nas zonas mais pobres. Porque se formos para Cascais, que foi onde mais água caiu segundo o Instituto de Meteorologia, não houve uma morte”, constata o jornalista e curador da exposição, considerando que Portugal mudou muito nestes 52 anos, mas ainda não terá aprendido muito com tragédias como esta.

“A sociedade portuguesa era igual ao que é hoje, o país é que é outro. Nós, hoje, queixamo-nos de que há muita coisa mal, é verdade. Há coisas que podiam estar melhores, é verdade. Coisas que podiam ser bem tratadas e não são, também é verdade, mas se olharmos para estas fotografias e pensarmos o que isto era há 50 anos, vemos que, apesar disso tudo, nós progredimos muito e é outro país”, sublinha Joaquim Letria. Mas não persistem grandes diferenças entre o litoral e o interior? “Claro que há – admite Joaquim Letria - mas, apesar de tudo, o Portugal do interior de hoje não é o mesmo de há 50 anos.

A maior tragédia

De acordo com a Câmara de Vila Franca de Xira, esta exposição “pretende contribuir para um melhor conhecimento da realidade política e social da região naquela época, bem como dos acontecimentos que marcaram para sempre a história do nosso país”. A autarquia sublinha que esta foi a maior tragédia ocorrida em Portugal depois do terramoto de 1755 e que, com esta iniciativa, procura, igualmente, “prestar homenagem a todas as vítimas desta tragédia, em particular as do Lugar das Quintas, de Alverca e de Alhandra, localidades do município que foram então particularmente atingidas”.

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Segundo Manuela Ralha, vereadora da Câmara de Vila Franca com o pelouro da Cultura, esta mostra é o resultado de dois anos de trabalho aturado de investigação. Trabalho que envolveu a recolha de 25 depoimentos muito relevantes e que permite, também, produzir um catálogo circunstanciado sobre este tema, que será lançado em Fevereiro. A exposição “Cheias de 67” estará patente até 5 de Abril no Celeiro da Patriarcal, mas será, depois, parcialmente apresentada em cada uma das restantes cinco freguesias e uniões de freguesias do concelho. A autarquia ficará, também, com um arquivo organizado sobre o tema que, entre muitos outros materiais, inclui fotografias de Terence Spencer (cerca de 300) e de Eduardo Gageiro e filmes da RTP.

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“Não foi fácil organizar uma exposição deste tipo, foi uma equipa que trabalhou muito. Exigiu muita investigação, porque a maior parte das coisas que aqui se vêem não são novidade, mas são inéditas”, acrescenta Joaquim Letria, vincando que muitas das imagens então captadas não foram divulgadas em Portugal na época porque a censura do antigo regime procurou minimizar o impacto da situação na opinião pública.

“Foi uma catástrofe que foi sempre muito relembrada no concelho de Vila Franca de Xira mas para o resto do país foi um pouco esquecida. Procuramos com esta exposição perpetuar esta memória”, realça Manuela Ralha, garantindo que, para a exposição, a autarquia procurou seguir critérios de bom senso, evitando expor algumas imagens que poderiam ferir a sensibilidade de familiares das vítimas. “Temos fotografias brutais. Tivemos a parcimónia de perceber até onde deveríamos ir para não ferir a população e não ferir a memória daqueles que pereceram nesta tragédia”, conclui a autarca vila-franquense.

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